quinta-feira, abril 23

A MORTE DOS AFETOS


A minha professora da quarta classe era extraordinária. Impossível esquecê-la, tão importante foi na minha vida. Se sou um leitor voraz e um escritor compulsivo, a ela o devo. As suas metodologias de ensino, as estratégias utilizadas e, acima de tudo, o amor e o carinho que punha em todas as suas ações só podiam ter consequências benéficas em jovens que, como eu, iniciavam o sue percurso no mundo. Naquele tempo, confortar uma criança com um sorriso ou com um toque nos seus cabelos era possível. Lembro-me de a minha professora me levar, a mim e a outros colegas, para sua casa. O objetivo era proporcionar-nos aprendizagens suplementares, tendo em vista o exame final que se aproximava. As suas duas filhas, mais ou menos da nossa idade, conviviam e aprendiam connosco. E assim evoluímos como seres humanos e nos tornamos homens e mulheres puros e verdadeiros. Noticia-se na televisão o caso de uma professora acusada de um relacionamento com um jovem de catorze anos. Sem nenhuma prova, apenas porque alguém decidiu processá-la. A professora afirma que agiu com o aluno exatamente da mesma forma como age com outros: sempre presente, disponível, usando alguns meios como o telefone ou o correio eletrónico, instrumentos banais do nosso quotidiano. Ouço esta professora a explicar as circunstâncias do seu modelar trabalho e entristeço-me. A nossa sociedade tem evoluído num sentido absolutamente negativo, no que respeita ao relacionamento humano. Como podemos desenvolver as emoções dos nossos filhos se é proibido tocar-lhes, acarinhá-los, abraçá-los, beijá-los? Como se transmite a confiança e o sentimento do amor? Ontem o Rui dizia, em conversa de café: ─ Eu nunca beijei ou abracei o meu pai. Fiquei estarrecido com esta frase. O Rui é, ou será, um ser humano feliz?


sábado, abril 4

SEXTA-FEIRA SANTA

Sexta-feira Santa em Braga. Sol brilhante, uma leve brisa, pessoas cruzando-se em multiplicações linguísticas, de telemóvel em riste sempre pronto a disparar. Ao longo da avenida, flores redondas de todas as cores fazem de mim o centro de um quadro de Kusama. Fundo os olhos no Picoto, no Bom-Jesus ou no Sameiro e sinto no verde variegado toda a esperança da Humanidade. Embrenho-me no coração da cidade e estou bem. Uma senhora espanhola pergunta-me pela sé. Digo-lhe que é ali, e ela dá-me graças. Muitas graças. Ouço comentários sobre a beleza dos monumentos e dos jardins floridos, sobre o sol e sobre as abelhas que labutam. Um quadro de Kusama sintetiza este mundo: amor, cor e alegria. É isto o paraíso? Desço a avenida, vejo duas amigas abraçadas e ouço: − Não te preocupes, minha querida, vai tudo correr bem. Eu estou aqui para te ajudar, não te esqueças! – Há solidariedade no ar. No café, leio o jornal. No Quénia, jovens estudantes universitários morrem em ataques bárbaros. São cristãos. O papa Francisco chora as mortes e aponta o dedo ao silêncio. Pode o céu coexistir com o inferno?


terça-feira, março 31




Acabo de publicar DIZEM, livro de sonetos.
Os interessados podem contactar:
josemoreirasilva1954@gmail.com


