sexta-feira, julho 31

O CORVO


Noé abriu a janela e soltou o corvo. E assim soube que as águas secaram sobre a terra. Depois, soltou a pomba. Desta, não sabemos mais nada, a não ser que todos os dias sobrevoa o varandim e poisa na eira. Do corvo, vicente na sua luta contra o poder arbitrário de Deus, sabemos, porque Torga o colocou naquele pedaço de terra onde lutou, altivo, contra a fúria das águas. E foi daqui, talvez, que voou até Sagres, onde demarcou território e constituiu família. Na sua ânsia de amplidão e de liberdade construiu o ninho exatamente na reentrância última das escarpas do cabo. E pôde ver, então, as relíquias do santo. Viu-as, ele e a sua companheira de jornada. E sentiram a santidade. Quando a caravela se aproximou, voaram em círculos, uma, duas, tantas vezes até que alguém se aproximou do lugar. A prova da sua relação com Deus apresentava-se clara como o branco do luar. O corvo, porém, sentia ainda o som tonitruante das palavras do Senhor. Deu as asas à sua companheira e, serenamente, acompanharam o santo até à terra lendária de Ulisses. Irmanou-se, santificou-se e chamou-se Vicente, o santo, o que vence. Voltou à sua prole, toda de asa negra, e viveu feliz. Soube mais tarde, por outros irmãos viajantes, histórias de poemas e filmes, simbologias esparsas, onde fizeram de si mau, e aos da sua espécie. Perguntou-se porquê, pensou na barca e em Noé, na fúria inexplicável de Deus, no pedaço de terra quase engolido pelas águas, no seu promontório feliz, e prometeu dizer nunca mais para satisfazer o poeta e os artistas: E jurou, ainda, dizer não à prepotência de Deus: eleito, nunca mais!

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