sexta-feira, julho 31

O CORVO


Noé abriu a janela e soltou o corvo. E assim soube que as águas secaram sobre a terra. Depois, soltou a pomba. Desta, não sabemos mais nada, a não ser que todos os dias sobrevoa o varandim e poisa na eira. Do corvo, vicente na sua luta contra o poder arbitrário de Deus, sabemos, porque Torga o colocou naquele pedaço de terra onde lutou, altivo, contra a fúria das águas. E foi daqui, talvez, que voou até Sagres, onde demarcou território e constituiu família. Na sua ânsia de amplidão e de liberdade construiu o ninho exatamente na reentrância última das escarpas do cabo. E pôde ver, então, as relíquias do santo. Viu-as, ele e a sua companheira de jornada. E sentiram a santidade. Quando a caravela se aproximou, voaram em círculos, uma, duas, tantas vezes até que alguém se aproximou do lugar. A prova da sua relação com Deus apresentava-se clara como o branco do luar. O corvo, porém, sentia ainda o som tonitruante das palavras do Senhor. Deu as asas à sua companheira e, serenamente, acompanharam o santo até à terra lendária de Ulisses. Irmanou-se, santificou-se e chamou-se Vicente, o santo, o que vence. Voltou à sua prole, toda de asa negra, e viveu feliz. Soube mais tarde, por outros irmãos viajantes, histórias de poemas e filmes, simbologias esparsas, onde fizeram de si mau, e aos da sua espécie. Perguntou-se porquê, pensou na barca e em Noé, na fúria inexplicável de Deus, no pedaço de terra quase engolido pelas águas, no seu promontório feliz, e prometeu dizer nunca mais para satisfazer o poeta e os artistas: E jurou, ainda, dizer não à prepotência de Deus: eleito, nunca mais!

terça-feira, junho 30

O CANTO DA GAIVOTA


Oito da manhã. Uma brisa fresca levanta as cortinas da janela e ele espreguiça os últimos momentos do seu sono. Não sabe se sonha ou se navega em alto mar, mas não se vê em ondas, tão avesso é a barcos e navios. No mar fica nas margens, enrola-se na areia, molha-se de supetão e foge, que as algas têm algemas que nos arrastam para longe. Sonha, então, que nos sonhos os receios são diferentes. E, nele, um pio alegre, bem desperto, não pede licença para entrar pela janela. Mas não é sonho, é mesmo realidade. Levanta-se, abre as cortinas e vê-a, a gaivota branca, planando mesmo em cima do jardim. Uma gaivota em Braga, coisa muito rara de se ver. Segue-lhe as espirais, delicia-se com os pios e as recordações do mar, lava-se de algumas nuvens brancas e do azul fino da manhã. Segue-lhe o voo até desaparecer no cimo da rua, ao lado do jardim, onde um gato acinzentado esgravata ligeiramente a terra. Fixa-se no gato, estuda-lhe os movimentos, e aguarda. Ao longe, no cimo da rua, uma morena engraçada saracoteia. Vai com certeza para o trabalho, muito sincopada, muito concentrada. E assim começa o dia, o dela e o meu, bucólico que chegue. Nada mau, para as oito horas da manhã.

sexta-feira, junho 26

CARANDÁ


É apenas uma imagem. Tronco alto, ramos espalmados, palmeira num centro verde e animais pastando ao longe. A flor, hermafrodita, multiplica-se em tonalidades que se projetam em espiral. O fruto, dizem, é alimento para os animais, e o tronco, forte e alto, usa-se como poste de eletricidade. No Brasil é árvore comum, pede sol mas aguenta o frio. Não sei se esta árvore tem presença em Portugal, nem sei se é a caranda indiana. O mais certo é que exista em qualquer recanto português, com maior probabilidade para o sul, quem sabe em Vilamoura, onde as palmeiras se espreguiçam mais. Aqui, no Carandá bracarense, não a vejo. E gostava de ver, ajustavam-se as realidades, compreendia-se a origem do nome pela simples presença vegetal, enriquecia-se a flora da cidade. Ficamos, no entanto, com a metonímia: o lugar pelo nome, Carandá por Araújo Carandá. E agradecemos à sua viúva a perpetuação. Dona Carlota Araújo fixou, com o seu requerimento à Câmara de Braga, um nome à cidade e deu-lhe o gosto brasileiro. E o nome próprio trouxe o nome comum. Falta a árvore. Será possível trazê-la e plantá-la neste belo jardim?

quarta-feira, junho 24

SEU AZEITEIRO!...

O homem nem sabia onde se meter. Esconder-se atrás das réstias de cebola, ou das ramagens do feijão-verde, era uma boa hipótese. Porque a mulher, vestida de preto e de chapéu à mexicana, berrava em silvos esganiçados:
− Seu azeiteiro!...
Parei, não pelo espalhafato, mas pela força da expressão. Azeiteiro? Mas nesta região nem há oliveiras… E a que propósito seria o raio do homem uma galheta, ou uma embarcação? Aqui nem há baleias…
− Ó amigo, aquilo é que são dois! – Gargalhou um velhote barbudo ao meu lado.
− Eu dou-te o troco, seu azeiteiro! Anda cá que eu dou-te o troco!...
E percebi. Azeiteiro era o adjetivo preferido da mulher, que, de bigode na venta, continuava a insultá-lo. Que lhe teria dito ou feito o pobre homem?       
Acenei ao velhote de barbas, sorri-lhe e ainda lhe ouvi:
− Aquela está com os azeites! – E voltou a gargalhar.
Continuei o meu caminho, pensando em lagares e em líquidos viscosos a propósito de algumas locuções interjetivas que nem do cheiro das olivas se constituem.

AMARGURA


Amar em amarelo e amargura. Compreendo a relação significativa, penso na forma latina amǡrus, relaciono-a com a bílis, com a doença, com a palidez, com o humor amargo. E concluo que real e simbolicamente o amarelo é a cor da amargura. Não sei em que tonalidades, que as há claras e escuras, foscas ou torradas, cinzentas ou cobalto, esverdeadas ou enxofres. E também tonalidades de risos. Risos amarelos, mal-humorados, biliosos, amargos, muito amargos… E daí o amargor e a amargura. A amargura é o sabor amargo das coisas. Figurativamente, é dor moral, tristeza, aflição e angústia. Brincamos às vezes com esta culpabilização da bílis como órgão do sentir, fazemos o mesmo com o pobre coração, levamos tudo para o âmbito das figurações, mas esquecemos que o amarelo da face pode ser – e é, frequentemente – indício de grande sofrimento. Por isso tento sempre uma distinção profunda e relevo a máxima conversacional da sinceridade: se o riso, o sorriso, é amarelo, quantos gramas de humor amargo exprimirá? E quanta amargura? Pesar humores amargos, talvez na balança científica. Medir amarguras, coisas do peito, dores profundas, só de coração aberto, craveira de nónios multiplicados.

