segunda-feira, dezembro 17

O conhecimento pronto estanca o saber;
A dúvida provoca a inteligência.



No que respeita ao conhecimento pronto, este é decerto o pior inimigo das nossas mentes, pois inculcar tal tipo de ideias preconcebidas não permite fundamentar e expandir as nossas verdadeiras opiniões. Não concebo que haja indivíduos incapazes de pensarem por si mesmos neste mundo e, como tal, não vejo razão para não se exprimirem de livre e espontânea vontade, porque saber expor o que nos vai na alma é saber expor a realidade e os seus factos, mesmo que isso implique confrontarmo-nos com opiniões opostas ou com outras com que não concordamos. Sempre que nos deparamos com os media ou até com uma força política, não devemos deixar-nos iludir pelas belas palavras, mas sim fazer tábua rasa dessas ideias que, à força pretendem paralisar o nosso sistema cognitivo.

O saber e a dúvida são os nossos únicos aliados neste combate, na medida em que só com eles conseguimos transmitir interesse pelo que nos rodeia, abrindo-nos caminho para uma visão mais clara e ampla sobre o mundo.

Como uma flor que necessita de água e sol para ser bela, também a inteligência merece informações actualizadas para ser cultivada, mas, por sua vez, essas informações devem passar por etapas de selecção informativa, isto é, privilegiar o essencial e construir a sua própria opinião à volta desse tema e pesar os prós e os contras.

Para tal, basta, desde muito cedo, privilegiar uma educação aberta e sensível aos assuntos do quotidiano que vão surgindo, porque viver cada dia que passa é também instruir-se, mesmo com as coisas mais banais existentes à nossa volta, basta só olhar com atenção para as coisas demasiado escondidas…

Elsa Santos, aluna de Línguas Aplicadas, Universidade do Minho

sábado, dezembro 8

PERSISTÊNCIA

Cérebro das crianças, 1 – Cérebro do adulto, 0

- Papá, podemos comer um gelado?
- Não, responde o pai, distraído.
- Papá, queremos um gelado.
- Já disse que não.
- Ohhhhhhhhh, vá lá, papá, queremos um gelado!
- Já disse que não. Parem de pedir.
- Papáááááá, por favooooor, queremos um GELADO!
- Parem de me aborrecer e deixem-me tranquilo. Já disse que não.
Após um momento e pausa e reflexão, as miúdas insistem:
- Vá lá, papááááá, por favoooooooor, queremos um GELADO!
- Já disse que não e é não.
Novamente, depois de uma pausa, de se abraçarem às pernas do pai e de olharem para ele com ar suplicante, começa a canção ao estílio de Olívia:
- Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado!
- PRONTO, ESTÁ BEM! Mas só desta vez!

Acabo de ler o livro de Tony Buzan, A Criança Inteligente. Li-o até ao fim. Bom sinal. Fui persistente, como as miúdas do gelado. Sem PERSISTÊNCIA não vamos a lado nenhum!

sexta-feira, novembro 30

QUEM É IDIOTA?

Einstein era um idiota. Afinal não era.
Perguntam a uma criança: escolhe o elemento que está a mais no grupo: Sol, Terra, Lua, limão. Os inteligentes responderiam limão. A criança responde Terra. Logo, é burra. Perguntam-lhe o porquê e ela explica: porque a Terra é azul. Mas a Terra é azul vista do espaço, e o Sol, a Lua, o limão, podem ser amarelos. Conclusão: a criança é mais inteligente do que os restantes inteligentes. Mais inteligente, ou mais criativa? Li isto num livro e fiquei a pensar.

quarta-feira, novembro 28

AUGUSTO CURY

Ando a ler os livros deste brilhante psiquiatra e escritor. E, se ando a lê-los, é porque gosto. Gosto sobremaneira da forma como nos estimula a sermos únicos e verdadeiramente extraordinários. Tenho lido pequenas passagens dos seus livros nas minhas aulas mais duras. E sinto que os jovens também gostam. Oxalá o leiam e derramem algumas lágrimas com ele.
Diz ele:

A maior aventura de um ser humano é viajar,
E a maior viagem que alguém pode empreender
É para dentro de si mesmo.
E o modo mais emocionante de realizá-la é ler um livro,
Pois um livro revela que a vida é o maior de todos os livros,
Mas é pouco útil para quem não souber ler nas entrelinhas
E descobrir o que as palavras não disseram...


No Natal, ofereça um destes livros aos seus filhos, ou aos seus pais. Acreditem que vale a pena!

Filhos brilhantes, alunos fascinantes
Pais brilhantes, professores fascinantes
Nunca desista de seus sonhos

segunda-feira, novembro 12


1º Encontro Nacional do Fórum de Numismática

Uma definição muito geral diz-nos que a numismática é uma ciência auxiliar da História, que estuda fundamentalmente as moedas e as medalhas e que, por amplificação, abarca tudo o que se relacione com o coleccionismo e correlativa classificação de valores de câmbio, entre os quais se relevam as notas e as cédulas. Coleccionar, descrever e classificar moedas, medalhas ou notas, de Portugal ou de todo o mundo, sob o ponto de vista histórico, artístico ou mesmo iconográfico, é algo absolutamente impagável, e que mobiliza milhões de aficionados em todo o mundo. Em Portugal, o Fórum de Numismática é o ponto de encontro de todos os amantes da numária portuguesa, e, parcialmente, da mundial. O sítio da Internet em www.forum-numismatica.com tem, neste momento, 1500 inscritos, e encaminha-se a passos de gigante para os 2000, cifra absolutamente extraordinária para um Fórum jovem em pleno crescimento. Nele se ensina e aprende TUDO sobre moedas, medalhas e notas portuguesas, da monarquia e da república, das ex-colónias e das ibéricas anteriores à nacionalidade, das romanas às gregas e a outras da antiguidade. Especialistas de diversas épocas estão sempre presentes e disponíveis para ajudar o principiante que, descoberto o Fórum, nele se vicia e nele aprofunda os seus conhecimentos. O Fórum de Numismática é, neste momento, uma verdadeira Universidade. Por decisão democrática e unânime, realizou-se neste fim-de-semana, no Centro Cultural D. Dinis, em Coimbra, o 1º Encontro Nacional do Fórum. Estiveram presentes nomes importantes do universo numismático português cujos exemplares, entretanto mostrados, deliciaram todos os participantes. Foram apresentados alguns programas em desenvolvimento, nomeadamente para ceitis e para outras áreas da nossa numária, que, a breve trecho, revolucionarão as técnicas de análise e de catalogação em uso. A organização foi exemplar e prepara-se já o próximo Encontro.

segunda-feira, outubro 29

O VELHO

O sol crestava a terra. Eram duas da tarde e, na poalha nevrálgica dos campos, a quentura do Outono quase enlouquecia. Este ano a temperatura ergueu-se em poses altaneiras e convida à sombra, ao sono poltrão debaixo da ramada. Pensara dirigir-me ao rio, à frescura verdejante das águas, e para lá me guiava, entre visões coloridas de folhas em queda permanente. Numa tarde assim, inebriando o cheiro das longínquas águas, aquele quadro perturbou-me, qual Rembrandt pintando encurvadas ceifeiras. No campo empedernido coberto de palhas, um velho esquálido colava-se ao arado. De barba longa e branca, o seu esforço ingente aliava-se ao esgares do boi que, babando forças, rasgava sulcos negros na terra ressequida. Ao fundo, na sombra ligeira do valado, um jovem, aparentemente mongolóide, espreguiçava um chapéu largo de feltro. Meio campo semeado de sulcos; outro meio por semear. Olhando bem, parecia-me ver em cada leira marcas de suor, do homem e da besta irmanados no mesmo objectivo. O quadro era um clássico, com todos os traços da rural realidade: nem traço de modernidade, nem tractores, nem máquinas, apenas o homem, o animal e a terra, tal como em tempos ancestrais. E dei comigo a pensar no mito fundamental do eterno retorno, deste regresso à nossa origem, inevitavelmente telúrica, inexoravelmente humana: que motivos ponderosos cravavam aquele velho assim à terra e ao arado, quantas lágrimas de suor não contaria a chamejante poalha? A vida é bela vista assim, de passagem, retocada em quadro. Qual seria, no entanto, o preço da figuração real?

quarta-feira, outubro 10

CENTRO DE ESTÁGIO DAS CAMÉLIAS – QUE BELEZA… ;)