OS PÊSSEGOS


Caminho lento na margem fresca do Este, rio ou ribeiro que atravessa a cidade. O dia está agradável para passear, e normalmente faço-o em horas matutinas. A água canta as suas melodias, os pássaros esvoaçam sobre as árvores, ouve-se o coaxar das rãs e o estrépito de alguns camiões sobre a ponte. À minha frente, ligeiras, em passo de dança, duas senhoras. Uma de fato de treino e grande rabo-de-cavalo, outra da calça de ganga e camisa larga. Conversam sobre frutas e doces, sobremesas com certeza, e aceleram de vez em quando o ritmo da passada.
− Eu gosto é de pêssegos em calda… − Diz a desportista.
− Ui, pêssegos é comigo! – Gargalha a outra.
− Também gosto muito de maçãs, mas com casca.
− Também, também, eu gosto muito de descascar… − E continua a rir.
− E de laranjas, adoro laranjas.
− De laranjas eu não gosto, já sabes, arrepiam-me ao descascar… E dão-me cabo das unhas. – Faz o gesto de arrepiar.
Atrás, eu estugo o passo. Posso lá perder aquelas peripécias?
− Oh amigo, você gosta de pêssegos? – Arrima-me a matreira.
− Hã? Quem, eu? Sim, claro, quem não gosta? – Respondo meio embasbacado.
− Vês, vês? Toda gente gosta de pêssegos. É tão bom!...
Sorrio, compreensivo. Que mais posso fazer?



quinta-feira, outubro 9

O ACASO

Dizia já o meu avô que há dias de manhã em que de tarde não se deve sair à noite.  Eu nem queria acreditar nessa coisa de sorte ou azar, mas há momentos em que desconfio. Acredito que entre a sorte e o azar se encontra algures a média. Quando os tempos são muito bons, achamos tudo excelente, a vida corre bem, não há pedras no caminho. O problema é quando escurece, quando chovem cães e gatos na nossa humilde vidinha. Aí, lembramo-nos do azar. Mas não, acredito que sejam acasos negativos concentrados, coincidências, que equilibram a balança do nosso dote universal. Hoje fiquei na média. É justo.

quarta-feira, outubro 8

MÃE

Procuramos uma rima e não se encontra. Perguntamo-nos porquê e não conseguimos explicação. Depois pomos um dedo na testa, à guisa de pensador profundo, e eureka. Para um singular absolutamente único, uma palavra única, a palavra “mãe”. Nada rima com mãe a não ser os seus compostos. E tem de ser assim, porque é assim no universo. A minha mãe. Hoje dei-lhe um beijo. Dou-lhe sempre um beijo, mesmo quando não estou com ela. E um abraço. Estou sempre abraçado a ti, minha mãe.

terça-feira, outubro 7

IMPLOSÃO

Pode parecer impoética, mas a definição dada pelo dicionarista, adaptada à presente circunstância, é irrebatível: desaparecimento de um ou vários ministérios atrás do horizonte dos fenómenos do espaço-tempo, originando um enormíssimo buraco negro. Falta saber se do buraco negro não tossirão enormes estilhaços… Só se espera que sejam muito bem dirigidos, e que atinjam apenas quem voa na passarola. 

segunda-feira, outubro 6

O MUNDO

Olha à tua volta, como vês o mundo? Num lado, decapitam em nome de deus. Pensa-se talvez em reinventar um mundo num lago de sangue… Na Europa, divide-se e empobrece-se para reinar: os sapos incham, o pobre apenas emagrece. Por cá, o caos caminha a passos de bom gigante: nem educação, nem saúde, nem justiça. Apenas a miserável sensação de que nascemos nada, nada somos e nem em pó seremos transformados.

domingo, outubro 5

RESTAURANTE "NOVA VILA" - CELORICO DE BASTO

Hoje fui até Celorico de Basto, terra de muitas belezas naturais (Barroso, Marão…) e de boa gente. À hora do almoço, dei algumas voltas pelo centro da vila, na busca sempre lancinante de um bom restaurante. Ali pela zona do parque de campismo, na Rua Rodrigo Sousa e Castro, lá estava um. Espreitei. Era simples, mas tinha boa freguesia. Entrei. Fui convidado a sentar-me por uma menina muito simpática que me sugeriu “um cabritinho muito bom”, “um bacalhau que demoraria uns bons minutos a confecionar” e “uma vitela assada no forno muito boa e saborosa”. Escolhi a vitela e um vinho maduro, produzido na Adega de Freixo de Espada à Cinta, que me deixou estupefacto, pela força e maciez do seu sabor: Montes Ermos, de seu nome, garrafa pequena de tinto, colheita de 2013. A vitela, assada no ponto absolutamente correto, sentia-a divinal. Ajudaram uns bolinhos de bacalhau, de entrada, uma suculenta salada mista, uma salada de fruta e um café. A conta? Pois, a conta deixou-me de boca aberta, dada a qualidade geral do repasto e da pinga: 11 euros. Prometi à menina que daria publicamente os parabéns ao António Sousa, proprietário da casa. Estão dados! Quando voltar a Celorico, lá estarei de novo no Nova Vila!