sexta-feira, junho 19

DEPOÊNCIA


Não é normal: voz ativa é voz ativa, voz passiva é voz passiva. Nesta estrutura, a passiva, assume-se sempre a presença de um agente que, na estrutura ativa de base, age funcionalmente como sujeito sintático. As regras de transformação passiva são fáceis de apreender, embora haja situações delicadas que resultam das características semânticas dos verbos utilizados. No mesmo sentido, não é difícil compreender como o conceito sintático de sujeito joga com o conceito semântico de agente. Casos há, porém, cuja clarificação das funções semânticas é absolutamente fundamental para a compreensão do jogo sintático. E, convenhamos, as gramáticas normativas tradicionais não explicam isso. O interessante nestas considerações tem a ver, no entanto, não com os verbos, mas eventualmente com os sintagmas nominais que são selecionados pelos verbos. Peguemos, como exemplo, nos verbos levar e apanhar. E registem bem a coisa, que é mesmo de registar! Se a Sandra leva uma saca, ou se apanha fruta, não se duvida que ela é sujeito sintático e agente das ações consideradas. Todavia, se em vez de levar uma saca ou de apanhar fruta, levar uma bofetada ou apanhar pancada, a coisa muda de figura. Ela continua a ser o sujeito, mas deixa de ser o agente das ações em causa. Esse poderá ser, talvez, o marido ciumento. E a Sandra passa de agente a paciente, ou a alvo das ações. Quer dizer, a compreensão das frases que vamos construindo depende de múltiplos fatores, bastas vezes de fatores que ultrapassam a própria inscrição verbal, e que são do âmbito da semântica, do significado das palavras e dos sentidos obtidos no seu jogo sintagmático. Por isso a importância da semântica para a clarificação da sintaxe e, correlativamente, para a compreensão do dito. A gramática tradicional, na linha da gramaticalização latina, chamava a estes verbos de valor passivo verbos depoentes. E há alguns, com efeito. Temos é de conhecê-los.


quinta-feira, junho 18

O ROBERTO


A morenaça descaía-se em requebros. Era uma pita bem amanhada, transeunte na zona dos frangos que, salto aqui, salto acolá, atraía mil olhares concupiscentes. Um, muito baixinho, chamou-lhe gata, e disse miau. Outro, de olhos ferventes, apelidou-a de brasa. E seguiu-a, feito manhoso, em salamaleques disfarçados. Na zona da fruta, chamou-lhe pêssega e ela toda se frutesceu. O homem da peixaria, de olhos inchados, só pode ter pensado em truta, tal o peixão que tinha na sua frente. O que eles não sabiam era que o Roberto tinha posto silicone em certos sítios e vendia frango assado. Que era o principal ofício lá num bar da esquina. De mamas empinadas, adorava trocar os olhos aos palermas do Braga Parque.

terça-feira, junho 16

A MOSCA E A ASNEIRA


Coitada da mosca. Que tem ela a ver com os dislates, com as bocas abertas e com o sorriso asnal? Mas o povo tem destas coisas, gosta de sublimar o ridículo das situações e pimba, toca a malhar no inseto. Porque o que está em causa é o asno, ou a asna, que a fêmea também merece cidadania. Em linguagem mais vibrante, nós gostamos de chamar burro ao animal e pronto, mas o núcleo vibratório é mesmo asinino, e é assim que este dito é reconhecido: quando fulano abre a boca, ou entra mosca, ou sai asneira. E a asneira será o dito, ou o ato, próprio dos asnos, isto é, dos inteligentes de uma certa gleba. Há por aí uma asnada que asneia que nem lhes digo. De tal forma que até o Eco se abespinhou. Alguns asneiristas retrucaram e tentaram, de forma eufemística, cambiar a asneira pela asneirola, mas acho que não conseguiram. O amigo do amigo lá tentou dar explicações pseudocientíficas sobre uma peça triangular de madeira em forma de V com as pernas bem abertas, mas não convenceu ninguém. Definitivamente, os nossos primeiros podem não comer muitas moscas, mas que daquelas profundidades profundas sai muita asnice, lá isso sai!...

ALHURES, ALGURES, NENHURES


Conheço e uso estes três advérbios portugueses. Uso-os quando acho que devo usá-los, fixo-me no seu significado locativo e temporal, e nunca me passou pela ideia pôr-lhes laços de seda por razões estéticas. Há quem não goste deles por essa razão, coisa bem difícil de compreender, a não ser que sintam um cheirinho a alho ou a algas marítimas quando os colam na frase ou no texto. Evidentemente, estas palavras nada têm a ver com os alhos ou com as algas. No caso de alhures, por exemplo, a sua origem é controversa, mas tudo aponta para o provençal alhors que terá andado por ailurs ou aillurs e que evoluiu para o atual ailleurs. Em francês, esta palavra significa em algum lugar, em outro lugar, e é exatamente esse o significado de alhures em português. A forma algures tem o mesmo significado e será uma combinação da forma alhures com o pronome indefinido algum. Na medida em que na sua significação está contida a preposição “em”, evita-se, em geral, o uso desta preposição. Daí dizer-se Vive alhures, ou Vive algures, e não *Vive em alhures ou *Vive em algures. Com preposições diferentes, é possível: Vir de alhures, Vir de algures. O mesmo raciocínio para nenhures: Viver nenhures, Vir de nenhures (em nenhum lugar, de nenhum lugar, com nenhum igual a pronome indefinido). Estas formas têm a particularidade de funcionarem, tal como outras formas deíticas, nas noções de espaço e de tempo. Na física, estas noções estão relacionadas e será essa a explicação para o uso locativo-temporal dos adverbiais em causa.

segunda-feira, junho 15

OU SIM, OU SOPAS

Não vou discutir se o antónimo de “antónimo” é “sinónimo”, ou se vice-versa. No meu português e, creio, no português de todos os portugueses, “junção” significa “ligação” e o seu antónimo, ou o seu contrário, é “disjunção”. Claro que poderíamos gastar aqui umas boas horas a discutir estes conceitos e até poderíamos beber uns copos, se os copos se bebessem. Ou, se achássemos melhor, sempre poderíamos jogar uma entretida lerpa, para plainar as meninges. Portanto, a disjunção: A ou B. Ou A, ou B. Seja A, seja B. Ou sim, ou sopas. Sinceramente, não me interessa saber se F. fica preso ou se sai. Interessa-me é saber por que raio a Marta me abanou o frontispício com aquela coordenada toda ribombante: “Meu menino, ou sim, ou sopas!”. Porque do sim eu sei o significado. Do sopas é que já duvido. Quer dizer, eu como sopa, embebo pãozinho no leite, às vezes o arroz fica uma sopa, sei também que não ganho para as sopas e que, por este caminho, ainda vivo às sopas da minha velhinha mãe que, nos velhos tempos, bem queria alimentar-nos a sopas de cavalo cansado. Às vezes, estas sopas caíam como sopa no mel, e lá nos íamos aguentando… Mas, caramba, o que eu não entendo, juro que não entendo, é o que a Marta me berra. Se lhe digo sim, o que pensará de mim? Se lhe digo sopas, sairá sapato pelo ar? Esta disjunção é mesmo totalitária e devia ser banida da língua. Porque ninguém tem o direito de nos impingir um não à laia de qualquer sopa, por muito saborosa que seja. Definitivamente: sim ou não? Que acham, digo que sim à Marta? Ou digo que aguente, até que as sopas arrefeçam?