Quem acompanha o fenómeno desportivo com maior ou menor regularidade, especificamente o futebol infantil e juvenil bracarense, há muito ouviu falar de infra-estruturas inexistentes, e também há muito ouviu responsáveis locais jurarem a pés juntos que “este ano é que é!”, “finalmente os nossos jovens vão deixar a lama e o pasto para as vaquinhas”. Pela minha parte, já várias vezes expus a vergonha de ver uma cidade como Braga sem nenhum tipo de estrutura para a prática do futebol, dado que as verdadeiramente existentes eram “pertença” do Sporting de Braga. E creiam que, por muito que da edilidade me jurassem que “este ano é que é!”, eu nunca acreditei muito, pois tinha a ideia de que os nossos diligentes edis tinham outras preocupações, e não estavam para se chatear com essas coisas do desporto para as criancinhas. Não acreditava, mas peço desculpa. Eu já não ia às Camélias há bastante tempo, fui lá ontem e fiquei completamente deslumbrado. Para quem não se lembra do lugar, digo-lhes que por lá passeavam cobras e lagartos, no meio do imundo silvedo, para além das tradicionais vaquinhas que, em tempo de florescentes exposições, defecavam ali, no exactíssimo lugar onde o Luís se estirava para a magistral defesa. Aliás, o cheiro a bosta era, se bem se lembram alguns, uma espécie de elixir, de estimulante para as grandes jogadas e para as defesas magistrais. Lembro-lhes também que, naquela zona baixa dos campos, florescia a malta da droga, que aproveitava e bem, na sua perspectiva, claro, os espaços assim vilmente abandonados.
Pois, eu já não ia às Camélias há algum tempo. Por isso fiquei de boca aberta, embasbacado, de olhos assim para o estupefacto, quando vi a verdura cintilante dos seus campos. Finalmente, gritei. Até que enfim estes gajos fizeram alguma coisa de jeito! Em cima, um balneário de um branco imaculado, rodeado de jardins cheiinhos de roseiras. Uma piscininha ao fundo dá-lhe um ar asseado. Ao lado, dois campos de futebol de um verde sintético de chorar por mais. Mais em baixo, naquilo que dantes era antro, que beleza… Um novo campo com um centro de estágio ao fundo. E nos três campos, como grilos de asas chamejantes, dezenas, centenas de miúdos corriam e gritavam atrás da bola. Quase chorei de alegria. Finalmente, meu Deus, finalmente os edis fizeram obra. Obrigado, meu presidente, obrigado, meu vice-presidente. Obrigado, minhas vereadoras. Que Deus os abençoe por tão supimpa obra, que enobrece, que engrandece, que, que, que faz da nossa cidade a melhor cidade do mundo. Agora sim, é bom viver em Braga!
In Diário do Minho, 07.10.2007

segunda-feira, setembro 24

CRÓNICA DE UM QUADRO NA VALETA

A crónica, o quadro e a valeta. Não é suposto escrevinhar-se mais ou menos literariamente sobre esta dupla assim tão antagónica. Quer dizer, poderia ser. Conhecemos pinturas famosas de sanitas, porque não de valetas a abarrotar de lixo? Mas não, não é de lixo que se trata, é mesmo de um quadro na valeta.
Um quadro é um quadro, como diria Wittgenstein, uma figuração da realidade. Aquele quadro tinha uma moldura e, dentro da moldura, um menino derretido em lágrimas. Não sei bem se chorava por estar mesmo na valeta, ou se a valeta tinha cascas de cebola, daquelas que fazem chorar até um cavalo. O que me chamou a atenção não foi o quadro, nem a valeta. Foi antes o facto de, a menos de 20 metros, três contentores se espreguiçarem, sobranceiros, à espera das nossas santas sobras.
Não sei se o menino choraria melhor dentro do contentor, nem sei se por lá sobrariam umas tiras de cebola da Índia. Mas raios, isto de estilhaçar tão triste figurinha pelas ruas da amargura não se faz. Um quadro deve estar na parede, bem visível, bem pendurado em prego forte e altaneiro. Na valeta não. Porque na valeta estamos todos, todos os reais, não precisamos de figurações. Essas são para contemplar nos momentos em que estamos na valeta.

segunda-feira, setembro 17


Um dia vi este mural de Siqueiros, já lá vão uns bons anos. Olhei para ele e nunca mais o esqueci. Numa época em que a palavra democracia ganhava asas, ver A Nova Democracia assim agrilhoada deu-me que pensar. As grilhetas, hoje, são bem maiores, e o grito bem mais lancinante. Ou não? Serei eu incapaz de sopesar a insustentável leveza do ser de que nos fala Kundera?
LIVROS

Hoje fui às compras. De livros, porque o ano escolar está no começo.Cheguei exactamente às nove a uma livraria. Meu Deus, uma fila enorme, aí umas cinquenta pessoas. Desisti e fui a outra.Pouca gente e apenas um livro. Por isso estava pouca gente. Um livro para o 9º, 23 euros. A coisa começava bem! Dirigi-me a outra livraria, ali pelas bandas da Sé de Braga. Mais dois livros, 43 euros. Boa! E fui a uma terceira. Mais quatro livros. 56 euros. Excelente! Falta um livro de TIC, ninguém o tem, o meu filho até me diz que não vale a pena comprá-lo. Pergunto porquê. Porque os professores nunca os usam. Hem? Bem, então aguarda-se. Uma amiga arranjou-me os restantes três, poupou-me 80 euros. Quem disse que o ensino é gratuito? O problema é que não sei o que fazer com os livros do ano passado. Pensei oferecê-los à escola, talvez algum necessitado... Que não, não valia a pena. Os livros mudaram todos... Que coisa, será que vou deitar livros ao lixo? Fico cogitando, como o meu amigo Descartes..

domingo, setembro 16

MADDIE

Leio, ouço, vejo, e cada vez mais concluo que o virtual ultrapassou definitivamente o real. Jornalistas, portugueses e ingleses, definitivamente idiotas, inventam factos e, insensíveis, gozam da dor alheia. No meio disto tudo, a criança. Onde estará Maddie? Porque Maddie é e deverá ser sempre a única pessoa importante em todo este insuportável floclore. Eu acredito que está viva e que os pais sofrem. E também acredito que a nossa polícia está a fazer um trabalho digno.

sábado, setembro 8

FEIRA DE NUMISMÁTICA EM SANTO TIRSO

Acabo de chegar. Dei um salto a Santo Tirso. Dia bonito, seis vendedores de moedas, nada que me servisse. Mas o António de Rio Tinto disse-me que tinha por lá uns ceitis, depois mostra-mos. Cetis e dinheiros, dinheiros e ceitis, isto é uma maluqueira do caraças... Mas há maluqueiras bem piores... :)

domingo, setembro 2

FEIRA DE NUMISMÁTICA EM BRAGA

Hoje foi a vez da feira de Braga, ali nos claustros do Castelo. Estavam quatro vendedores, já não é mau: o Paulo Oliveira, o Luís Rodrigues, de Caminha, um amigo de Barcelos e outro creio que de Braga. O Paulo e o Rodrigues vão tendo umas coisitas interessantes. Os outros nem por isso. Tenho a percepção de que bom material da monarquia já não existe, dificilmente encontro algo que encaixe nas minhas colecções. Mas o coleccionismo da moeda é mesmo assim: devemos aguardar a oportunidade, às vezes aparece um exemplar de nos encher o olho, e aí sim! Sábado vou até Santo Tirso. Domingo sou capaz de ir a V.N. de Cerveira.

sábado, setembro 1

FEIRA DE NUMISMÁTICA EM GUIMARÃES

Conheço todo o calendário das feiras de numismática. Sei que, no primeiro sábado de cada mês, se realiza uma feira em Guimarães. Já lá fui muitas vezes e confirmo que valia a pena ir. Valia. Porque já não vale. Nos duas últimas feiras, isolado e só, com moeditas da república e alguns euros, o mesmo vendedor da esquina. Tão cedo não volto lá. E é pena, porque Guimarães é cidada lindíssima e que merece visitas sistemáticas. Adoro Guimarães, eu, que sou de Braga!

quarta-feira, agosto 29

QUANDO AS FÉRIAS TÊM ASAS...

E já são 29... Que chatice...

segunda-feira, agosto 20

TSUNAMI?

Este ceitil não é meu, vi-o no fórum OMNI, espanhol, e achei graça ao comentário do autor do tópico: " He encontrado pruebas científicas de un tsunami en la Edad Media en Portugal, de como las ollas engullian las torres de los castillos". Este ceitil de Afonso V é, na verdade,muito bonito. Devido a dupla batida, um torreão parece afundar-se nas águas revoltosas do mar. Por estes pormenores e por outros, tenho uma admiração especial por dinheiros e ceitis. Quando os olho, descubro sempre coisas novas, que me prenchem o espírito nas horas de lua chata.

sábado, julho 28

LER É PRECISO!

