Quinta-feira, Novembro 12

3º ENCONTRO DO FÓRUM DE NUMISMÁTICA


É linda, a medalha, não é? Com esta, são três as medalhas que possuo sobre os Encontros do Fórum de Numismática. Quase sem querer, acho que estou a começar uma nova colecção, pois estes encontros vão com certeza repetir-se no futuro, ou não fosse a malta "numismática" uma malta interessada e decidida. Que o digam os que estiveram neste fim-de-semana em Ermesinde, na Churrasqueira do Norte. Sob a batuta do Manuel Barreleiro e de toda uma excelente organização, lá estivemos, os malucos da numismática, conferenciando, conversando sobre numismas, ouvindo histórias e rindo, tudo acompanhado por boa comezaina e pinga de truz. Assim vale a pena! A vida é tão curtinha e tão desenxabida que, não fossem as moedinhas, não teria grande graça. Como andam dizendo por aí, é possível viver sem o Fórum de Numismática? Possível é. Mas, realmente, não seria a mesma coisa.

Segunda-feira, Novembro 2

2666

Comecei a ler este livro de Bolaño, é enorme, será que vou conseguir lê-lo todinho?Lembro-me do Ulisses, do Joyce. Aquilo custou, li-o mas mastiguei-o. Não tenho grande recordação dele. A ver vamos. No fim direi qualquer coisinha.

1º comentário - Vou na página 99, estou a gostar. Mas isto de ver Espinoza aos pontapés a um paquistanês tem que se lhe diga.

2º comentário - Até à página 151, duas agressões em momentos diferentes. Aos pontapés. E ambas a taxistas. Ainda faltam 850 páginas, haverá mais? Suspense...

comentário - Fala-se de Amalfitano. Cruzamento extraordinário de acontecimentos, informações históricas, reflexões minimalistas sobre a vida. Continuo a ler, mas começo a ficar cansado. Os caracteres são tão pequeninos...

4º comentário - Vou na parte de Óscar Fate e de Rosa Almafitano. E vou continuar, embora num ritmo mais lento. Acho que vou demorar mais tempo do que pensava a ler este enorme livro. E depois vou ter de pensar nele outra vez. Mas que o Bolaño teve uma coragem do caraças a escrevê-lo, lá isso teve. Mil páginas em letra miudinha é dose, e não pequena...

Quinta-feira, Outubro 22

CAIM

Acabo de ler Caim, de José Saramago. Comprei-o ontem, li-o de rajada, é um livro curto e simples. Esteticamente, desiludiu-me, Saramago tem bem melhor. Deus, para o autor, não é grande coisa, vê-se. Mas, não sei porquê, há por ali muito cuspo, demasiada ironia, excesso de sátira, muita incompreensão do simbólico. Como o meu critério estético é o do gosto, eu digo que não gostei e pronto. Isso, porém, nada tem a ver com o exercício de liberdade que significou escrever este livro. Os crentes vão gostar? Penso que não. A Igreja vai gostar? Tenho a certeza de que não. Mas estes escritos movem as névoas dos nossos pensamentos, e isso é salutar. Eu continuo a acreditar no meu Deus, sempre magnânimo, sempre bom. Agora e para sempre.