Restaurante Nova Vila
Rua Rodrigo Sousa e Castro

4890 Gémeos, Celorico de Basto

sábado, outubro 4

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

Releio as “Poesias”, de Mário de Sá-Carneiro, numa edição do Círculo de Leitores, 1979. Antes disso, retomo o extraordinário “Estudo Crítico” de João Gaspar Simões, que lhe serve de prefácio. Para quem quer compreender melhor as relações entre o mundo e o poeta que figuradamente lhe dá corpo, este estudo é único e exemplar. E ficamos a saber muito mais sobre a personalidade dividida de Mário de Sá-Carneiro. 

domingo, março 24

BANCARROTA
 
Chipre e a possível bancarrota. Ouço a palavra e sinto um arrepio. Há palavras que atravessam os espaços, que agulham aqui e ali, que ferem e fazem sangrar. Percorro-os e pressinto: Islândia, Irlanda, Grécia, Portugal, Espanha, Itália, Chipre. O sul sem norte, o sul desnorteado. Ouço Francisco, o papa novo. Ouço palavras novas, a pobreza, a alegria, a comoção. E o contacto com a desgraça. Que mundo vem aí pelos córregos desta vida? Que amanhã oferecemos aos filhos minguados? No meio das intempéries, acredito no sorriso. Porque, se não acredito, resta-me a morte. E eu não quero pensar nela.

 

segunda-feira, março 11

BLAISE PASCAL
 
Estou a reler os “Pensamentos”, de Blaise Pascal. O apriorismo das suas ideias seduz-me, obriga-me a pensar. Pascal conseguia dizer em poucas palavras a essência do mundo, e dizia-o, muitas vezes, de forma paradoxal. Gosto, por exemplo, de sentir-me povo, e de ter consciência da minha ignorância natural. Porque somos governados pelos do “meio”? Disse ele que:
 
O povo julga bem as coisas, porque está na ignorância natural, que é o verdadeiro lugar do homem. A ciência tem duas extremidades que se tocam. A primeira é a pura ignorância natural, na qual se encontram todos os homens ao nascer. A outra extremidade é aquela a que chegam as grandes almas que, tendo percorrido tudo quanto os homens podem saber, acham que nada sabem e voltam a encontrar-se nessa mesma ignorância da qual tinham partido; mas é uma ignorância sábia que se conhece. Os do meio, que saíram dessa ignorância natural e não puderam chegar à outra, têm umas pinceladas dessa ciência suficiente, e armam-se em entendidos. Esses perturbam o mundo e julgam mal de tudo. O povo e os verdadeiramente sábios compõem a ordem do mundo; estes desprezam-na e são desprezados.
 
 

sexta-feira, março 8

MÁXIMA PARA RECORDAR SEMPRE

Exige muito de ti e espera pouco dos outros.

Confúcio

segunda-feira, março 4

EPICURO, A CONDUTA DA VIDA
 
Na juventude, não devemos hesitar em filosofar; na velhice, não devemos deixar de filosofar. Nunca é cedo nem tarde demais para cuidar da própria alma. Quem diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de filosofar, parece-se ao que diz que não é ainda, ou já não é mais, tempo de ser feliz. Jovens ou velhos, devemos sempre filosofar; no último caso, para rejuvenescermos ao contacto do bem, pela lembrança dos dias passados, e no primeiro, para sermos, embora jovens, tão firmes quanto um ancião diante do futuro. É mister, pois, estudar os meios de adquirir a felicidade; quando a temos, temos tudo; quando a não temos, fazemos tudo por adquiri-la.

domingo, dezembro 30


FELIZ ANO DE 2013

 

segunda-feira, dezembro 24

QUAL?
 