“Também lês disso?”, perguntaram-me um dia quando me viram com “A Bola” na mão. Pergunta estúpida. “A Bola”, o “Record”, o “Jogo” e outros jornais desportivos são veículos importantíssimos de cultura e, num país que assume o seu profundo gosto pelo futebol, veículos quase insubstituíveis. De manhã, quando tomo o meu cafezito na esplanada em frente, não há cliente que não folheie um jornal desportivo, entre outros. Se não aprofundam outro tipo de leitura, que as pessoas leiam pelo menos jornais. Por isso fiquei contente quando peguei hoje no “Record” e vi lá uma pequena entrevista a Aguiar e Silva, professor catedrático jubilado das Universidades de Coimbra e Minho. Não sabia que o professor tinha jogado futebol, que aprecia natação ou atletismo. Mas era fácil presumir o seu amor pela cultura desportiva: profundíssimo conhecedor da cultura greco-latina, ele sabe que nos jogos olímpicos da antiguidade se projectava a humanidade em todo o seu esplendor. Se até as guerras paravam para ver os desportistas…
Viva o desporto! Vivam os jornais desportivos! Vivam todos os que acreditam que a CULTURA também se faz de dardos, de discos, de varas e de relvas, de campos enlameados, de palavras, de frases e de ideias além dos nossos grandes saramagos.

terça-feira, julho 24

A MINA

Não consigo perceber porque se preocupam tanto com o petróleo. Se o descobrirem ao largo de Peniche (lagarto, lagarto, toc, toc, toc…), era uma vez uma costa linda e donzela. Porque do Carvoeiro, nem vê-lo, quando muito ver-se-á ao longe e ao perto a negridão do carvão… Também não entendo esta azáfama em torno de ouros ou volfrámios, como se de metais vivêssemos neste rectângulo cada vez mais quadrado. Vocês já viram os bancos? Não mexem uma palha, a malta vai de joelhos e sai a esguichar sangue, e ele são lucros fabulosos em hora de soluço colectivo. Portanto, a prospecção só faz gastar dinheiro, é completamente desnecessária, além de dar cabo dos costados cá do pessoal que, na escuridão das minas, tem de vergar a cerviz a tudo quanto é capataz. E tudo isto porque, já viram bem, há uma mina nas estradas, nas ruas e ruelas, nos becos sem saída de cada cidade ou quarteirão. Alguns já descobriram a mina. Ou as minas. Por exemplo, a dos parques de estacionamento. Grande mina, hem? E esta dos limites de velocidade? Caramba… Mais vale tarde do que nunca. Ele era o Porto, ele é Lisboa, é só minério a entrar nos cofres das edilidades… Tenho de me pôr a pau: o meu mesquitinha ou anda a dormir ou anda a programá-las. E era bem feito! Porque é preciso pagar a Pedreira nem que seja à pedreirada… Oh Mesquita, acorda, rapaz!!!

domingo, julho 15

Para quem é, bacalhau basta

Quando eu era rapazote, de canastra na cabeça e pose lampeira, as sardinheiras apregoavam em bem sincopados pregões: “Vinte à croa!”. Era o tempo da sardinha farta e só aparentemente barata. Pelas bandas da aldeia, comer uma sardinha era descobrir o cheiro do mar, e como ela sabia bem em cima de um naco de pão…Tal como as iscas de bacalhau, iscas fritas, que o bacalhau cozido ficava sempre debaixo das couves e das batatas até ao arroto final. Naquele tempo, pois, eram a sardinha e o bacalhau. Peixe do povo, que nem de léguas mirava outras suculentas barbatanas. Para o povo, chegava a sardinha e o bacalhau. Aliás, era o que podia comer, quando de longe se apregoava o pitéu. Mas para os outros havia com certeza boa lagosta e bom camarão. “Para quem é, bacalhau basta”. Naquele tempo, que não agora. Porque agora, o bacalhau não basta ao povo. Já viram o preço dele? Ontem fui comprar duas postas demolhadas, congeladas, assim para o pequeno. Fiquei de olhos em bico: 15 euros (que saudadinhas da croa = coroa=50 centavos)! Meu Deus, como os tempos mudam. No S. João paguei sardinha assada a 3 euros… Não! Temos de mudar a expressão. Melhor será dizer que, “Para quem é, bacalhau talvez baste”. Isto se quisermos dar de oferenda um bacalhau ao grande amigo. Ou talvez um peru. Mas cuidado com os sentidos, que esta língua é mesmo muito traiçoeira…

sexta-feira, julho 13

ESTE ZEQUINHA...

Gosto de trabalhar de noite. Como de costume, ontem ia lendo e escrevendo umas coisitas enquanto via o Chile-Portugal, em sub-20. Não esperava grande coisa da equipa portuguesa que, nos jogos anteriores, demonstrou demasiada fragilidade. Treinador de sofá como sou, lá me vou apercebendo de que estas equipas formadas e orientadas pelo José Couceiro não valem mesmo nada, não criam um lance em condições, andam à deriva. O que vi ontem, no entanto, ultrapassa a linha do minimamente admissível. Os jogadores do Chile corriam dez vezes mais do que os nossos, tacticamente deram-nos um bailinho de todo o tamanho. Não sei muito bem como são escolhidos estes jogadores “de selecção”, como pomposamente gostam de ser chamados. Tenho para mim, no entanto, que dar uns toques e fazer umas piruetas não tem nada a ver, um futebolista profissional que se preze tem de ter tudo no sítio, incluindo logicamente a inteligência e a emoção. Não é de agora que os jogadores portugueses mostram uma fragilidade emocional confrangedora, e algo vai mal no reino dos nossos futebóis. Então aquele final de jogo, com a agressão do Mano e com o Zequinha a tirar o cartão da mão do árbitro, foi de gritos. E não é que o Zequinha ainda se achava com razão? Viram como ele saiu do campo agarrado pelos colegas? Jogar na equipa de Portugal tem de ser outra coisa, muito diferente, a agressividade deve ser demonstrada no próprio jogo e sempre dentro das suas leis. Jogadores com esta instabilidade emocional não podem jogar na selecção portuguesa, tal como não podem comandá-la treinadores que perdem sempre por causa dos árbitros… Que tristeza!

quinta-feira, julho 12

O DESPORTO E A LEITURA...

Sempre gostei de desporto, joguei futebol, participo o mais possível nas actividades desportivas dos meus filhos, aceito inclusive dirigir de uma ou outra forma alguns clubes, ou pelouros de clubes, tudo em nome da saúde física da minha gente. Como se diz em português corrente, “vou a todas”. Acho, aliás, que o desporto é “a” escola de todas as virtudes. Por isso participo, e leio. Há tempos, um amigo que me conhece a veia mais intelectual, vendo-me a ler “A Bola”, perguntou-me meio admirado: “Também lês disso?”. Que resposta havia de dar a tão perplexo amigo? Respondi-lhe: “Claro que leio. E tu, não lês?”. Olhou para mim e acho que percebeu. Porque a cultura também passa pelo desporto. Aliás, como diria o Eça, também passa pela forrrrrça física, a par da forrrrrrça intelectual. E quando ontem disse ao meu mais novo: “Filhote, não te esqueças de ler”, e ele me respondeu: “Compra-me o “Record” que eu leio”, nem pensei duas vezes. A partir de hoje, volto a comprar o “Record”. Eu, que tenho tudo à mão de semear na Internet… Mas se o meu filho quer lê-lo, eu compro-o, pronto!

sábado, junho 30

PIRANHAS

«Parecemos piranhas atrás dos talentos de Portugal», diz treinador do Newcastle.

É verdade. Portugal tem hoje uma política de formação, na modalidade de futebol, que não tem paralelo em toda a Europa. Clubes como o Sporting, o Porto ou o Benfica, mas também como o Boavista ou o Vitória de Guimarães, marcam a diferença e produzem jovens talentos que, se bem trabalhados, rendem fortunas. Pelos lados de Alcochete, há muito se descobriu o filão. O Sporting tem olheiros em tudo quanto é canto, e os resultados aparecem. O Porto vai tentando. O Benfica, o "maior do mundo", tenta dar alguns passos. Para quem conhece o sistema, o Vitória de Guimarães potencia-se como grande formador, e aqui pelo norte bate-se com todos. Bato palmas ao Vitória que, desde os tempos da Unidade, soube construir um património e um centro de formação de grande valor. Claro que é preciso melhorar, mas os resultados estão aí... Infelizmente, o meu Sporting de Braga, neste aspecto, é uma desolação. A equipas dirigentes só querem saber do futebol profissional e dão zero aos jovens, que, coitados, treinam em 5 metros de terra enlameada. E quantos jovens talentos não têm passado por este nosso clube... São uns anjinhos. Para quando uma equipa dirigente com olhinhos? Eu começaria pela base, pelas infra-estruturas. Partiria do zero, porque o Sporting de Braga, neste aspecto, está no zero! E eles, os jovens, saem do clube, partem, vão para os Sportings. E, claro, servem de refeição às piranhas. Quanto recebeu até hoje o Sporting de Braga por ter feito formação desde os Infantis? Imagino que zero absoluto. Uma tristeza!

sexta-feira, junho 22

DEIA AUS PROBES!