ELIPSE LACUNAR

De acordo com o dicionarista, em língua, a elipse é a omissão do termo ou uma frase que se subentende pelo contexto. Se não houvesse a possibilidade de omitir elementos numa frase ou num texto, repetiríamos ad náusea elementos comprovadamente desnecessários para a compreensão do dito. As novas terminologias trazem-nos designações interessantes para fenómenos específicos e que convém conhecer: anáfora do complemento nulo, elipse do sv, despojamento, elipse lacunar, truncamento, pergunta e resposta abreviada, réplica retificadora e elipse nominal. De entre estas designações, gosto da designação elipse lacunar. Não sei porquê, traz-me logo à memória o eclipse lunar e todas as reminiscências românticas da poesia do Soares de Passos. Em geral, a elipse lacunar caracteriza-se por afetar o verbo flexionado da frase ou a sequência de verbos auxiliares e principal. É assim que diz a Gramática da Língua Portuguesa e é assim que acontece. Há, no entanto, um sinalzinho chamado asterisco que sempre me incomodou, pois serve, nestes contextos generativistas, para registar a agramaticalidade das construções. O grande problema é sempre este: como se afere, e quem afere, a agramaticalidade? Porque devo aceitar que a elipse lacunar não ocorre em domínios de subordinação? Isto é, porque devo aceitar como válido o registo de agramaticalidade para o complexo oracional A Ana lê romances e penso que a Maria poemas. (GLP: 2003:902) se não vislumbro agramaticalidade nenhuma? O asterisco é a mancha negra da gramática, o representante de todos os excessos, mesmo quando, eventualmente, estes não são excessivos. A Gramática da Língua Portuguesa, de Maria Helena Mateus et alii  (Ed. Caminho) é excelente para a língua portuguesa. Científica, avançada, nada fácil para o português normal. Estudem-na, se puderem. E relevem os asteriscos.



sexta-feira, junho 12

VERBOS DEFETIVOS


Não é fácil perceber por que razão a tradição gramatical impôs a ideia, mas ela é viçosa na língua: há categorias gramaticais defeituosas, ou defetivas. Pelo menos assim é no que respeita a um certo número de verbos que, ora por razões de eufonia, ora por coexistirem com verbos cujas pessoas são análogas, veem anuladas algumas formas. O conceito de “defeito” não deixa de ser curioso porque, no fim das contas, corrigido eventualmente o verbo, deveria ele apresentar-se de cara absolutamente imaculada. Um dos critérios mais usados para considerar um verbo como sendo defetivo tem a ver com a analogia de formas. É na base deste critério que verbos como pular e polir, por exemplo, entram em choque. No presente do indicativo, primeira pessoa, a forma é a mesma: eu pulo. Realmente, se eu digo Eu pulo a mesa, assim, sem mais, sem contexto, a minha mãe ficará de cabelos em pé, pois temerá pelas minhas sagradas pernas. Mas se eu lhe disser Oh mãe, eu pulo-a depressa com aquela cera, duvido que a velhota não alcance o sentido da frase. Esfregará com certeza as mãos, pois, para além de ficar com a mesa bem brilhante, ter-me-á dado um bom trabalho. Não vejo, portanto, onde se agarram os gramáticos para considerarem o verbo polir como um verbo defeituoso. Aliás, eu acho que os gramáticos evitam o álcool, se não na mesa, pelo menos nos livrecos. Só assim se compreende a fobia ao brande. Porque esta bebida já tem alforria no universo lexical do português, evita-se alguma eventual confusão com O Zorro brande vigorosamente o seu chicote. Mas que confusão, perguntar-se-á? Se eu brando um chicote, estarei de garrafa na mão? E alguém achará que sou brando com as mulheres? Não, brandir não me parece também um verbo defeituoso. No que respeita a eufonias, ou melhor, a cacofonias, a coisa merece atenção. Por exemplo, com o verbo demolir, vocês já notaram se eu disser É necessário que eu demula…? Ainda vão pensar que eu ando de mula lá pelo adro da igreja… Ou com o verbo carpir, se eu disser Antes que eu carpa… Eu, peixe? E se pegar em verbos que ficam ali no limite das cogitações, hem? Por exemplo, embora em Portugal seja fenómeno recorrente, conhecem alguma empresa que fale? Eu, que até falo bem, não falo porque nem sequer tenho dinheiro para falir. À empresa acontece bem pior, que nem língua tem. Empresa que não se preze não fale, quando muito faliu, ou vai à falência. E aqui sim, compreende-se o defeito. Falir é realmente um verbo defeituoso, olá se é! Por último, porque todos devem remir as suas dívidas, empresas inclusas, cumpre-me pagar as minhas. O que faço, remo a minha dívida? Mas não se rema com remos? Então, rimo essa dolorosa dívida? Oh, mas não se rima o verso? Ou será que a remio sem miar? Como se vê, este verbo é tão, tão defeituoso, que nem se deixa conjugar em diversas pessoas. E pronto, agora compreendo porque continua a mácula, e porque os gramáticos nos batem na cabeça como a palavra “defetivo”. A mim bateram-me três vezes, mas aprendi e redimo os meus pecados todos os dias.

quinta-feira, junho 11

O PROMETIDO É DE VIDRO


Ando aqui às voltas com duas palavras, dois verbos muito usados pelos portugueses. O primeiro mais pelos amantes matreiros, que fazem das emoções um gelado em dia de verão. O segundo mais pelos políticos portugueses. Que, como muito bem sabemos, leram e releram todas as cartilhas dos atos de linguagem. Refiro-me aos verbos jurar e prometer. A minha dificuldade, neste momento, consiste em não saber o significado destas duas palavrinhas. Porque, se é fácil saber o que denota a palavra maçã, como saber o que denota o verbo jurar? A maçã é este fruto e já está. Sabemos o que é, saboreamo-lo, e até o relacionamos com os índices de colesterol. Quanto ao jurar, se jura de homem é riso de cão e se os mentirosos são pródigos em juras, fico no arame, instável quanto à significação. Jurar contém em si uma promessa? Mas que promessa, se toda a gente cruza os dedos no ato de enunciação? O Paul Grice bem pede para não dizermos aquilo que pensamos ser falso, mas quê, os nossos políticos só leem as alíneas que lhes interessam… E sabem muito bem que a linguagem, para além de ser informativa, também serve um intuito produtivo: produzir factos e realizar atos. Por isso eles elevam a ene o verbo prometer. Porque, sendo prometer verbo performativo, não pode ser submetido a regras de veracidade: enunciou-se, significou. E, ao assim significar, imediatamente se põe ao serviço daquilo que Chomsky releva como as grandes técnicas da manipulação. Nunca fiz a estatística, mas quase garanto a primazia do prometer no universo discursivo do português contemporâneo. Durão Barroso prometeu, pisgou-se, voltou a prometer fazer frente aos interesses particulares dos Estados-membros na presidência da Comissão Europeia, voltou a pisgar-se. António José Seguro foi mais longe e garantiu, com toda a sua convicção, “aquilo que prometo, cumpro”. Não teve tempo de não cumprir. E as promessas do nosso amigo Sócrates? É verdade, prometeu fazer na cultura o que se fez na ciência. E fez? E o nosso amigo Passos? O Diário de Notícias registou, num dia qualquer, uma atitude extraordinária do nosso primeiro: “Passos recusa prometer baixa do IRS em 2015”. Porque Passos já nem se dá ao trabalho de se recusar baixar, ele vai mais longe no seu ato vertical de linguagem: ele recusa prometer! Porque, ao fazê-lo, mostrava pelo menos a esperança de conseguir algo. Ou obrigava-se a fazer alguma coisa. E o nosso primeiro não quer dar esperança, nem quer sentir-se obrigado. É melhor assim, que lá diz o povo, quem muito promete, nada dá. Nem a lua, nem mundos e fundos, nem pensões, nem vencimentos, nem o raio que os parta a todos. Razão tem o Rui Veloso: o prometido é de vidro!...


