quinta-feira, fevereiro 17

quarta-feira, fevereiro 16

ODI ET AMO

Odi et amo: quare id faciam, fortasse requiris.
nescio, sed fieri sentio et excrucior.
Caius Valerius Catullus (84 B.C. ? 54 B.C.)


Odeio e amo. Perguntas-me porquê. Eu não sei, mas sinto e sofro.

Lembro-me de ter lido Catulo nos meus tempos de Latim e de ter reflectido sobre o ódio e o amor em versos de uma beleza extraordinária. O amor, na pena dos poetas e no coração dos homens, é um sentimento exigente, implica uma entrega pessoal completa, absoluta. Quando se ama verdadeiramente, todos os gestos, todas as palavras, todos os discursos são lidos e sentidos sem ambiguidades, com a clareza cristalina do poder do amor. Como dizia Balzac, tudo cai bem a este sentimento, sejam coisas pequeninas, como uma flor, mesmo que dada  emurchecida, seja uma palavra sem grande significado, ridícula ou fora de contexto. Pessoa dizia que as cartas de amor são ridículas, e percebe-se porquê. Mas são cartas de amor.

Um dia, em consequência de um grão de areia, este amor sublimado estremece e galga a linha, aquela linha fina que se junta ao amor e que separa dele o seu reflexo, lá do outro lado: o ódio. Ao ódio, tal como ao amor, também tudo vai caindo bem. No ódio as ambiguidades ganham praça, as vírgulas potenciam sentidos, tudo serve para as exegeses que se movimentam em velocidades vertiginosas nas mentes em turbilhão. Na Ética de Espinoza, o ódio é apresentado como sinónimo de tristeza, de perda, que acompanha a ideia de que a culpa é sempre exterior.

Tenho para mim que quem um dia odeia, é porque ama. Estou com Catulo e ligo os sentimentos de forma irreversível. O ódio é a sublimação do amor?

segunda-feira, fevereiro 7

PRAZERES...

Não sei bem porquê, mas sinto atracção pelos rios. Talvez pelo contraste com a terra, pela frescura e tranquilidade, pelo grasnar dos patos em devaneios ao longe. Por isso, sempre que posso, visito as águas límpidas do Cávado. Ontem, por exemplo, fiz uma grande descoberta: ali pelos lados de Merelim, mais propriamente em S. Paio, há uma via pedestre paralela ao rio, tranquila e verde, com o casario baixo lá ao longe. Andei por lá, peripatético sob o arvoredo, aprofundando ideias sobre a vida e sobre as coisas, ora pressentindo na nevralgia das ondas aquilo que é eterno, imutável e incorruptível, ora isolando-me, à maneira estóica, da tragédia quotidiana da vida, tentando, sábio, fundir-me com a racionalidade simples da singela natureza. Dei por mim, de livro na mão, a achar-me epicurista, ou, talvez melhor, hedonista. Porque se o prazer é o supremo bem da vida humana, a leitura de um livro realizada em paz ao longo de um rio calmo confirmou-o plenamente. Há muito que não me sentia tão simples, tão calmo, tão em paz comigo próprio. Experimentem e passem por lá. Talvez oiçam, como eu, o coaxar sinfónico das rãs...