Tenho nas mãos a prova de Português do nono ano de escolaridade. Penso dá-la ao meu mais novo, para treinar, acho que conseguirá resolvê-la sem grande dificuldade. Leio a prova e leio os critérios de correcção. Ou muito me engano ou, com base em tais critérios, os nossos alunos serão todos sumidades. Por exemplo, o ponto nove pede para o aluno imaginar, em uma ou mais frases, um slogan para uma campanha de recolha de alimentos. A solução vale 5% do total da prova. Uma ou mais frases. O que é uma frase? Presumo que alguns alunos escreverão uma frase com uma, duas, três ou mais palavras. Porque é possível construir frases com uma, duas, ou três palavras.Vejo os critérios e noto algo de errado. Porque, desde que o aluno respeite a intenção comunicativa e utilize estratégias discursivas próprias do registo apelativo, e desde que não dê mais de três erros, poderá obter a cotação máxima. Temos então que, sendo DEIA AUS PROBES! uma frase de tipo apelativo que me parece fortíssima, até pelos erros que contém, deverá ser cotada com 5 pontos. Há qualquer coisa realmente errada nestes critérios, não há? Porque, se a intenção da mensagem apelativa é persuadir o outro, o que me impede de escrever uma mensagem com erros desde que cumpra tal objectivo? Lembram-se do célebre Tou Xim? Quantos milhões rendeu esta frase com dois erros de bradar aos céus? Há realmente aqui algo que não bate certo.

sábado, junho 16

AS COISAS QUE ELES INVENTAM…

Um partido português recebeu donativos de um senhor chamado Jacinto Leite Capelo Rego. Eu acho bem, até deviam receber do João de Mil Novecentos e Setenta e Quatro, ou da Naída Navinda Navolta. Nem sei porque os outros partidos se abespinham… Cá para mim, seja Jacinto ou João, seja Natércia ou Navinda, o que é preciso é mover a mó do moinho. E depois admiram-se quando, no café ou no restaurante do lado, o Zé manda umas piadas aos excelsos que nos iluminam…

segunda-feira, junho 11

Afinal fui à Póvoa. A experiência tem-me dito que, quando em Braga chove, na praia está sol. E não me enganei, estava mesmo um céu aberto, pelo menos de manhã. Estavam lá alguns amigos e o Alberto Santos conseguiu vender-me os 500 reis de 1900, do nosso rei D. Carlos. A moedita não foi nada barata, mas dá prazer tê-la na colecção. Os malucos são assim, mas há maluqueiras bem piores... Como fumar, por exemplo. Se fumasse, gastaria, em média, 50 euros por mês, ou talvez mais. Com este dinheiro compro umas moedinhas: tenho prazer em coleccionar e invisto. Porque isto de ter o dinheiro no banco só enche o bandulho daquela gente. É ver os lucros fabulosos que têm diariamente... Ainda dei um salto ao Torneio das Marinhas. É um Torneio de futebol infantil de alto gabarito, movido por excelentes carolas e amigos que, sem esperarem qualquer troco, levam bem longe o nome do seu clube e da sua terra. Vi um pouco do meu Braga contra o Porto, estes putos jogam à bola que se fartam. São uns craques! Parabéns ao clube das Marinhas!

domingo, junho 10

Olá, bom dia! Hoje é domingo, tinha pensado dar um salto à feira de numismática da Póvoa de Varzim, mas o dia acordou cinzento. Será que vai abrir o sol? São sete da manhã. Se não abrir, fico por aqui a ler e corrigir trabalhos. Já não é nada mau, ter trabalho para fazer... Um dia bonito para os meus leitores.

sexta-feira, junho 1

BELO PARDAU...

Estava no Ebay, bem tentei apanhá-lo, mas fugiu-me. Pode ser que apareça por aí novamente. É de D. João III (Índia) com S. Tomé sentado à direita, aproximadamente de 1451. Não gostavam de o ter? É lindo!...

quinta-feira, maio 24

O prefixo ANTI

O prefixo é o elemento da palavra, um afixo, que vem antes da raiz (semantema), e tem origem, em geral, em advérbios ou preposições que têm ou tiveram vida autónoma. Há-os de origem grega e latina, e não poucas vezes causam uma grande confusão, provocada, essencialmente, por factores psicológicos de analogia. O prefixo anti é um desses elementos, e não é fácil sistematizar o seu uso. De um modo simples, porém, podemos dizer que tal prefixo:

a) se junta a todas as consoantes: anticorpo, antigripal
b) excepto às consoantes h, r e s : anti-histamínico, anti-romanismo, anti-semita,
c) e à vogal i : anti-inflamatório.

O significado geral é o de oposição, ou acção contrária.
Não é fácil interiorizar as excepções e jogá-las com a regra. É fácil pensar: se escrevo anti-inflamatório com hífen, antialérgico também deve levar hífen. Errado. Se escrevo anti-semita, porquê anticorpo? Pois é, não há nada como estudar, fixar, sistematizar. Saber Português obriga a saber estas pequeninas coisas...

quarta-feira, maio 23

CARAGO NON... CARAGO!...

No nosso dia-a-dia, de acordo com as múltiplas circunstâncias em que nos movemos, dificilmente usamos um registo de língua uniforme, nem ele existe, como é fácil de ver. Podemos, claro, falar cuidadosamente, com estruturas e palavras “elevadas”, numa conferência de linguística, numa aula de Português, ou, até, numa mesa de café. No entanto, parece evidente que, se participamos num jogo amigável de futebol, o registo desce ligeiramente, e não raras vezes se ouve uma carvalhada acrescida de uma sonora gargalhada. Quer dizer, usamos diversos registos em diversos momentos consoante as circunstâncias, e, se o intuito não for clara e inequivocamente ofensivo, ninguém levará a mal tais carvalhadas. Aliás, expressões consideradas ofensivas, como caralho, ou filho da puta, podem perfeitamente ser usadas com valoração bem positiva. Por exemplo, e neguem-no, se forem capazes, quando vejo Cristiano Ronaldo a torcer os olhos aos defesas e digo Que filho da puta de jogador! Extraordinário…, faço-o com profunda admiração, e nunca com sentido pejorativo.
Vem isto a propósito de uma senhora directora da DREN que decidiu suspender um professor destacado pelo simples facto de ele ter usado a expressão filho da puta num contexto qualquer que não foi especificado ( expressão que, aliás, o professor nega ter usado). E tudo porque, na sua opinião, ofendeu o primeiro-ministro que, ao que parece, é um ser celestial, profundamente angélico e que, durante a sua eremítica vida, nunca deve ter proferido nem uma singelinha carvalhada. Ora, ao que se vislumbra, descobrimos de repente estar o nosso país em fase purgatória, sob os auspícios de angélicos e linguisticamente imaculados dirigentes que, no seu afã de protecção de tachos e panelas, genuflectem perante sábios, eremitas e, pasme-se, até filósofos. Percebe-se a emergência de uma censura que pensávamos a milhas, lá longe, no alto mar. Pelos vistos, as censuras e os censores andem por aí, como diz o zé povinho. Ora bolas: por este caminho, noventa e nove por cento dos portugueses vão ser sujeitos a processo disciplinar por excesso de linguagem. Entom a malta do Puerto, carago… (será que posso dizer carago se o nosso Sócrates me der mais um encontrão? Hmmm… tenho de pensar bem nisso, não vá o diabo tecê-las…).

segunda-feira, maio 21

EUA tentam impedir G8 de impulsionar novo acordo sobre aquecimento global
21.05.2007 – 20h 08m Reuters

É a lei da proporção progressiva: no princípio eram só balas, e lá se foi o índio; nos intermédios eram só bombas, e lá se foram uns, e lá se foram outros; no final de contas, isto é G8 ou é G3? Baixem mas é a bolinha se não ainda disparo umas rajadas que vos lixo...

sábado, maio 19

OS TRÊS

O três é um numeral cardinal, com marca masculina e singular. Quando, no entanto, se ouve a expressão popular os três, plural, remete-se imediatamente para o âmbito sexual. Perder os três significa perder a virgindade. Se procurarmos, porém, o significado de três num qualquer dicionário, dificilmente encontraremos referências que ultrapassem o âmbito numeral. Deixemos a vista alongar-se pelos verbetes relativos a este algarismo e, lá mais para a frente, encontramos o verbete três-vinténs. É isso: quando se fala dos três, fala-se dos três-vinténs. Ora, o vintém é uma moeda, com primeiro curso em D. Manuel I, e os três-vinténs devem corresponder ao meio tostão (50 reais) acrescido de mais dez que, por artes inflacionistas, foram acrescidos ao valor inicial. O tostão media aproximadamente 20 milímetros ( notem bem, 20 milímetros!) de diâmetro. Ora, parece que lá para o norte de África havia o hábito de confirmar a virgindade das donzelas exactamente com uma moeda, que teria mais ou menos o tamanho do hímen. A donzela ganhava ou perdia os três vinténs, consoante fosse virgem ou não. Por metonímia, a expressão deve ter voado de lá para cá, e por isso há quem perca os três. A explicação é interessante e lógica. Mas… exactamente 20 milímetros....?

quarta-feira, maio 16

POIS...

Não, não se trata da princesse aux petits pois, nem do pois chice de que gosto tanto com bacalhau cozido em molho de tomate. Trata-se deste pois, tão eclético em português, que usamos com valorações causais ou conclusivas, e que, em contextos muito específicos, nos deixam torcendo uzolhos ou arrepiando ujdedos. Disse-lhe que não podia ser, que as circunstâncias não o permitiam. Não me disse nada, apenas gorgolejou: Pois… E fechou muito os lábios. Eu percebi-a. Este pois é profundo, e vale novecentas e noventa e nove palavras.

domingo, maio 13

De http://foto-diario.blogspot.com

PUDOR ET VERECUNDIA
Leio « Pudor et Verecundia": deux formes de la conscience morale? de Jean-François Thomas. Penso na origem das palavras, na evolução semântica, na polissemia evidente, na pretensa sinonímia. Pudor: escrúpulo, timidez, modéstia, sentimento de honra ou honorabilidade. Também verecundia>vergonha: sentimento de honra, escrúpulo, timidez, modéstia. Comparo as palavras e parecem-me sinónimos perfeitos. Serão, no entanto, duas formas da nossa consciência moral? Os nossos jovens de calças pelos pés e de cuecas à mostra são despudorados ou desavergonhados? E os nossos políticos, os nossos jardins sem bananeiras visíveis, são sem-vergonha ou sem-pudor? Ora cá está um tema interessante! Ofereço-o a quem queira aprofundá-lo.