terça-feira, junho 2

PRESIGO


Não sei qual o âmbito de uso desta palavra no território nacional. Imagino que, no Brasil e nas restantes ex-colónias, terá também algum uso. Para mim, no entanto, é palavra bem presente e que consta no meu dicionário mental. Por curiosidade, consulto alguns dicionários e obtenho aproximadamente a mesma definição: o que se come com o pão, carne de porco, conduto. O Grande Dicionário da Língua Portuguesa, coordenado por José Pedro Machado, acrescenta-lhe: farnel. O Dicionário Houaiss e o Dicionário da Academia apontam-lhe uma origem obscura relevando a condição de regionalismo. O Dicionário Houaiss apresenta a explicação mais completa, dada em três simples linhas: designação genérica do que se come, sem prato, com pão (por exemplo: presunto, azeitonas, queijo). Curiosamente, ambos escondem o verbo presigar, constante dos outros três dicionários. Não é fácil explicar os contextos de uso de palavras como esta, suscetíveis de modificar ligeiramente o seu significado. Nos velhos tempos, isto é, no tempo da sopa, da côdea rapada e da meia sardinha, o presigo era o que se comia além da sopa. Em geral, o que se comia além da sopa não levava grandes condimentos. Toucinho sim, que era guardado em salmoura e se comia de vez em quando. E hoje, com a mudança alimentar, ainda há quem espere pelo presigo? E os jovens conhecerão a palavra?


sexta-feira, maio 29

A LÍNGUA
     Desde Ferdinand de Saussure, toda a gente sabe o que é a língua. Enquanto sistema que serve uma comunidade, a língua é logicamente usada, e move-se. Pensamos na língua portuguesa, por exemplo, nos arcaísmos, nos neologismos, nos acordos gráficos, nas discussões acaloradas em torno da coisa e concluímos que sim, é verdade, a língua move-se. 
    A língua, porém, é também um órgão muscular, como diz o dicionário, recoberto de mucosa, e que, entre outras responsabilidades, também ajuda a produzir sons. Com ela, e isso é que é realmente relevante, nós podemos fazer coisas, seja objetivamente, em sentido literal, seja em sentido figurado. O povo, esse malandro que ninguém sabe quem é, sempre se entreteve nas figurações, e assim atribuiu à língua funções que ela, na sua humilde casota, nem se atreveria a pensar. Por exemplo, quem não mordeu já a língua, ficando a ganir durante uns bons momentos? Não é coisa boa, não, mas será muito bom que se morda a língua em situações de conflito, não vá o diabo tecê-las e saiam algumas verdades inconvenientes para o patrão… 
     Há pessoas que, com certeza por deformação genética difícil de explicar, têm a língua solta, algumas têm uma língua viperina e outras, ainda, têm uma língua de palmo e meio. Se vão a um especialista dessas deformações, o que poderá ele dizer? Que sejam operadas? Que mudem de língua? Ou que, eventualmente, a engulam? Mas, engolir a língua, além de causar grande desconforto físico, também causa desconforto psicológico. É que, de língua assim engolida, as pessoas nem podem respirar, quanto mais falar… Em vez de engolir podem, no entanto, dobrá-la, o que poderá ser solução menos dolorosa. 
     O especialista poderá então dizer: olhe, meu amigo, quando quiser falar, não engula a língua, dobre-a. Vai ver que se sentirá muito melhor. Está-se mesmo a ver que, em algumas situações, o doente vai reagir, e dizer qualquer coisa como ó senhor doutor, mas como vou dobrá-la se eu tenho tudo na ponta da língua? Aliás, eu tenho necessidade de a desenferrujar de vez em quando, se a engulo ou dobro nem posso deitá-la de fora. E isso não é bom, senhor doutor, que eu gosto de deitá-la de fora à minha vizinha… Ó senhor doutor, por favor, não seja indiscreto, não bata com a língua nos dentes, olhe que eu respeito muito a senhora… Nem seja má-língua, que eu também não sou…
     O doutor, perante esta reação, que poderá dizer? Das duas uma, ou concluirá que não estão a falar a mesma língua, ou que a dita é realmente um músculo muito difícil de agarrar. Se a língua é de vaca, come-se. Se a língua é de gato, saboreia-se com um chazinho. E se a língua for da sogra? Vai também com um chazinho ou foge-se?

quarta-feira, maio 27



Acabo de editar o livro "Língua e Literatura - Diversos". A sua apresentação pública realizar-se-á no próximo dia 5 de Junho, sexta-feira, na Escola Secundária Alberto Sampaio, pelas 18 horas. Este livro será apresentado pelo meu filho, Álvaro Silva, a quem agradeço com o meu coração de pai. Naturalmente, gostaria de dar um grande abraço aos meus Amigos que, com certeza, estarão presentes.


terça-feira, maio 19

O GATO E OS PARDELHOS

O contexto é um jardim triangular: um pinheiro manso muito jovem, uma palmeira com algumas folhas desmaiadas, um centro de flores e um gato. Negro e pequenino, correndo atrás de uns pardelhos bravos que bicavam sementes. No passeio, avó e neta arrastavam o tempo, extenso para uma, mais curto para outra. A pequena, extasiada com o rabo em riste do gatito, ficava-se para trás. A avó, de braço estendido para a retaguarda, olhava em frente e esgravatava o ar à procura da neta.
− Que raio, rapariga, já te disse que não te quero longe de mim. Ou vais ao meu lado ou vais à frente!
Dando uma corrida, a pequena pôs-se ao lado da avó.
Mas o gato eriçava os bigodes, firmava um ar atacante e fixava-se nos pássaros. E a pequena, que nem tinha bigodes nem tinha ar de gato, voltou a parar e especar-se. A mão da avó voltou a esgravatar o ar com ânsias de algo sólido, mas só sentiu o vazio. Foi então que se virou e viu a neta em adoração de um quadro. Acariciou-a e disse:
− O gatinho é bonito, não é?
 É, avó, mas ele quer comer os pássaros.
− Oh, meu amor, ele é tão pequenino… E os pássaros voam, têm asas, achas que se deixam apanhar?
A pequena sorriu e continuou ao lado da avó.


sexta-feira, maio 15

O QUE É UM COPO?