Sexta-feira, Agosto 14

OS PATOS

Ofir é praia vestida de dunas altaneiras. Que queimam, como nos últimos dias. Depois do almoço, fujo sempre da canícula e aterro em Fão, junto a um rio Cavado de águas sempre azuis e limpas. Corre uma brisa agradável junto das barcaças, velhinhas como o tempo. Gaivotas em bando, pombos selvagens, alguns alfaiates de listas negras, um flamingo solitário e creio que duas garças reais voando em círculo perto de mim. Se fosse pintor, como dizia Brandão, pintava estes reflexos de voo em espumas leves, onduladas. Fecho os olhos e quase adormeço, enlevado pelas ondas. De repente, uns quáquás levam-me os olhos para a margem verde. Porque não tinha visto os patos? Lindo! Talvez uma centena, de rabinho a abanar e bico bem altivo. De repente, um movimento mais brusco, água em maior movimento: uma pata, franzina, diria mesmo magricela, enxota outros patos protegendo a sua prole. São sete os pequeninos, sempre aflitos atrás das asas da mãe. E fico aqui, embevecido, analisando a função protectora de uma pata na margem do rio. Nenhum pato se chega num raio de uns dois metros. Interessante. Porque não deixa os pequenos socializar-se? Neste entretanto, um quá mais alto se levanta e o grupo voa para meio do rio. Cem, duzentos metros? Que vai fazer a mãe? Ficará na margem. Olha… aí vai ela mais os sete, em alta velocidade, para o seio do grupo. Afinal, ela sabe socializar as crianças. E, curioso, já não enxota ninguém. Fico a pensar nos patos e em nós, que não somos patos, ou que somos patos, às vezes, quando outros patos fazem de nós patos. A natureza é linda!

Segunda-feira, Junho 29

À PINHA

Não, não há pinha nos pinheiros, pelo menos nos pinheiros mansos. Parece que alguém se entretém a cortá-las ainda em flor, de modo que… nem vê-las. Por acaso, sou maluco por pinhões, no Natal entretenho-me a descascá-los, gosto do sabor a queimado. Um dia destes, o Rui falou-me de outras pinhas, uma fruta tipo anona, que lhe deram no Brasil. Gostou, e aprendeu o nome da coisa. Nos lados mais marisqueiros, as pinhas podem ser de bivalves e congéneres, tipo mexilhão ou percebes. E como o Zé é um grande mexilhão, a pinha também pode ser de Zés, ou claramente de gente. Se os Zés se acarneiram em magotes, formam uma enormíssima pinha. E se estão no Campo-da-Vinha, este fica à pinha, com os Zés encavalitados uns nos outros. A maioria das vezes, os carneiritos têm areia a mais na moleira, e sofrem da pinha, ficam com ela completamente desregulada. No limite, quando isso acontece, podem até comer a pinha a alguém, enganá-lo, intencionalmente ou não. Conclusão: isto de pinhas é como diz a Aninhas: ou te tratas ou definhas.

De Metakritica

Segunda-feira, Junho 22

ILUSÕES

Rasguei meu coração com um punhal,
Sequei do amor o sangue efervescente,
O vento já não freme no pinhal,
O cântico do sol é dor ingente.

Passou na minha vida um vendaval
De ilusões - que soluçar pungente!
Olhei para a montanha e afinal
Ela desfez-se em desfocada lente.

Onde estão, meu Deus, os horizontes
Cheios de cor e nublados de prata,
Onde está a água límpida das fontes?

Eu olho em frente e vejo em mim quem trata
O sangue e o deserto destes montes
Feitos de vida outrora, ora de mata.

José Silva, 21.06.2009

Terça-feira, Junho 16

ÉTICAS, ESTÉTICAS E HIPOCRISIAS

No parlamento espanhol “conversou-se” sobre os milhões pagos a Ronaldo. Os políticos têm destas coisas: tagarelam sobre éticas e estéticas, dos futebóis.... Mas acobardam-se quando lhes cheira a corrupção. Questão de primazias. Este ar de donzelas ofendidas é absolutamente ridículo. Se pagam tantos milhões ao Ronaldo é porque ele os merece. E que os goze muito bem, que a vida é curta e Paris é bela. Mas alguém se preocupa com os 500 milhões de dólares pagos por Abramovich por um simples iate de 167 metros de comprimento? E para quê, se ele já tem outros três iates que ocupam metade do oceano Atlântico? Tanta hipocrisia… Que cada um receba em função do que vale. Se ao Ronaldo pagam 93 milhões é porque pensam ganhar com ele pelo menos o dobro. Baratíssimo, portanto. Ah… pudera eu ganhar assim uns milhões…

Terça-feira, Maio 19

Diferem em muito o amor e o gozo daquilo que se possui.

SOFIA – Bem vejo que o amor e o desejo são uma mesma coisa na sua substância, e assim mesmo os seus contrários, mas o amor da coisa não possuída e o da possuída parecem (como dizem eles) bem diferentes.