quinta-feira, maio 10

ATITUDES

Anteontem fui a um banco depositar uns valores. Quando verifiquei a caderneta voilà um erro: menos 600 euros. Chamei a atenção do empregado que me pediu desculpa e acertou a coisa. Ontem fui ao mesmo banco depositar uns cheques. Quando verifiquei a caderneta, faltavam 1200 euros. Chamei a atenção do empregado ( não era o mesmo) que me pediu desculpa e acertou também a coisa. De manhã, em Guimarães, paguei um café com 5 euros. Recebi de troco 2,5 euros. Chamei a atenção do empregado que me pediu desculpa e acertou a coisa. Ontem à tardinha, na esplanada do Bom-Jesus, paguei dois cafés e umas águas com 20 euros. Recebi de troco 2,80 euros. Chamei a atenção do empregado que me pediu desculpa e acertou a coisa. Acreditem que não estou a inventar, é mesmo verdade! Das duas uma: ou esta gente é muito distraída, ou só sabe somar para baixo e tem de voltar à escola, ou os portugueses são visceralmente corruptos, e não há nada a fazer. Pela minha parte, prometo-me verificar todos os trocos, todos os pagamentos ao milímetro. Porque já sei: a mais nunca receberei um cêntimo; mas é provável que de cinco em cinco minutos me dêem a menos uma caterva deles. Enfim, quem me avisa, meu amigo é... E eu estou a avisar-me.

sábado, maio 5

ROR

Lê-se a palavra. Não, não é rol, é mesmo ror. Mas esta palavra usa-se? Perguntei a uns trinta alunos: ninguém a conhecia. Acrescentei-lhe a preposição de: ror de. Na mesma, como a lesma. Incluí-a numa frase: No S. João estava um ror de gente. Aaaahhh… Agora sim, abriram a boca de espanto. Nunca ouviram ou leram a palavra ou a locução. Mas descobriram o sentido. Interessantes, os mecanismos linguísticos: No S. João estava muita gente. O que poucos sabem é que ror é uma redução de horror: No S. João estava um horror de gente. Costuma estar, desde que não chova.

segunda-feira, abril 30

ROSALÍA DE CASTRO

Un manso río, una vereda estrecha,
un campo solitario y un pinar,
y el viejo puente rústico y sencillo
completando tan grata soledad.

¿Qué es soledad? Para llenar el mundo
basta a veces un solo pensamiento.
Por eso hoy, hartos de belleza, encuentras
el puente, el río y el pinar desiertos.

No son nube ni flor los que enamoran;
eres tú, corazón, triste o dichoso,
ya del dolor y del placer el árbitro,
quien seca el mar y hace habitar el polo.
DIGA-ME, SR. PROFESSOR: QUE É QUE O MEU FILHO FEZ?

O pai de um aluno foi chamado à escola do filho. Quando chegou, disse-lhe: "Diga-me lá, senhor professor, o que é que ele fez? Pelo sim, pelo não, já lhe dei uma tareia". Parece anedota, mas, garante Morgado, aconteceu assim. O caso ilustra como entre algumas famílias está instalada a ideia de que ir à escola dos filhos "é sinónimo de problemas, de ir ouvir alguma coisa má sobre eles". E só isso.

In Público de 30.04.2007

Risível, não é verdade? E dá que pensar. O nosso problema é que pensamos pouco, deixamos que os outros pensem por nós… Eu, que até acompanho razoavelmente a vida escolar dos meus filhos, já senti este problema: os procedimentos burocráticos incidem exclusivamente nos aspectos “negativos” da acção juvenil. O aluno deixa cair um lápis? Comunica-se ao director de turma. O aluno espirra? Comunica-se ao director de turma. O aluno ri-se? Comunica-se ao director de turma. E este, claro, ampliando os acontecimentos, comunica aos pais. Que, embrenhados na sua vida, detestam receber tais comunicados. Em trinta anos de vigilância escolar dos meus filhos, nunca recebi informações positivas suas. Penso que há excesso de zelo da parte de alguns professores, demasiado preocupados com o comportamento dos seus alunos. Tenho para mim que um bom professor saberá encontrar a cada momento as estratégias adequadas, com aulas bem planeadas e atractivas, de forma a não "permitir" maus comportamentos. Em mais de trinta anos de profissão, NUNCA fiz uma participação disciplinar! Nunca achei necessário, nem sei porque deveria passar para os outros responsabilidades exclusivamente minhas. Porque o professor tem de amar os seus alunos, e compreendê-los, e perdoar-lhes, tal como amamos e perdoamos os nossos filhos. Eu sei que a coisa às vezes é complicada, que há comportamentos difíceis de entender, e que há professores sem paciência. Mas...

sexta-feira, abril 27

A CIDADELA BRANCA II

Acabei A cidadela branca. Li o livro em seis horas, nada mau. E se o li em seis horas isso significa que gostei. O tema é simples e poderia resumir-se em “Quem sou eu?”. Não me perguntem porque gostei, eu limito-me a gostar, e o critério estético é exactamente esse, o do gosto. Nesse aspecto, vou na onda do Vergílio Ferreira. Não sei porquê, mas lembrei-me de Borges, esse argentino extraordinário. E é tudo. Ah… para a Margarida, a minha comentadora: quando disse “risquei” queria dizer “sublinhei”. Tenho montanhas de livros sublinhados, são meus e são da minha gente. Tomara eu que o meu mais novo sublinhasse…

quinta-feira, abril 26

A CIDADELA BRANCA

Comecei o Pamuk. Vou na página 70 de A cidadela branca. Risquei a seguinte passagem:

(…) por serem todos “idiotas”, não olhavam para os astros que se moviam por cima das suas cabeças e não reflectiam sobre esses movimentos; por serem idiotas, perguntavam antes de mais nada para o que podia servir o que iam aprender; por serem idiotas, não se preocupavam com pormenores e contentavam-se com resumos (…).

Hmmm… o contexto é diferente, mas isto faz-me lembrar qualquer coisa…

segunda-feira, abril 23

ORHAN PAMUK

Ter alunos estrangeiros tem destas vantagens: nós ensinamos pouco e aprendemos muito. Hoje conversávamos sobre Saramago, sobre as peculiaridades do seu estilo, denso e difícil. Falamos, claro, sobre o prémio Nobel. O Hakan, de barbicha ao queixo, sorriu e perguntou: o professor já leu o Orhan Pamuk? Oh vergonha das vergonhas, disse-lhe que não. Mas é o Nobel 2006, sorriu. Engoli em seco e prometi-lhe que sim, que iria ler tudo do Orhan. E o prometido é devido: vou ler o grande escritor turco. Depois direi qualquer coisa.

quinta-feira, abril 19

FUTEBOLISTAS: OS APOCALÍPTICOS

Pois é, abro os jornais e espanto-me com o esgar guerreiro e os dentes eriçado-amarelos dos nossos jogadores de bola. Um diz que vão lutar até à morte. Coitado. Lá terá de ser… Outro diz que vão lutar até à última gota de sangue. Já viram? Eles a correr e o sangue a pingar, a pingar… Por isso é que eles caem tanto, coitados… O do Benfica é mais epidérmico, vai deixar a pele em campo, acho que já comprou dois quilos de pele artificial… Os do Porto, esses, porque o Norte é mais verde e mais saboroso, até comem a relva. Mas não, estes não são guerreiros, estes parecem ruminar no fim de cada jogo. De momento, a vantagem é dos ruminantes, porque se alimentam bem. Os outros, sem pinga de sangue, já não podem com a bola. Este futebolês…

quarta-feira, abril 18

ALGARVE, FUTEBOL, HINOS E CRIANÇAS

No Algarve, houve um Torneio de miúdos, vieram de todo o lado, também da nossa vizinha Espanha. Quando tocou o hino espanhol, a equipa do Barcelona não compareceu. Deve haver alguma explicação para o facto, mas em Espanha caiu o Carmo e a Trindade. Segundo a “Marca” de hoje, Laporta respeita o veto do hino espanhol: “Yo no voy a alimentar estas cuestiones. Se retroalimentan solas. Respeto todo lo que han hecho los representantes del club en esta cuestión y en todas porque toman las decisiones que creen que tienen que tomar. Y pido respeto también”. Claro, o respeito é muito bonito. Mas los niños... Devíamos proibir os hinos? Se calhar, como neste caso, as crianças agradeciam. Porque isto de "Às armas, às armas..." cheira ligeiramente a vivaz arcaísmo. Ou estou a exagerar?

segunda-feira, abril 16


O NOME DAS FLORES
Hoje a Bela deu-me uma lição toda floral. Eu já sabia que nomear a natureza requer imensa sabedoria, há tantas árvores, tantas flores, que até me sinto envergonhado por desconhecê-las. Quer dizer, eu sei o que é uma tília, tenho-a mesmo em frente do nariz, dá muita sombra nos dias de canícula; também sei o que é um castanheiro, como dele as castanhas, a minha mobília é de castanho, podia ser de vinhático, mas não é. E até sei mais alguns nomes, mas perante elas, quando as vejo e quero identificá-las, saltam-me as meninges, sou analfabeto, alguém falhou na formação e fui com certeza eu. A Bela, pois, falou-me da arruda. Eu conhecia o nome, mas nunca a vira. Que cheira mal, diz ela. Eu não achei. Tem um cheiro forte, mas não desagradável. Que espanta o mau-olhado. E parece ser verdade, pelo menos os antigos já lhe atribuíam esse condão. Outros querem-na afrodisíaca. Eles lá sabem. Mas quando me falou nos olhos-de-freira, nos pica-narizes ou nas cristas-de-galo, juro que descambei. Eu de flores sei as rosas e os cravos, os contáveis mal-me-queres e, em excepcional extremo, os brincos-de-princesa ou as alegria-no-lar, todas elas flores bem jardináticas e nada dadas a grandes interiores. O que eu não esperava da Belita era um não-te-metas-na-minha-vida. Olhei bem de soslaio para os seus ondulantes cabelos, franzi-lhe uma bochecha, e só ao fim de sorumbáticos segundos percebi que designava uma ervita qualquer. E eu na minha ignorância: isso são designações bem regionais, na minha terra nunca ouvi falar disso. A minha terra, ali ao lado, uma centena de metros, duas centenas talvez…

domingo, abril 8

QUE NOSSA SENHORA NOS PERDOE !

