segunda-feira, outubro 29

O VELHO

O sol crestava a terra. Eram duas da tarde e, na poalha nevrálgica dos campos, a quentura do Outono quase enlouquecia. Este ano a temperatura ergueu-se em poses altaneiras e convida à sombra, ao sono poltrão debaixo da ramada. Pensara dirigir-me ao rio, à frescura verdejante das águas, e para lá me guiava, entre visões coloridas de folhas em queda permanente. Numa tarde assim, inebriando o cheiro das longínquas águas, aquele quadro perturbou-me, qual Rembrandt pintando encurvadas ceifeiras. No campo empedernido coberto de palhas, um velho esquálido colava-se ao arado. De barba longa e branca, o seu esforço ingente aliava-se ao esgares do boi que, babando forças, rasgava sulcos negros na terra ressequida. Ao fundo, na sombra ligeira do valado, um jovem, aparentemente mongolóide, espreguiçava um chapéu largo de feltro. Meio campo semeado de sulcos; outro meio por semear. Olhando bem, parecia-me ver em cada leira marcas de suor, do homem e da besta irmanados no mesmo objectivo. O quadro era um clássico, com todos os traços da rural realidade: nem traço de modernidade, nem tractores, nem máquinas, apenas o homem, o animal e a terra, tal como em tempos ancestrais. E dei comigo a pensar no mito fundamental do eterno retorno, deste regresso à nossa origem, inevitavelmente telúrica, inexoravelmente humana: que motivos ponderosos cravavam aquele velho assim à terra e ao arado, quantas lágrimas de suor não contaria a chamejante poalha? A vida é bela vista assim, de passagem, retocada em quadro. Qual seria, no entanto, o preço da figuração real?

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