Estou aqui concentrado a fazer um poema. Não sei porquê, mas falta-me sempre uma palavra. Às vezes encontro-a a passear na rua em baixo, outras vezes peço-a emprestada às aves que passam. Neste país falta uma palavra. Porque, como disse Lucrécio, uma simples palavra, pronunciada pela boca de alguém que grita, penetra nos ouvidos de uma multidão inteira. Mas, qual será ela?

 

domingo, dezembro 9

PLUTARCO E OS INIMIGOS
 
Estou a ler Plutarco (46-125 d.C), um livro muito interessante, "Como tirar proveito dos inimigos". Não é que eu tenha inimigos, mas convém sempre saber a opinião dos doutos:
 
Se pretendes afligir aquele que te odeia, não o qualifiques como homem degenerado nem cobarde, nem libertino, nem palhaço, nem ignóbil, mas sê tu mesmo um homem. Age com moderação, sinceridade e trata com amabilidade e justiça todos os que lidam contigo.

sexta-feira, outubro 19


CAMÕES E QUEVEDO

Gosto dos poetas espanhóis, leio-os com prazer redobrado quando me alongo no sofá. Hoje, sem querer, encontrei Quevedo, nascido em Setembro de 1580, três meses depois do falecimento do nosso Camões - Junho de 1580. Nunca tive dúvida da universalidade do nosso poeta, mas alguns sonetos de Quevedo provam que ele era lido em Espanha e traduzido (ou plagiado?). Comparem-se estes dois sonetos e conclua-se o que for de concluir:


Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
 
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
 
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.
 
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Es hielo abrasador, es fuego helado,
es herida, que duele y no se siente,
es un soñado bien, un mal presente,
es un breve descanso muy cansado.
 
Es un descuido, que nos da cuidado,
un cobarde, con nombre de valiente,
un andar solitario entre la gente,
un amar solamente ser amado.
 
Es una libertad encarcelada,
que dura hasta el postrero paroxismo,
enfermedad que crece si es curada.
 
Éste es el niño Amor, éste es tu abismo:
mirad cuál amistad tendrá con nada,
el que en todo es contrario de sí mismo.

sábado, outubro 13

DEI-TE

Dei-te um poema na palma da mão,
Dei-te um suspiro em troca de arfar,
Deste-me o corpo, deste-me o pão,
Deste-me a dor e o seu navegar.
Deste-me a mão, alei-me fagueiro,
Dei-te um abraço, olhámos o olhar,
E dei-te um beijo molhado, lampeiro,
E deste-me um beijo cheiinho de amar.
Saímos à rua, gritámos é tua,
Aqui vamos nós a caminho do mar,
Porque é lá longe, na margem da lua,
Que o nosso amor quer enfim poisar.
 José Silva, 13.10.2012

quinta-feira, abril 5


OLHA!

Olha que lindo poema!
E eu olhei.
O fundo era a montanha,
O verde e o azul do mar.
Havia um arco-íris.
Olhei.
Num tufo de cores,
Duas mãos dadas
Faziam amor.

José Silva, 05.04.2012

domingo, fevereiro 5

SENSATION 

Par les soirs bleus d'été, j'irai dans les sentiers, 
Picoté par les blés, fouler l'herbe menue: 
Rêveur, j'en sentirai la fraîcheur à mes pieds. 
Je laisserai le vent baigner ma tête nue. 

Je ne parlerai pas, je ne penserai rien: 
Mais l'amour infini me montera dans l'âme, 
Et j'irai loin, bien loin, comme un bohémien, 
Par la Nature, - heureux comme avec une femme. 

Arthur Rimbaud(1854 -1891)

sexta-feira, janeiro 27

QUANDO TAL

Lembro-me da locução, ouvi-a já em variados contextos. Tem um significado que balança entre o temporal e o hipotético. A verdade, porém, é que nunca a vi escrita, nem há registo dela nos dicionários que possuo. É do tipo:

- Quando tal, vou lá!