Não sei o que é um copo. Ontem, no café, pedi uma cerveja, trouxeram-me um copo de cerveja (denominação do empregado), conteúdo e continente, evidentemente, mas tão pequeno, tão pequenino, que continuei com sede. No fim paguei a cerveja da ordem, que nestas coisas é de pagar e não bufes. Mas fiquei na minha: hei de saber o que é um copo, para que não voltem a enganar-me. E aqui estou. Abro o Google, escrevo copo e clico em imagens. Eh laaaaá… Tantas formas diferentes, altos, baixos, magros, redondos, côncavos e convexos… E taças, cálices, e até vasos! Estou admirado. Uma taça é um copo? Um cálice é um copo? E um vaso é um copo? No meio desta amálgama vejo uma bola. O que terá a bola a ver com o copo? Os jogadores bebem copos durante os jogos? Levarão vasos para fazer chichi? Ou será que copo tem o feminino copa, e aquela bola é a da copa do mundo? Ui, e aqui em baixo, um sutiã? A que propósito? Copa 18? Isto foi em que ano? 1966? Raios, vou pedir um copo ou uma copa, o continente ou o conteúdo? Não percebo nada disto…


SISTEMÁTICO E SISTÉMICO


Ironicamente, ou talvez não, confessa Mário Quintana: “Até hoje, só conheci dois sinónimos perfeitos: nunca e sempre.” Filosofava, claro, que nesta coisa de se adequar o nome à realidade há sempre ruído de permeio, e o ruído é, bastas vezes, cultural. Dizermos que antigo é sinónimo de velho é uma evidência. Todavia, se queremos atribuir estes adjetivos a nomes específicos, andamos às cambalhotas com os traços semânticos de cada elemento e, não poucas vezes, batemos com o nariz na porta. A igreja é velha? Deve ser antiga. A senhora é velha? Antiquada será, com certeza, mas antiga, isso não. Conclui-se, portanto, que há uma zona de interseção significativa que não corresponde à totalidade da significação das palavras. Antigo e velho são sinónimos, sim, mas não perfeitos. Os adjetivos sistémico e sistemático, e bem assim os adverbiais sistemicamente e sistematicamente, balançam no mesmo tipo de considerações. Apresentados como sinónimos perfeitos em alguns dicionários, não o são no estado atual da língua portuguesa. Sistémico é tudo o que é relativo a um sistema, incluindo-se aqui o sistema estruturado que é o organismo humano. Pensar sistemicamente significa pensar em sistemas, na sua logicização, na sua interpenetração, com vista a um objetivo qualquer. Agir sistemicamente aponta para o mesmo facto. Quando dizemos, no entanto, que devemos agir sistematicamente, ou de forma sistemática, relevamos a nossa metodologia para agir, que consistirá na iteração de ações para cumprir um objetivo. Uma abordagem sistémica focaliza logicamente um sistema; uma abordagem sistemática focaliza a metodologia. Sinónimos perfeitos? Responderia Quintana: nem por isso, nem por isso…


quinta-feira, abril 23

A MORTE DOS AFETOS


A minha professora da quarta classe era extraordinária. Impossível esquecê-la, tão importante foi na minha vida. Se sou um leitor voraz e um escritor compulsivo, a ela o devo. As suas metodologias de ensino, as estratégias utilizadas e, acima de tudo, o amor e o carinho que punha em todas as suas ações só podiam ter consequências benéficas em jovens que, como eu, iniciavam o sue percurso no mundo. Naquele tempo, confortar uma criança com um sorriso ou com um toque nos seus cabelos era possível. Lembro-me de a minha professora me levar, a mim e a outros colegas, para sua casa. O objetivo era proporcionar-nos aprendizagens suplementares, tendo em vista o exame final que se aproximava. As suas duas filhas, mais ou menos da nossa idade, conviviam e aprendiam connosco. E assim evoluímos como seres humanos e nos tornamos homens e mulheres puros e verdadeiros. Noticia-se na televisão o caso de uma professora acusada de um relacionamento com um jovem de catorze anos. Sem nenhuma prova, apenas porque alguém decidiu processá-la. A professora afirma que agiu com o aluno exatamente da mesma forma como age com outros: sempre presente, disponível, usando alguns meios como o telefone ou o correio eletrónico, instrumentos banais do nosso quotidiano. Ouço esta professora a explicar as circunstâncias do seu modelar trabalho e entristeço-me. A nossa sociedade tem evoluído num sentido absolutamente negativo, no que respeita ao relacionamento humano. Como podemos desenvolver as emoções dos nossos filhos se é proibido tocar-lhes, acarinhá-los, abraçá-los, beijá-los? Como se transmite a confiança e o sentimento do amor? Ontem o Rui dizia, em conversa de café: ─ Eu nunca beijei ou abracei o meu pai. Fiquei estarrecido com esta frase. O Rui é, ou será, um ser humano feliz?


sábado, abril 4

SEXTA-FEIRA SANTA

Sexta-feira Santa em Braga. Sol brilhante, uma leve brisa, pessoas cruzando-se em multiplicações linguísticas, de telemóvel em riste sempre pronto a disparar. Ao longo da avenida, flores redondas de todas as cores fazem de mim o centro de um quadro de Kusama. Fundo os olhos no Picoto, no Bom-Jesus ou no Sameiro e sinto no verde variegado toda a esperança da Humanidade. Embrenho-me no coração da cidade e estou bem. Uma senhora espanhola pergunta-me pela sé. Digo-lhe que é ali, e ela dá-me graças. Muitas graças. Ouço comentários sobre a beleza dos monumentos e dos jardins floridos, sobre o sol e sobre as abelhas que labutam. Um quadro de Kusama sintetiza este mundo: amor, cor e alegria. É isto o paraíso? Desço a avenida, vejo duas amigas abraçadas e ouço: − Não te preocupes, minha querida, vai tudo correr bem. Eu estou aqui para te ajudar, não te esqueças! – Há solidariedade no ar. No café, leio o jornal. No Quénia, jovens estudantes universitários morrem em ataques bárbaros. São cristãos. O papa Francisco chora as mortes e aponta o dedo ao silêncio. Pode o céu coexistir com o inferno?


terça-feira, março 31




Acabo de publicar DIZEM, livro de sonetos.
Os interessados podem contactar:
josemoreirasilva1954@gmail.com