FÍLON – Parecem, mas não são diversos. Na verdade o amor da coisa possuída não é o deleite, nem é o gozo da fruição do possuído, como estes dizem. O possuinte da coisa amada deleita-se e goza, mas o gozar e deleitar-se não é amor, porque não pode o amor, que é movimento ou princípio de movimento, ser uma mesma coisa com o gozo ou deleite, que são quietude, fim e término do movimento. Asseguro mesmo que têm progressos tão contrários, que o amor vai do amante para a coisa amada, mas o gozo deriva da coisa amada para o amante. Vejamos mormente que o gozo é do que se possui e o amor é sempre do que falta, e é sempre uma mesma coisa com o desejo.

SOFIA – Mas a coisa possuída é amada, e aquela já não falta.

FÍLON – Não falta a posse presente, mas falta a perseverança contínua dela no porvir, a qual deseja e ama aquele que possui de presente. E a posse presente é a que deleita; mas a vindoura é a que se deseja e se ama. De maneira que, tanto o amor da coisa possuída, como o da não possuída, é uma mesma coisa com o desejo. Contudo, é uma coisa diferente do deleite, assim como a dor e a tristeza é uma coisa diferente do ódio e do aborrecimento, porque a dor existe por causa da posse presente do mal presente, e o ódio é por não ter coisa no porvir.


Aviso: há alguns anos, o New Criticism relevava algumas importantes falácias, entre as quais se evidenciava a falácia biografista. Consiste tal falácia em relacionar, de modo simplista, o texto ou a obra com a vida do autor. Neste exacto momento, juro solenemente que não me chamo Leão Hebreu, que o diálogo entre Fílon e Sofia não saiu da minha cabecinha e que eu não sou nem o amante nem a coisa amada referidos no texto.

Domingo, Maio 17

A FLOR

Ouço de Zamphir a flauta profunda e lenta. Pelo meio, sons de chuva esbarram cinzentos na janela. O dia boceja frio, com apetites de cama novamente. E o pão com manteiga dos que dependem dele às onze da manhã? Levanto-me e saio. Atravesso o jardim com passo duplo, volteando as poças imensas de água. A rosca quente da manhã é exercício inelutável, induz-me sempre a ir em frente, quer pingue, quer faça sol. Volto pelo mesmo caminho, piso as mesmíssimas pegadas e de repente vejo: a flor. Treme de frio derreada sob as gotas intensas, mas projecta o seu olhar de encontro a mim. Uma flor num dia de chuva, orgulhosa e viva, sorrindo cândida para o mundo. Acho que já ganhei simbolicamente o dia: ver uma flor sorrindo para nós num dia frio e cinzento é extraordinário augúrio. Assim seja na minha vida, na vida de todos os leitores, agora e para sempre. Amen.

Quarta-feira, Maio 13

O AMOR E A VIDA


Eu sei que às vezes a vida é nossa inimiga. Nascemos com ela e por ela, crescemos e sonhamos sonhos impossíveis, e de repente vemos o sol no zénite da nossa adoração. São os olhos e a face, o sorriso dulcíssimo que nos inebria, o abraço e os corpos em irreprimível fusão. Dizemos: amo-te, amo a vida, fundimo-nos com toda a natureza e pensamos que a vida somos nós em contínua floração. A noite, porém, também é dia. E na noite trememos os segredos, sofremos as angústias, choramos as lágrimas que a luz do sol reprime. Se eu amo, porque a minha amada se nega? Se eu sorrio às flores, porque se esconde o sol e cai a neve, esfriando os mais quentes sentimentos? Quiséramos amar e ser amados assim, incondicionalmente, de coração aberto e sem truques, porque o amor não é trunfo que se jogue mas dor que nos entranha e faz sofrer. Olhamos às vezes o vazio do amor, o lugar dele agora não preenchido, recordamo-lo com a mão no peito e cerramos os olhos. Amar é sublime, ou na ausência, ou na noite, ou nas lágrimas impotentes e caladas.