Aceitam-se explicações e exemplos.

quinta-feira, janeiro 26

EU ACREDITO EM TI

Follow your dreams
Be yourself an angel of kindness
I believe in you!


Il Divo e Céline Dion
O DESCRITO PODE SER DISCRETO?

Lê-se no Diário Económico de 25 de Janeiro:

A descrição é “o” activo dos reguladores.

Carlos Tavares decidiu ontem questionar publicamente a data de divulgação das contas dos bancos, quando se sabe que apresentarão milhões de prejuízos. A intervenção do presidente da CMVM só acrescenta ruído a uma matéria que exige descrição, para evitar uma injustificada desconfiança sobre a solidez dos bancos.

Lê-se, e não se percebe nada. Se a descrição é um activo, então toca a descrever! Como, porém, diminuir o ruído se, por definição, a descrição apenas o acrescenta? Dito de outra forma: pode o descrito ser discreto, ou a discrição ser descrita? A crer no erro da notícia, pode. Porque de erro se trata, e a notícia ficou de pernas para o ar.

quinta-feira, dezembro 29


EDGAR MORIN


Às vezes lemos autores que nos fazem pensar. Quando queremos pensar, que isso incomoda como andar à chuva, já dizia o poeta. Já conhecia de passagem os trabalhos do físico dinamarquês Niels Bohr, cujos resultados, aplicados essencialmente à física quântica, têm contribuído para a decifração da complexidade da estrutura atómica. Não conhecia, no entanto, referências mais abrangentes. Se o separado é também o inseparável, se a partícula microfísica é, consoante a observação, tanto onda contínua quanto corpúsculo; se o indivíduo se dissolve no todo que é a sociedade (olhando-se a sociedade) e se a sociedade se dissolve (olhando-se o indivíduo), apercebemo-nos de como os paradigmas se cruzam, e de como as ciências se interpenetram e complementam. Leio Edgar Morin (Mes philosophes, Germina: 2011) e avanço no meu conhecimento. Se Heraclito foi o primeiro e Ivan Illich um dos últimos, qual será o próximo filósofo de Morin?

quinta-feira, dezembro 22

A SÍNTESE

Um disse que sim e fez o seu contrário. Outro disse que não e fez o seu contrário. Os políticos de hoje são assim, uma contradição aparentemente lógica, todavia não do Heraclito. Porque lhes falta a síntese. Não leram Régio nem a conjunção: Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém. Aquele não é Deus. Este não é o Diabo. Será a Troika a síntese?

sábado, agosto 27

BY YOUR SIDE - SEBASTIAN BACH



A TEU LADO

Um dia vi um sol, um sol diferente,
Cheio de resplandecentes palavras,
De sorrisos plenos e sem brumas.

Um dia vi-o, um dia acreditei
Que aquele sol me brilharia para sempre
E que eu estaria eternamente a seu lado.

Esqueci-me, porém, das estações,
Das noites frias e dos dias nublados,
Dos olhos fechados da luz em bruma.

Hoje é inverno no meu coração.

À janela, virado para o mundo, ouço a canção
E aguardo, serenamente, todo o meu devir.

José Silva, 27.08.2011


terça-feira, julho 26

NÓS NÃO SOMOS...

Nós não somos a Grécia – disse o ministro irlandês.
Nós não somos a Irlanda – disse o ministro português.
Nós não somos Portugal – disse o ministro espanhol.
Nós não somos a Espanha – disse o ministro italiano.
Nós não somos Portugal – disse Obama.

Eureka: existe um “verbo” NÃO SER! Será conjugável em todas as línguas?


quinta-feira, julho 7

JURAM AS ÁGUAS

E juram que absorto
Estava ali sentado
Entre nimbos e ramos
E todos os silêncios.

Juram as águas que chorando o viram.

José Silva, 07.07.2011


sábado, julho 2

DEVO À PAISAGEM

Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras, e as cores do chão onde firmo os pés, foram sempre no meu espírito coisas sagradas e íntimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Angelo a demonstrá-lo. Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerez. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespeare... Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!