OS PÊSSEGOS


Caminho lento na margem fresca do Este, rio ou ribeiro que atravessa a cidade. O dia está agradável para passear, e normalmente faço-o em horas matutinas. A água canta as suas melodias, os pássaros esvoaçam sobre as árvores, ouve-se o coaxar das rãs e o estrépito de alguns camiões sobre a ponte. À minha frente, ligeiras, em passo de dança, duas senhoras. Uma de fato de treino e grande rabo-de-cavalo, outra da calça de ganga e camisa larga. Conversam sobre frutas e doces, sobremesas com certeza, e aceleram de vez em quando o ritmo da passada.
− Eu gosto é de pêssegos em calda… − Diz a desportista.
− Ui, pêssegos é comigo! – Gargalha a outra.
− Também gosto muito de maçãs, mas com casca.
− Também, também, eu gosto muito de descascar… − E continua a rir.
− E de laranjas, adoro laranjas.
− De laranjas eu não gosto, já sabes, arrepiam-me ao descascar… E dão-me cabo das unhas. – Faz o gesto de arrepiar.
Atrás, eu estugo o passo. Posso lá perder aquelas peripécias?
− Oh amigo, você gosta de pêssegos? – Arrima-me a matreira.
− Hã? Quem, eu? Sim, claro, quem não gosta? – Respondo meio embasbacado.
− Vês, vês? Toda gente gosta de pêssegos. É tão bom!...
Sorrio, compreensivo. Que mais posso fazer?



quinta-feira, outubro 9

O ACASO

Dizia já o meu avô que há dias de manhã em que de tarde não se deve sair à noite.  Eu nem queria acreditar nessa coisa de sorte ou azar, mas há momentos em que desconfio. Acredito que entre a sorte e o azar se encontra algures a média. Quando os tempos são muito bons, achamos tudo excelente, a vida corre bem, não há pedras no caminho. O problema é quando escurece, quando chovem cães e gatos na nossa humilde vidinha. Aí, lembramo-nos do azar. Mas não, acredito que sejam acasos negativos concentrados, coincidências, que equilibram a balança do nosso dote universal. Hoje fiquei na média. É justo.

quarta-feira, outubro 8

MÃE

Procuramos uma rima e não se encontra. Perguntamo-nos porquê e não conseguimos explicação. Depois pomos um dedo na testa, à guisa de pensador profundo, e eureka. Para um singular absolutamente único, uma palavra única, a palavra “mãe”. Nada rima com mãe a não ser os seus compostos. E tem de ser assim, porque é assim no universo. A minha mãe. Hoje dei-lhe um beijo. Dou-lhe sempre um beijo, mesmo quando não estou com ela. E um abraço. Estou sempre abraçado a ti, minha mãe.

terça-feira, outubro 7

IMPLOSÃO

Pode parecer impoética, mas a definição dada pelo dicionarista, adaptada à presente circunstância, é irrebatível: desaparecimento de um ou vários ministérios atrás do horizonte dos fenómenos do espaço-tempo, originando um enormíssimo buraco negro. Falta saber se do buraco negro não tossirão enormes estilhaços… Só se espera que sejam muito bem dirigidos, e que atinjam apenas quem voa na passarola. 

segunda-feira, outubro 6

O MUNDO

Olha à tua volta, como vês o mundo? Num lado, decapitam em nome de deus. Pensa-se talvez em reinventar um mundo num lago de sangue… Na Europa, divide-se e empobrece-se para reinar: os sapos incham, o pobre apenas emagrece. Por cá, o caos caminha a passos de bom gigante: nem educação, nem saúde, nem justiça. Apenas a miserável sensação de que nascemos nada, nada somos e nem em pó seremos transformados.

domingo, outubro 5

RESTAURANTE "NOVA VILA" - CELORICO DE BASTO

Hoje fui até Celorico de Basto, terra de muitas belezas naturais (Barroso, Marão…) e de boa gente. À hora do almoço, dei algumas voltas pelo centro da vila, na busca sempre lancinante de um bom restaurante. Ali pela zona do parque de campismo, na Rua Rodrigo Sousa e Castro, lá estava um. Espreitei. Era simples, mas tinha boa freguesia. Entrei. Fui convidado a sentar-me por uma menina muito simpática que me sugeriu “um cabritinho muito bom”, “um bacalhau que demoraria uns bons minutos a confecionar” e “uma vitela assada no forno muito boa e saborosa”. Escolhi a vitela e um vinho maduro, produzido na Adega de Freixo de Espada à Cinta, que me deixou estupefacto, pela força e maciez do seu sabor: Montes Ermos, de seu nome, garrafa pequena de tinto, colheita de 2013. A vitela, assada no ponto absolutamente correto, sentia-a divinal. Ajudaram uns bolinhos de bacalhau, de entrada, uma suculenta salada mista, uma salada de fruta e um café. A conta? Pois, a conta deixou-me de boca aberta, dada a qualidade geral do repasto e da pinga: 11 euros. Prometi à menina que daria publicamente os parabéns ao António Sousa, proprietário da casa. Estão dados! Quando voltar a Celorico, lá estarei de novo no Nova Vila!

Restaurante Nova Vila
Rua Rodrigo Sousa e Castro

4890 Gémeos, Celorico de Basto

sábado, outubro 4

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Releio as “Poesias”, de Mário de Sá-Carneiro, numa edição do Círculo de Leitores, 1979. Antes disso, retomo o extraordinário “Estudo Crítico” de João Gaspar Simões, que lhe serve de prefácio. Para quem quer compreender melhor as relações entre o mundo e o poeta que figuradamente lhe dá corpo, este estudo é único e exemplar. E ficamos a saber muito mais sobre a personalidade dividida de Mário de Sá-Carneiro. 

domingo, março 24

BANCARROTA
 
Chipre e a possível bancarrota. Ouço a palavra e sinto um arrepio. Há palavras que atravessam os espaços, que agulham aqui e ali, que ferem e fazem sangrar. Percorro-os e pressinto: Islândia, Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Chipre. O sul sem norte, o sul desnorteado. Ouço Francisco, o papa novo. Ouço palavras novas, a pobreza, a alegria, a comoção. E o contacto com a desgraça. Que mundo vem aí pelos córregos desta vida? Que amanhã oferecemos aos filhos minguados? No meio das intempéries, acredito no sorriso. Porque, se não acredito, resta-me a morte. E eu não quero pensar nela.

 

segunda-feira, março 11

BLAISE PASCAL
 
Estou a reler os “Pensamentos”, de Blaise Pascal. O apriorismo das suas ideias seduz-me, obriga-me a pensar. Pascal conseguia dizer em poucas palavras a essência do mundo, e dizia-o, muitas vezes, de forma paradoxal. Gosto, por exemplo, de sentir-me povo, e de ter consciência da minha ignorância natural. Porque somos governados pelos do “meio”? Disse ele que:
 
O povo julga bem as coisas, porque está na ignorância natural, que é o verdadeiro lugar do homem. A ciência tem duas extremidades que se tocam. A primeira é a pura ignorância natural, na qual se encontram todos os homens ao nascer. A outra extremidade é aquela a que chegam as grandes almas que, tendo percorrido tudo quanto os homens podem saber, acham que nada sabem e voltam a encontrar-se nessa mesma ignorância da qual tinham partido; mas é uma ignorância sábia que se conhece. Os do meio, que saíram dessa ignorância natural e não puderam chegar à outra, têm umas pinceladas dessa ciência suficiente, e armam-se em entendidos. Esses perturbam o mundo e julgam mal de tudo. O povo e os verdadeiramente sábios compõem a ordem do mundo; estes desprezam-na e são desprezados.
 