Fiquei curioso. Não-te-metas-na-minha-vida é longa e curiosa designação para planta ou flor, e prova esta relação quase indissolúvel entre as nossas emoções e a natureza que as pressente. Na minha busca de outros nomes curiosos, de plantas ou flores, encontrei o choramingas não-me-deixes. Lembrei-me imediatamente daqueles versos do Gonçalves Dias, que dizem assim:

Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava...
"Ai, não me deixes, não!"

Onde terá o miosótis ganho cidadania como não-me-deixes? Na pena do poeta? Ou terá o poeta jogado este jogo entre a coisa e a sua denominação popular? Porque o povo tem-nas boas, ora é o não-me-deixes, ora o não-me-esqueças, ora ainda o não-me-toques, ora, no limite, o não-te-esqueças-de-mim. Claro que foi o povo, não o erudito, que nomeou as flores. A flor é de Abril ou é de Maio, é de esperança, é de amor ou de paixão. A de lis é também a da verdade. A flor-da-noite traz consigo uma alvorada. A viuvinha, essa, é a flor-de-viúva sorrindo à nova vida. Mas a melhor, a que me deixa mesmo derretido pela abrangência da significação é, sem a mínima dúvida, a flor-de-babado-de-nossa-senhora. Que a Senhora compreenda, e nos perdoe todos os pecados, inclusive o da nomeação.

quarta-feira, abril 4

A INVERDADE

Soa tão mal, não soa? A verdade, porém, é que a verdade anda de tal forma aos trambolhões que já nem tolera a mentira. Porque mentir é, segundo o dicionarista, uma acção bruta. E não convém ser-se bruto quando assim se mente. Nós ouvimos os políticos e eles nunca mentem. Quando muito, dizem algumas inverdades. E pronto, ficam de alma lavada. Se a língua é bela, este neologismo é feio. Atiremo-lo, Lídia, à força do rio.

quinta-feira, março 22

POLVILHAR COM POLVO?

A aluna esbugalhou os olhos, muito admirada. Era espanhola, e eu compreendi imediatamente o motivo da sua reacção. Porque polvilho não é, evidentemente, o filhote do polvo, esse molusco cefalópede ventoso que nos guarnece o prato em dias especiais. E eu expliquei-lhe que polvilhar não significa salpicar com polvo, porque em português não há relação evidente entre estas duas palavras. E, finalmente, lá compreendeu. Porque se, na nossa língua, a coisa já é complicada de entender, muito mais será quando, em espanhol, polvo significa . E aí sim, polvilhar tem, nas duas línguas, o mesmo significado. Estes amigos são mesmo muito falsos e é preciso ter muito cuidado com eles, olá se é…

quarta-feira, março 21


TO SLEEP

O soft embalmer of the still midnight,
Shutting, with careful fingers and benign,
Our gloom-pleas'd eyes, embower'd from the light,
Enshaded in forgetfulness divine:
O soothest Sleep! if so it please thee, close
In midst of this thine hymn my willing eyes,
Or wait the "Amen," ere thy poppy throws
Around my bed its lulling charities.
Then save me, or the passed day will shine
Upon my pillow, breeding many woes,--
Save me from curious Conscience, that still lords
Its strength for darkness, burrowing like a mole;
Turn the key deftly in the oiled wards,
And seal the hushed Casket of my Soul.

John Keats

domingo, março 18

LÁBIO LEPORINO

Lábio laparino, explicava o Tone, imponente na sua sabedoria. Porque, se a lógica não era uma batata, vinha de láparo, filho do elegante laparoto. E com efeito, a origem do dito cujo é assim para o obscuro, e parece ser verdade: lábio laparino seria então aquela anomalia congénita, aquela fissura no lábio com que nascem alguns seres humanos, e que lembra a fissura do láparo, que é sem dúvida o coelho. O problema é que não, não vem de láparo, mas de leporinus, relativo a lebre. A diferença é subtil, mas justifica a grafia leporino. Leporino é, portanto, relativo a lebre, e não a láparo (coelho). Escreva-se, pois, lábio leporino.

sábado, março 17

CEREJEIRAS EM FLOR


Esta fotografia é de Jacqueline CAMUS, tirada no jardim de Yonne, Véron, em França. Por vezes delicio-me com fotografias da natureza, a maioria lindíssimas, autênticas obras-primas de grandes profissionais. Esta captou-me a atenção pelo nome da artista: CAMUS. Se o existencialismo percorreu a literatura, eis como o nome CAMUS revigora na própria natureza: nós existimos nela e ela sorri-nos em cores inesquecíveis. Olhemo-la.

quarta-feira, março 14

DA INTERROGAÇÃO À AFIRMAÇÃO

A propósito da guerra no Iraque, diz o sueco Hans Blix, ex-inspector-chefe de armas das Nações Unidas, que Bush e Blair puseram pontos de exclamação em vez de pontos de interrogação, onde estavam perguntas, eles mudaram-nas para afirmações. Se o sueco o diz, é porque é verdade. E as consequências estão a ser terríveis. Quem diz que os sinais de pontuação não são importantes? Mudar de uma interrogação para um singelo ponto final equivale a uma guerra sangrenta e desnecessária. Como é possível que políticos “responsáveis” ajam desta forma despudorada sem receberem o merecido castigo? Blair vai embora nas calmas faiscando pepsodente. Bush passeia hipocrisias pela América latina. No entretanto, sofre-se no Iraque. Y no pasa nada…

domingo, março 11

LUCROS FABULOSOS

Segundo o jornal SOL, os 5 maiores grupos portugueses (EDP, PT, BCP, GALP e CGD) ganharam 4 mil milhões de euros em 2006, isto num ano de crise e de forte desemprego. A electricidade, os telefones, a gasolina , os bancos. Quatro mil milhões de euros que saíram do bolso dos portugueses e que, desta forma paulatina, vão ficando mirradinhos até ao tutano. Este país é realmente nosso? Sorriso do estrangeiro.

quinta-feira, março 1

PAY AS YOU THROW

Segundo O DN de hoje, “os cidadãos que fazem mais lixo poderão vir a pagar mais. O Governo está a estudar a implementação de uma tarifa do lixo cobrada consoante a quantidade de resíduos produzidos. O conceito pay as you throw (pague consoante o que deita) pretende tornar mais justo o custo do tratamento dos resíduos, penalizando quem tem menor consciência ambiental. Na prática, poderá significar cobrar um preço consoante o peso ou o volume do saco do lixo”. Estou mesmo a imaginar a cena: adeus Sameiro, adeus Bom-Jesus, adeus Gerês… Porque, está claramente visto, se o português tiver de pagar ao quilo o lixo que produz, vai despejá-lo direitinho nas faldas das serras ou das montanhas. E lá se vai a nossa linda paisagem. Eu acho é que esta gente não conhece o chico português…

domingo, fevereiro 25

SÊ PACIENTE

Sê paciente;
espera que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Eugénio de Andrade

sábado, fevereiro 24

O LINGUISTA E A FIXAÇÃO DA NORMA

Diz Ivo Castro:

Não é o escritor, mas o gramático normativo quem fixa a norma; o escritor é o pretexto.

Se a norma fosse fixada por linguistas, e não por gramáticos, seria certamente mais respeitadora dos fenómenos de variação e dos actos de fala reais e verificáveis.

(...)

Contava Celso Cunha que Augusto Abelaira, incerto quanto a uma construção sintáctica infelizmente não identificada, pegou na Gramática do Português Contemporâneo para verificar se ela estava atestada; estava, mas atestada por uma citação do próprio Abelaira, que me confirmou a anedota.

Pois é, neste jogo do empurra, cá nos vamos entendendo...

Se quer aprofundar o tema, leia o texto completo AQUI.

quinta-feira, fevereiro 22

DICIONÁRIO DE GENTÍLICOS E TOPÓNIMOS

O ILTEC, Instituto de Linguística Teórica e Computacional, tem disponível o MORDEBE (Base de Dados Morfológica do Português) e um DICIONÁRIO DE GENTÍLICOS E TOPÓNIMOS. Segundo o portal, "os habitantes de Portugal chamam-se portugueses, a música do Brasil é brasileira. Mas como designar os objectos e as pessoas de Macau, do Rio de Janeiro ou da Lituânia? Quando designamos o país, a região, a província, a localidade em que alguém nasceu ou de onde alguém ou alguma coisa procede estamos a utilizar um gentílico.