Miguel Torga, in "Diário (1942)"


sexta-feira, julho 1

PORTUGAL, PARA ONDE VAIS?

Não tenho por costume fazer análise política, para isso há os politólogos, mas sou um cidadão português que sente na pele tudo o que acontece no nosso martirizado país. O nosso primeiro-ministro já veio dizer que o equivalente a 50% do subsídio de Natal é necessário para prevenir derrapagens relativamente ao défice previsto. O povo português ouve, já nem reage, tão usuais são estas decisões, e espera, como sempre, que sejam as últimas, e que fique salvaguardado o futuro dos nossos filhos. Olho para a Grécia, um dos berços da nossa civilização, e concluo que algo está errado no meio de tudo isto. E fico triste, andamos todos tristes, meio impotentes para remar contra esta maré absolutamente avassaladora. Mas a verdade é que temos de ser nós reagir. Como? Trabalhando, como sempre, acreditando que é possível vencer, mais uma vez, o grande Adamastor. Se o vencemos no passado, não tenho dúvida de que voltaremos a vencê-lo. O pormenor está no “quando”.

terça-feira, junho 28

MEN IMPROVE WITH THE YEARS


I am worn out with dreams;
A weather-worn, marble triton
Among the streams;
And all day long I look
Upon this lady's beauty
As though I had found in a book
A pictured beauty,
Pleased to have filled the eyes
Or the discerning ears,
Delighted to be but wise,
For men improve with the years;
And yet, and yet,
Is this my dream, or the truth?
O would that we had met
When I had my burning youth!
But I grow old among dreams,
A weather-worn, marble triton
Among the streams.

W. B. Yeats (1865-1939)

quinta-feira, junho 23

FACEBOOK EM QUEDA?

Lê-se que a rede social Facebook, pela primeira vez, perdeu utilizadores nos EUA. No último mês, seis milhões abandonaram-na, factor que sinaliza uma mudança na forma como se concretiza o relacionamento entre as pessoas. Comenta-se o facto de ser na prática impossível apagar as informações uma vez disponibilizadas, e começa a temer-se a mão do Big Brother, ou de ditaduras sub-reptícias que conhecem toda a nossa vida. São os nossos gestos comandados sem disso nos darmos conta? A tipologia comportamental mudou radicalmente e devemos estar preparados para as consequências. Precisamos de uma nova educação. Estaremos preparados para ela?

quarta-feira, junho 22

E VIVA O S. JOÃO!


Foto José Silva

Este ano, o S. João está com um colorido especial...

segunda-feira, junho 20

PARQUE DA PONTE


Foto José Silva

Acabo de chegar do Parque da Ponte. É tempo de S. João, as ruas já estão bem movimentadas e floridas, apetece sentar debaixo de árvores frondosas, junto ao lago a que somente falta o canto do cisne. Gosto do que fizeram lá. Vê-se limpeza onde ainda há pouco proliferava lixo; os caminhos estão tratados geometricamente e o verde sobressai. Nota-se uma faceta pedagógica até hoje esquecida: quase todas as árvores estão identificadas, o que transforma o espaço num jardim a visitar para os estudos de botânica. Há muitos anos que lá passeio. Nunca, no entanto, havia notado a variedade das espécies existente no parque. Hoje olhei com atenção redobrada e fiquei maravilhado. As escolas da cidade têm de levar os alunos àquele parque. E mais, acho que ficaria muito bem o seu prolongamento até à área da capela, sem aquele muro a delimitar não se sabe bem o quê. Porque desperdiçámos durante tantos anos um espaço tão agradável como este?

sábado, junho 18

PETRARCA, LISZT E HOROWITZ

Pace non trovo, et non ò da far guerra;
et temo, et spero; et ardo, et son un ghiaccio;
et volo sopra il cielo, et giaccio in terra;
et nulla stringo, et tutto 'l mondo abbraccio.