 

sexta-feira, março 8

MÁXIMA PARA RECORDAR SEMPRE

Exige muito de ti e espera pouco dos outros.

Confúcio

segunda-feira, março 4

EPICURO, A CONDUTA DA VIDA
 
Na juventude, não devemos hesitar em filosofar; na velhice, não devemos deixar de filosofar. Nunca é cedo nem tarde demais para cuidar da própria alma. Quem diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de filosofar, parece-se ao que diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de ser feliz. Jovens ou velhos, devemos sempre filosofar; no último caso, para rejuvenescermos ao contacto do bem, pela lembrança dos dias passados, e no primeiro, para sermos, embora jovens, tão firmes quanto um ancião diante do futuro. É mister, pois, estudar os meios de adquirir a felicidade; quando a temos, temos tudo; quando a não temos, fazemos tudo por adquiri-la.

domingo, dezembro 30

segunda-feira, dezembro 24

QUAL?
 
Estou aqui concentrado a fazer um poema. Não sei porquê, mas falta-me sempre uma palavra. Às vezes encontro-a a passear na rua em baixo, outras vezes peço-a emprestada às aves que passam. Neste país falta uma palavra. Porque, como disse Lucrécio, uma simples palavra, pronunciada pela boca de alguém que grita, penetra nos ouvidos de uma multidão inteira. Mas, qual será ela?

 

domingo, dezembro 9

PLUTARCO E OS INIMIGOS
 
Estou a ler Plutarco (46-125 d.C), um livro muito interessante, "Como tirar proveito dos inimigos". Não é que eu tenha inimigos, mas convém sempre saber a opinião dos doutos:
 
Se pretendes afligir aquele que te odeia, não o qualifiques como homem degenerado nem cobarde, nem libertino, nem palhaço, nem ignóbil, mas sê tu mesmo um homem. Age com moderação, sinceridade e trata com amabilidade e justiça todos os que lidam contigo.

sexta-feira, outubro 19


CAMÕES E QUEVEDO

Gosto dos poetas espanhóis, leio-os com prazer redobrado quando me alongo no sofá. Hoje, sem querer, encontrei Quevedo, nascido em Setembro de 1580, três meses depois do falecimento do nosso Camões - Junho de 1580. Nunca tive dúvida da universalidade do nosso poeta, mas alguns sonetos de Quevedo provam que ele era lido em Espanha e traduzido (ou plagiado?). Comparem-se estes dois sonetos e conclua-se o que for de concluir:


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
 
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
 
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
 
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Es hielo abrasador, es fuego helado,
es herida, que duele y no se siente,
es un soñado bien, un mal presente,
es un breve descanso muy cansado.
 
Es un descuido, que nos da cuidado,
un cobarde, con nombre de valiente,
un andar solitario entre la gente,
un amar solamente ser amado.
 
Es una libertad encarcelada,
que dura hasta el postrero paroxismo,
enfermedad que crece si es curada.
 
Éste es el niño Amor, éste es tu abismo:
mirad cuál amistad tendrá con nada,
el que en todo es contrario de sí mismo.

sábado, outubro 13

DEI-TE

Dei-te um poema na palma da mão,
Dei-te um suspiro em troca de arfar,
Deste-me o corpo, deste-me o pão,
Deste-me a dor e o seu navegar.
Deste-me a mão, alei-me fagueiro,
Dei-te um abraço, olhámos o olhar,
E dei-te um beijo molhado, lampeiro,
E deste-me um beijo cheiinho de amar.
Saímos à rua, gritámos é tua,
Aqui vamos nós a caminho do mar,
Porque é lá longe, na margem da lua,
Que o nosso amor quer enfim poisar.
 José Silva, 13.10.2012

quinta-feira, abril 5


OLHA!

Olha que lindo poema!
E eu olhei.
O fundo era a montanha,
O verde e o azul do mar.
Havia um arco-íris.
Olhei.
Num tufo de cores,
Duas mãos dadas
Faziam amor.

José Silva, 05.04.2012

domingo, fevereiro 5

SENSATION 

Par les soirs bleus d'été, j'irai dans les sentiers, 
Picoté par les blés, fouler l'herbe menue: 
Rêveur, j'en sentirai la fraîcheur à mes pieds. 
Je laisserai le vent baigner ma tête nue. 

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien: 
Mais l'amour infini me montera dans l'âme, 
Et j'irai loin, bien loin, comme un bohémien, 
Par la Nature, - heureux comme avec une femme. 

Arthur Rimbaud(1854 -1891)

sexta-feira, janeiro 27

QUANDO TAL

Lembro-me da locução, ouvi-a já em variados contextos. Tem um significado que balança entre o temporal e o hipotético. A verdade, porém, é que nunca a vi escrita, nem há registo dela nos dicionários que possuo. É do tipo:

- Quando tal, vou lá!

Aceitam-se explicações e exemplos.

quinta-feira, janeiro 26

EU ACREDITO EM TI

Follow your dreams
Be yourself an angel of kindness
I believe in you!


Il Divo e Céline Dion
O DESCRITO PODE SER DISCRETO?

Lê-se no Diário Económico de 25 de Janeiro:

A descrição é “o” activo dos reguladores.

Carlos Tavares decidiu ontem questionar publicamente a data de divulgação das contas dos bancos, quando se sabe que apresentarão milhões de prejuízos. A intervenção do presidente da CMVM só acrescenta ruído a uma matéria que exige descrição, para evitar uma injustificada desconfiança sobre a solidez dos bancos.

Lê-se, e não se percebe nada. Se a descrição é um activo, então toca a descrever! Como, porém, diminuir o ruído se, por definição, a descrição apenas o acrescenta? Dito de outra forma: pode o descrito ser discreto, ou a discrição ser descrita? A crer no erro da notícia, pode. Porque de erro se trata, e a notícia ficou de pernas para o ar.

quinta-feira, dezembro 29


EDGAR MORIN


Às vezes lemos autores que nos fazem pensar. Quando queremos pensar, que isso incomoda como andar à chuva, já dizia o poeta. Já conhecia de passagem os trabalhos do físico dinamarquês Niels Bohr, cujos resultados, aplicados essencialmente à física quântica, têm contribuído para a decifração da complexidade da estrutura atómica. Não conhecia, no entanto, referências mais abrangentes. Se o separado é também o inseparável, se a partícula microfísica é, consoante a observação, tanto onda contínua quanto corpúsculo; se o indivíduo se dissolve no todo que é a sociedade (olhando-se a sociedade) e se a sociedade se dissolve (olhando-se o indivíduo), apercebemo-nos de como os paradigmas se cruzam, e de como as ciências se interpenetram e complementam. Leio Edgar Morin (Mes philosophes, Germina: 2011) e avanço no meu conhecimento. Se Heraclito foi o primeiro e Ivan Illich um dos últimos, qual será o próximo filósofo de Morin?

quinta-feira, dezembro 22

A SÍNTESE

Um disse que sim e fez o seu contrário. Outro disse que não e fez o seu contrário. Os políticos de hoje são assim, uma contradição aparentemente lógica, todavia não do Heraclito. Porque lhes falta a síntese. Não leram Régio nem a conjunção: Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém. Aquele não é Deus. Este não é o Diabo. Será a Troika a síntese?

sábado, agosto 27

BY YOUR SIDE - SEBASTIAN BACH



A TEU LADO

Um dia vi um sol, um sol diferente,
Cheio de resplandecentes palavras,
De sorrisos plenos e sem brumas.