Existem várias formas possíveis para criar gentílicos, as mais comuns são as formadas por sufixos como -ês (em português), -ense (em macaense) e -ano (americano).

A formação dos gentílicos nem sempre consiste na junção de um prefixo à base do topónimo, este é um processo mais complexo, por exemplo, o gentílico de Castelo Branco é albicastrense e não *castelo-branquês, *castelo-branquense ou *castelo-brancano.

O Portal da Língua Portuguesa disponibiliza uma lista onde poderá consultar os diversos topónimos e respectivos gentílicos ordenados alfabeticamente, a pesquisa pode ser feita clicando:

na letra inicial do gentílico;
no nome do país;
no nome de distrito (para Portugal) e estado (para Brasil);
no nome do local (país, território)."
É um portal inovador, a ter nos favoritos.
SENTADOS NO CHÃO

De acordo com a imprensa de hoje, os 106 alunos da escola básica de Sernancelhe que foi demolida na segunda-feira retomaram hoje as aulas, após as férias de Carnaval, na Casa da Criança desta vila do Norte do distrito de Viseu, mas tiveram de se sentar no chão, devido à falta de equipamento escolar.
Comentários para quê?

terça-feira, fevereiro 20

ADAMASTOR: O BELO E O HORRENDO

Adamastor é gigante mitológico, feio e apaixonado, desprezado pela nereide Thétis. Segundo o mito, percorreu terras e mares na busca da compreensão. Conhecedor profundo da mitologia grega e latina, Camões pegou no gigante e pô-lo no mar. Quando li, pela primeira vez, o episódio do gigante, chocou-me o contraste estabelecido entre a forma, horrenda, e a expressão emotiva do gigante, profunda e bela.

A descrição inicial é de um horrendo sublime:

Não acabava, quando ua figura
Se nos mostra no ar, robusta e válida,
De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura
Medonha e má e a cor terrena e pálida;
Cheios de terra e crespos os cabelos,
A boca negra, os dentes amarelos.

A exposição emocional do gigante – um choro medonho - é, também ela, de uma beleza inigualável.

Já néscio, já da guerra desistindo,
Uma noite, de Dóris prometida,
Me aparece de longe o gesto lindo
Da branca Tétis, única, despida.
Como doudo corri de longe, abrindo
Os braços para aquela que era vida
Deste corpo, e começo os olhos belos
A lhe beijar, as faces e os cabelos.
Assim contava; e, c'um medonho choro,
Súbito d'ante nossos olhos se apartou.

Foi este contraste entre o horrendo e o belo, um exterior, outro interior, mas pertença do mesmo ser, que me levou a devorar Os Lusíadas e a relê-lo sempre com acrescido entusiasmo.

Camões é um enormíssimo poeta. Leiam-no, por favor!

segunda-feira, fevereiro 19

GISANDRA

Procura-se a palavra, o seu significado. Em Finisterra, de Carlos de Oliveira, é planta de seiva leitosa, purificadora. Se a ideia existe e a palavra não, inventa-se a palavra. Releio cinquenta e uma vezes esta obra-prima e fico na paisagem. Talvez em breve a sinta preencher com seres imaginados, os aranhiços, as areias enormes, os bois em movimento. O povoamento. Talvez eu sinta a transfiguração final e compreenda a mensagem. Ansiosamente aguardo. Entretanto, ofereço aos leitores a ligação. Francesa, mas muito interessante. Aproveitem a lekti-ecriture.

domingo, fevereiro 18

O AL BERTO

Gosto do Al Berto. O Al Berto conheceu um homem que possuía uma cabeça de vidro. Ah, para quem não saiba, o Al Berto é um poeta que pergunta se a palavra laranja existirá sem a laranja. Com ele o sol cospe flores que provocam o sono e o esquecimento. Quando o leio, vou com ele ver as pirâmides fantásticas do vento. Por isso vou com ele muitas vezes, olhando as pétalas de luz que nos percorrem as mãos. Descubram o Al Berto, que a sua luz ilumina.

sábado, fevereiro 17

HORRíVEL

A ex-mulher de Eminem diz que ele é uma pessoa horrível, segundo o Globo Online. Este adjectivo é realmente muito forte, não conheço pior para definir uma pessoa. Claro que a relação dos famosos é feita destas coisas, raramente há equilíbrios, o companheiro ou é maravilhoso ou é horrível. Pois é: quem se mete com o belo, também se arrisca a meter-se com o monstro. O problema é que belo e monstro nadam em dinheiro. E quanto a isso, rien à faire.

sexta-feira, fevereiro 16


SABEDORIA

Desde que tudo me cansa,
Comecei eu a viver.
Comecei a viver sem esperança...
E venha a morte quando Deus quiser.

Dantes, ou muito ou pouco,
Sempre esperara:
Às vezes, tanto, que o meu sonho louco
Voava das estrelas à mais rara;
Outras, tão pouco,
Que ninguém mais com tal se conformara.
Hoje, é que nada espero.
Para quê, esperar?
Sei que já nada é meu senão se o não tiver;
Se quero, é só enquanto apenas quero;
Só de longe, e secreto, é que inda posso amar. . .
E venha a morte quando Deus quiser.

Mas, com isto, que têm as estrelas?
Continuam brilhando, altas e belas.

José Régio

quinta-feira, fevereiro 15

AS DEMASIAS

Francisco Manuel de Melo, Carta de Guia de Casados

De todas as grandes personalidades da literatura portuguesa, D. Francisco Manuel de Melo é, para mim, a mais extraordinária. Quando li, pela primeira vez, a Carta de Guia de Casados, fiquei absolutamente deslumbrado com a visão que o escritor tinha da mulher portuguesa. Claro que lida à distância de tantos anos, com a transformação cultural entretanto acontecida, a Carta nos força o sorriso. Mas que nos informa acerca do relacionamento marital da época, inflexivelmente patriarcal, isso é uma evidência. Leiamo-lo:

Dizia um nosso cortesão, havia três castas de casamento no mundo: casamento de Deus, casamento do diabo, casamento de morte. De Deus, o do mancebo com a moça. Do diabo, o da velha com o mancebo. Da morte, o da moça com o velho.


Ele certo tinha razão porque os casados moços podem viver com alegria; as velhas casadas com moços vivem em perpétua discórdia; os velhos casados com moças apressam a morte, ora pelas desconfianças, ora pelas demasias.

Visto à lupa dos dias de hoje, com tantos tratamentos e publicidade à disfunção eréctil ou ao Viagra, o casamento do diabo ou da morte transformaram-se no casamento de Deus. Abençoadas demasias que nos alegram os dias e nos rejuvenescem as noites de lua cheia. Quanto às desconfianças, desconfio que já não sejam o que eram. E ainda bem. Porque, velho rabugento encanecido, quem te manda ser feliz aos olhos da juventude fria?

quarta-feira, fevereiro 14

O CUNHA

O senhor Cunha tem o gabinete à cunha por causa das cunhas. Coitado do homem! Denominaram-no assim, que há-de fazer? Coitado dele e coitadas das palavras, que não têm culpa nenhuma das nevralgias humanas. Pensando bem: se meto uma cunha para firmar dois objectos, que abjectos cunham os que, de havano em riste, fumegam no gabinete à cunha? Quem souber responder que responda.

segunda-feira, fevereiro 12

O ASSALTO À VIDA PRIVADA
Hoje fui à Caixa Geral de Depósitos tratar de uns assuntos. Para mal dos meus pecados, sou lá cliente… Para completar “um” assunto, eu achava que era suficiente o bilhete de identidade, o número de contribuinte, a morada e, vá lá, o número de telefone. Tudo isso eles já lá tinham, portanto, nada a entregar. Mas que não! E que não! E deram-me então uma grande ficha, com perguntas totais sobre a minha vida, e da minha mulher, e se tinha carros, e se tinha casas, e há quantos anos trabalho e, imagine-se a imbecilidade, até lá perguntam o estado civil da minha própria mulher! Espumei. Nego-me a dar-me ao desbarato, ninguém tem o direito de saber pormenores de vida que só a mim dizem respeito. E disse que não. E não é que não me deixam tratar do tal assunto? Aiiii…. Apetece-me ferrar os dedos e ir às fuças a alguém. Na semana passada passou-se algo semelhante na escola do meu mais novo. Também me apresentaram uma ficha para preencher, queriam muitos dados, só não me lembro se queriam, ou não, a cor das minhas cuecas. Mas por que carga de água quer a escola do meu filho saber se tenho carro, ou se a casa é minha, ou…? Este assalto violento à nossa vida privada é absolutamente aterrador e inaceitável. Nos dois casos, neguei-me a dar as informações pedidas. Não tenho que as dar e pronto! Mas a lei permite este comportamento dos bancos e das escolas? Que seja do meu conhecimento, o aluno concretiza a sua matrícula numa escola e escreve no BOLETIM as informações legais que o Ministério da Educação acha por bem exigir. Tudo o que ultrapasse tais informações é absolutamente abusivo. O mesmo com os bancos. Irra que é demais!!!!

sábado, fevereiro 10

TRES COSAS HAY EN LA VIDA...