Tal m'à in pregion, che non m'apre né serra,
né per suo mi riten né scioglie il laccio;
et non m'ancide Amore, et non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d'impaccio.

Veggio senza occhi, et non ò lingua et grido;
et bramo di perir, et cheggio aita;
et ò in odio me stesso, et amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.




CELEIRINHO

Quando pensamos em literacia, na forma de elevar a cultura geral de um povo, tendemos a relevar o livro como a fonte mais ou menos unívoca de tal elevação. Sabemos que não é bem assim, e que a cultura se bebe em variadíssimas fontes. Na fonte do jornalismo escolar, por exemplo. Leio sempre com redobrada atenção os jornais ou as revistas que aqui ou ali se vão publicando, dando notícia do que se vai fazendo nas escolas ou do que vai acontecendo nas localidades, ou trazendo à luz lindos textos - belíssimos poemas! - de alunos verdadeiramente excepcionais. E concluímos que Portugal não é assim tão escuro, que ainda há luz a irradiar por essas escolas fora, sob a batuta de professores dedicados.

Tenho nas mãos o Celeirinho, da Escola EB2,3 de Celeirós, jornal de referência a nível nacional. Leio-o, sinto palpitar nele o coração de todos os jovens desta escola e bato palmas à equipa que o dirige. Belo jornal, parabéns!



ACORDO ORTOGRÁFICO

O novo Acordo Ortográfico para a língua portuguesa entra em vigor, na Universidade do Minho, em 1 de Setembro de 2011. Todos os trabalhos académicos devem ser redigidos segundo as novas normas, razão por que devem os estudantes começar a estudá-las enquanto é tempo, isto é, talvez nas férias. A ideia nem é má: aproveita-se a onda e reveem-se as regras. Força nisso!



segunda-feira, junho 6

GÉNÉRATION DÉSENCHANTÉE



Nager dans les eaux troubles
Des lendemains
Attendre ici la fin
Flotter dans l'air trop lourd
Du presque rien
A qui tendre la main
Si je dois tomber de haut
Que ma chute soit lente
Je n'ai trouvé de repos
Que dans l'indifférence
Pourtant, je voudrais retrouver l'innocence
Mais rien n'a de sens, et rien ne va
Tout est chaos
A côté
Tous mes idéaux: des mots
Abimés...
Je cherche une âme, qui
Pourra m'aider
Je suis
Génération désenchantée,
Désenchantée
Qui pourrait m'empécher
De tout entendre
Quand la raison s'effondre
A quel sein se vouer
Qui peut prétendre
Nous bercer dans son ventre
Si la mort est un mystére
La vie n'a rien de tendre
Si le ciel a un enfer
Le ciel peut bien m'attendre
Dis moi,
Dans ces vents contraires comment s'y prendre
Plus rien n'a de sens, plus rien ne va
Tout est chaos
A côté
Tous mes idéaux: des mots
Abimés...
Je cherche une âme, qui
Pourra m'aider
Je suis
Génération désenchantée,
Désenchantée
Tout est chaos
A côté
Tous mes idéaux: des mots
Abimés...
Je cherche une âme, qui
Pourra m'aider
Je suis
Génération désenchantée,
Désenchantée


Mylène Farmer

domingo, junho 5

SENTADOS NO JARDIM

Olhamos em volta e os olhos são cobertos
Pelas janelas fechadas.
Queremos às vezes tocar a ponta das nuvens
Acariciar as suas formas, leves e eróticas,
Mas a sombra do sol põe-nos em frente
Uma dura fachada de inexplicáveis sentimentos.

Ficamos aqui, sentados no jardim,
À espera do amor.

Ao longe vemos nuvens de olhos negros
Que nos inundam de lágrimas.

Erguemos então,
Orgulhosos e convictos,
Os rostos encharcados.
E o sol começa a abrir-se…

O amor está inscrito em cada suspiro nosso,
E o sol, contrariando a natureza,
Gira eternamente em torno de nós.