Um dia vi-o, um dia acreditei
Que aquele sol me brilharia para sempre
E que eu estaria eternamente a seu lado.

Esqueci-me, porém, das estações,
Das noites frias e dos dias nublados,
Dos olhos fechados da luz em bruma.

Hoje é inverno no meu coração.

À janela, virado para o mundo, ouço a canção
E aguardo, serenamente, todo o meu devir.

José Silva, 27.08.2011


terça-feira, julho 26

NÓS NÃO SOMOS...

Nós não somos a Grécia – disse o ministro irlandês.
Nós não somos a Irlanda – disse o ministro português.
Nós não somos Portugal – disse o ministro espanhol.
Nós não somos a Espanha – disse o ministro italiano.
Nós não somos Portugal – disse Obama.

Eureka: existe um “verbo” NÃO SER! Será conjugável em todas as línguas?


quinta-feira, julho 7

JURAM AS ÁGUAS

E juram que absorto
Estava ali sentado
Entre nimbos e ramos
E todos os silêncios.

Juram as águas que chorando o viram.

José Silva, 07.07.2011


sábado, julho 2

DEVO À PAISAGEM

Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras, e as cores do chão onde firmo os pés, foram sempre no meu espírito coisas sagradas e íntimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Angelo a demonstrá-lo. Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerez. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespeare... Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!

Miguel Torga, in "Diário (1942)"


sexta-feira, julho 1

PORTUGAL, PARA ONDE VAIS?

Não tenho por costume fazer análise política, para isso há os politólogos, mas sou um cidadão português que sente na pele tudo o que acontece no nosso martirizado país. O nosso primeiro-ministro já veio dizer que o equivalente a 50% do subsídio de Natal é necessário para prevenir derrapagens relativamente ao défice previsto. O povo português ouve, já nem reage, tão usuais são estas decisões, e espera, como sempre, que sejam as últimas, e que fique salvaguardado o futuro dos nossos filhos. Olho para a Grécia, um dos berços da nossa civilização, e concluo que algo está errado no meio de tudo isto. E fico triste, andamos todos tristes, meio impotentes para remar contra esta maré absolutamente avassaladora. Mas a verdade é que temos de ser nós reagir. Como? Trabalhando, como sempre, acreditando que é possível vencer, mais uma vez, o grande Adamastor. Se o vencemos no passado, não tenho dúvida de que voltaremos a vencê-lo. O pormenor está no “quando”.

terça-feira, junho 28

MEN IMPROVE WITH THE YEARS


I am worn out with dreams;
A weather-worn, marble triton
Among the streams;
And all day long I look
Upon this lady's beauty
As though I had found in a book
A pictured beauty,
Pleased to have filled the eyes
Or the discerning ears,
Delighted to be but wise,
For men improve with the years;
And yet, and yet,
Is this my dream, or the truth?
O would that we had met
When I had my burning youth!
But I grow old among dreams,
A weather-worn, marble triton
Among the streams.

W. B. Yeats (1865-1939)

quinta-feira, junho 23

FACEBOOK EM QUEDA?

Lê-se que a rede social Facebook, pela primeira vez, perdeu utilizadores nos EUA. No último mês, seis milhões abandonaram-na, factor que sinaliza uma mudança na forma como se concretiza o relacionamento entre as pessoas. Comenta-se o facto de ser na prática impossível apagar as informações uma vez disponibilizadas, e começa a temer-se a mão do Big Brother, ou de ditaduras sub-reptícias que conhecem toda a nossa vida. São os nossos gestos comandados sem disso nos darmos conta? A tipologia comportamental mudou radicalmente e devemos estar preparados para as consequências. Precisamos de uma nova educação. Estaremos preparados para ela?

quarta-feira, junho 22

E VIVA O S. JOÃO!


Foto José Silva

Este ano, o S. João está com um colorido especial...

segunda-feira, junho 20

PARQUE DA PONTE


Foto José Silva

Acabo de chegar do Parque da Ponte. É tempo de S. João, as ruas já estão bem movimentadas e floridas, apetece sentar debaixo de árvores frondosas, junto ao lago a que somente falta o canto do cisne. Gosto do que fizeram lá. Vê-se limpeza onde ainda há pouco proliferava lixo; os caminhos estão tratados geometricamente e o verde sobressai. Nota-se uma faceta pedagógica até hoje esquecida: quase todas as árvores estão identificadas, o que transforma o espaço num jardim a visitar para os estudos de botânica. Há muitos anos que lá passeio. Nunca, no entanto, havia notado a variedade das espécies existente no parque. Hoje olhei com atenção redobrada e fiquei maravilhado. As escolas da cidade têm de levar os alunos àquele parque. E mais, acho que ficaria muito bem o seu prolongamento até à área da capela, sem aquele muro a delimitar não se sabe bem o quê. Porque desperdiçámos durante tantos anos um espaço tão agradável como este?

sábado, junho 18

PETRARCA, LISZT E HOROWITZ

Pace non trovo, et non ò da far guerra;
et temo, et spero; et ardo, et son un ghiaccio;
et volo sopra il cielo, et giaccio in terra;
et nulla stringo, et tutto 'l mondo abbraccio.

Tal m'à in pregion, che non m'apre né serra,
né per suo mi riten né scioglie il laccio;
et non m'ancide Amore, et non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d'impaccio.

Veggio senza occhi, et non ò lingua et grido;
et bramo di perir, et cheggio aita;
et ò in odio me stesso, et amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.




CELEIRINHO

Quando pensamos em literacia, na forma de elevar a cultura geral de um povo, tendemos a relevar o livro como a fonte mais ou menos unívoca de tal elevação. Sabemos que não é bem assim, e que a cultura se bebe em variadíssimas fontes. Na fonte do jornalismo escolar, por exemplo. Leio sempre com redobrada atenção os jornais ou as revistas que aqui ou ali se vão publicando, dando notícia do que se vai fazendo nas escolas ou do que vai acontecendo nas localidades, ou trazendo à luz lindos textos - belíssimos poemas! - de alunos verdadeiramente excepcionais. E concluímos que Portugal não é assim tão escuro, que ainda há luz a irradiar por essas escolas fora, sob a batuta de professores dedicados.

Tenho nas mãos o Celeirinho, da Escola EB2,3 de Celeirós, jornal de referência a nível nacional. Leio-o, sinto palpitar nele o coração de todos os jovens desta escola e bato palmas à equipa que o dirige. Belo jornal, parabéns!