Li há tempos Thoughts in a Dry Season, de G. Brenan. Enquanto lia, lembrei-me daquela famosa canção, creio que espanhola, que diz tres cosas hay en la vida, salud, diñero y amor… Por acaso, uma canção muito bonita, pois transmite uma mensagem positiva a todo o ser humano. E dei por mim a pensar: o que é realmente importante na vida? O amor, claro, é muito importante. Mas há pessoas que vivem solitárias, algumas por opção, e não o consideram assim tão necessário. O dinheiro, claro, também é muito importante. Mas há tanta gente no mundo sem dinheiro… A saúde, evidentemente, é muito importante. Mas, podemos comprar a saúde? Diz Brenan que os que põem o amor em primeiro lugar o fazem porque têm a barriga cheia. Se tivessem a barriga vazia todos os dias, escolheriam o dinheiro. Se a saúde e o dinheiro são privilégios de ricos, que lugar ocupará o amor? Será, dos ricos, o supino privilégio? Que acham?

quarta-feira, fevereiro 7

UM PASSEIO NO MONEYMUSEUM

Pois lá vou passeando pelos museus virtuais, a lavar-me de ouro, e ouro bem português... No Catálogo de Moedas do MoneyMuseum vi lá estas duas meninas, o morabitino de D. Sancho I (1185, presumivelmente cunhado em Braga), na posse do Deutsche Bundesbank;

e este solidus, uma imitação de Theodosius II (império visigótico, ano de 456), também presumivelmente cunhada em Braga, e na posse da Sunflower Foundation.



Fiquei ceguinho para quinze dias. Acho que só vou poder apreciá-las de novo daqui a um mês, depois de esfregar os olhos com pozinhos de alecrim... Mas já que eu não posso, ceguem também!
SAPATILHA

Numa página concorrente, alguém pergunta sobre a origem da palavra sapatilha. Porque hoje, em tempos de muito exercício físico, todos os atletas usam sapatilhas, umas mais frágeis e flexíveis, outras com mais substância elástica, próprias para os basquetebóis. Ora, a sapatilha mais não é do que a sapata a que acresce o sufixo –ilha. Sapata devém, logicamente, de sapato, e, para além de outros significados que o uso consagrou, significa calçado largo e grosseiro, sem tacão ou de tacão raso, uma espécie de chinela. Já o sapato tem, em geral, sola de couro ou de borracha e é o objecto que cobre o pé. Originariamente, a sapatilha era muito leve e flexível, por vezes de biqueira reforçada ( os bailarinos precisavam disso); hoje, há por aí sapatilhas que pesam quilos . De modo que em vez de sapatilhas parecem sapatões. Ah, convém dizer que sapata vem do turco zapata. E pronto, eis aqui um bom motivo para escancararmos as portas aos nossos amigos otomanos: se nos deram a zapata, porque não a sapatada?

segunda-feira, fevereiro 5

SPLEEN

Je suis comme le roi d'un pays pluvieux
Riche, mais impuissant, jeune et pourtant très-vieux,
Qui, de ses précepteurs méprisant les courbettes,
S'ennuie avec ses chiens comme avec d'autres bêtes.
Rien ne peut l'égayer, ni gibier, ni faucon,
Ni son peuple mourant en face du balcon.
Du bouffon favori la grotesque ballade
Ne distrait plus le front de ce cruel malade;
Son lit fleurdelisé se transforme en tombeau,
Et les dames d'atour, pour qui tout prince est beau,
Ne savent plus trouver d'impudique toilette
Pour tirer un souris de ce jeune squelette.
Le savant qui lui fait de l'or n'a jamais pu
De son être extirper l'élément corrompu,
Et dans ces bains de sang qui des Romains nous viennent,
Et dont sur leurs vieux jours les puissants se souviennent,
Il n'a su réchauffer ce cadavre hébété
Où coule au lieu de sang l'eau verte du Léthé.

Charles Baudelaire

quarta-feira, janeiro 31

TENHO ÊXITO, PORTANTO, SOU FELIZ!

Num livro conhecido e muito interessante, A conquista da felicidade, diz a dado passo o grande filósofo Bertrand Russel:

A raiz do mal reside no facto de se insistir demasiadamente que no êxito da competição está a principal fonte da felicidade. Não nego que o sentimento do triunfo torna a vida mais agradável. Um pintor, por exemplo, que viveu obscuramente na juventude, decerto se sentirá feliz se o seu talento acabar por ser reconhecido. Não nego também que o dinheiro, até um certo limite, é capaz de aumentar a felicidade; para lá desse limite, julgo que não. O que eu afirmo é que o êxito só pode ser um dos vários elementos da felicidade e que é demasiado o preço pelo qual se obtém se a ele se sacrificam todos os outros.

Há dias, a televisão portuguesa mostrou uma entrevista de uma senhora que decidira parar. Dizia a inteligente senhora que, depois de fazer contas, achava desnecessário procurar o êxito debaixo do agoniante stresse, e que conseguiria viver bem e ser feliz com a quarta parte do que recebia mensalmente. Para quê viver um dia-a-dia agoniante se podia, pura e simplesmente, apreciar a beleza da vida, o chilrear vibrante dos pássaros, o pôr-do-sol raiado, os sorrisos das crianças nos parques… E decidira, portanto, antecipar o fim da sua carreira em nome da sua felicidade. Ambos, Russel e a senhora, têm razão. O dinheiro, até um certo limite, ajuda a ser-se feliz. A partir daí, estou certo de que só traz infelicidade. Estou como aquela senhora. Um dia destes decido-me por viver, porque até hoje só sobrevivi. Porque, para olhar o sol ou ouvir os pássaros, não é necessário pagar bilhete. E a água das nascentes é de graça…

quarta-feira, janeiro 17

O ESPÍRITO E A ALMA

A Cláudia hoje levou um texto do Eugène Delacroix. Falava do espírito e da alma como coisas distintas no ser humano. Que, portanto, temos corpo, e espírito, e ainda alma. Nunca tinha pensado nesta tríade; aliás, nas minhas divagações mais ou menos filosóficas, a mente sobreleva o corpo, e há muito que coloquei na estante essa diferença consubstanciada em palavras tão irreais, tão indefiníveis, como espírito ou alma.Lembro-me do Óscar Wilde problematizar a órbita da alma: nunca o entendi muito bem.Lembro-me também do Lars Gustaffson e da sua alma esférica: também não percebi niente. Aceitando, no entanto, que o riso é, como diria Dostoievski, o melhor indicador de um certo estado de alma ( outros dirão estado de espírito), então vamos rindo, ou antes, sorrindo das palavras e mergulhando nelas.
Para tirar dúvidas, vou ao dicionário. Todavia, também tu Catilina, apenas me diz, entre milhões de explicações, que a alma é a parte imaterial do homem, o que também é o espírito.Se sou fraco de espírito, sou fraco de alma? O meu estado de espírito actual é diferente do meu estado de alma? Ter grandeza de espírito é ter grandeza de alma? Delacroix deve ter razão, o espírito projecta-se da mente, a alma do coração. Ou é ao contrário? O que sei é que estou de alma e coração com a minha gente, como se o coração fosse apenas corpo, a parte material, a parte não simbólica da coisa. Deve ser por isso que o sinto pingue-pingue, rotinho de todo, quando me dói a alma. Porque o espírito, esse, parece-me já de grande contradição. Eu sou um paz de alma e a minha alma anda muito errante... Mas obrigado, Cláudia, por me obrigares a pensar.

quinta-feira, janeiro 11

ACTUALIZAÇÃO DA PÁGINA DINHEIRO

Informo os eventuais interessados que a página DINHEIRO, em link no lado esquerdo desta página, está a ser actualizada. Encontram-se activos os reis Fernando I, Pedro I, Afonso IV, D. Dinis, D. Afonso III, D. Sancho II, D. Afonso II, D. SANCHO I e D. AFONSO I, isto é, toda a primeira dinastia.
Algumas imagens ou classificações podem, neste momento, estar trocadas ou com erros. Peço desculpa por esse facto.
Observações, comentários ou correcções podem ser feitas na dita página ou no Fórum de Numismática.

quinta-feira, janeiro 4

AINDA HÁ DISTO...

Notícia de um jornal brasileiro:

Mulher distribui dinheiro em ônibus na véspera de Natal.

Uma mulher subiu em ônibus, cumprimentou os passageiros com "Feliz Natal" e entregou a cada um dele um cartão e uma nota de US$ 50 antes de sair e fazer o mesmo no ônibus seguinte em Spokane, Estado de Washington, nos Estados Unidos.
A acção da mulher foi tão rápida que as descrições sobre a benfeitora são divergentes. "Ela manteve sua cabeça baixa. Nunca a vi antes", disse o motorista Max Clemons. "Havia um jovem no fundo do ônibus. Ele estava quase chorando e disse que 'ela não sabe o quanto isso vai significar no Natal' em inglês com sotaque forte."
Dan Kolberto, porta-voz do sistema de trânsito da cidade, disse que não foi possível identificar a mulher e parece que o acto não faz parte de uma campanha de marketing.
A mulher distribuiu envelopes que diziam "de um amigo a um amigo". "A pessoas naquela linha realmente precisavam do dinheiro", disse o motorista.

Como diria Sttau Monteiro, felizmente há luar.