José Silva, 05.06.2011

sábado, junho 4

SOUTO DE MOURA


Mercado do Carandá - Braga

Por acaso até dá um certo gozo. Foi Siza Vieira, agora é Souto de Moura...  Não é por nada, mas o prémio Pritzker ( o “Nobel” da arquitectura), que até já foi vencido por Oscar Niemeyer, Frank Gehry ou Jean Nouvel, veio parar a Portugal e… a Braga. Para quem convive com o Estádio Axa ou com este jardim do Carandá, com o Mercado ao fundo – obra de Souto de Moura – não deixa de ser um privilégio. E eu, felizmente, tenho-o. E sinto orgulho destes portugueses que elevam bem alto o nome de Portugal.


sexta-feira, maio 27

SUBREPTÍCIO ou SUB-REPTÍCIO?

A propósito de uma observação feita na aula por uma aluna, como escrever a palavra sub-reptício? Nos termos do Acordo Ortográfico anterior, não havia dúvida. O prefixo sub, quando relacionado com palavra seguinte começada por r, separava-se dela por hífen. O novo Acordo, porém, é omisso relativamente a este fenómeno. Na alínea a) da Base XVI apresenta o exemplo de sub-hepático, e nada mais. Deduz-se, portanto, que palavras como sub-raça, sub-região, sub-regional, sub-reitor, sub-rogação, sub-rotina ou sub-reptício, perderão o hífen. O resultado será esquisito: subraça? Subrotina?

Aguardemos clarificação.



Observação: no Guia para a nova ortografia editado pelo ILTEC, em edição dos ministérios da Educação e da Cultura, diz-se que os elementos de formação (neste caso, sub-) continuam a separar-se com hífen da palavra a que se associam quando terminam com n, m , b ou d e a sua aglutinação provoque uma leitura que não reflita a pronúncia da palavra ou viole uma restrição ortográfica (exemplo: sub-regulamentar). Este considerando do Guia não resulta de informação directa inscrita no Acordo (que é omisso a este respeito), mas é lógico se  bem analisado o facto linguístico em causa. Desta forma, sub-reptício continuará a escrever-se assim: SUB-REPTÍCIO. 






segunda-feira, maio 23

FIM DE SEMANA

Escrevo fim de semana no processador de texto.  Surgem-me uns tracinhos verdes às ondinhas sob a expressão. Experimento fim-de-semana. Parece que está correto, pelo menos não aparece nenhuma indicação. Consulto o Dicionário Houaiss: nenhum verbete, nenhuma menção. Consulto o Dicionário da Academia de Lisboa: lá está, bem registado em verbete, a palavra fim-de-semana, com hífenes bem marcados. Em que ficamos? Em Portugal, parece consagrada com hífen pelo uso. No Brasil não. 

Diz o Acordo, Base XV, 6 : “ … não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso…”. Sirvam pois de exemplo de emprego sem hífen as seguintes locuções:

a) Substantivas: … fim de semana

Confuso? Acho que sim. Vou aguardar por um bom dicionário português, a ver como se propõe. Entretanto, vou respeitar e passarei a escrever fim de semana.

sábado, maio 21

ACHAS?

Ficámos na dúvida. Não se tratava do verbo achar, aí ninguém se engana, é com ch e pronto. Mas alguém se lembrou de deitar achas para a fogueira da discussão e já sabemos como é: a dúvida é mais matreira que a raposa e não dá tréguas às mentes desvairadas. Acha é com ch ou com x? Torceu-se o nariz, mas a estatística ganhou: é acha mesmo. Tal como o chichi. E o chi-coração. Sempre com ch. E para recordar, cá fica o registo.
LES CARESSES DES YEUX

Les caresses des yeux sont les plus adorables ;
Elles apportent l'âme aux limites de l'être,
Et livrent des secrets autrement ineffables,
Dans lesquels seul le fond du coeur peut apparaître.

Les baisers les plus purs sont grossiers auprès d'elles ;
Leur langage est plus fort que toutes les paroles ;
Rien n'exprime que lui les choses immortelles
Qui passent par instants dans nos êtres frivoles.

Lorsque l'âge a vieilli la bouche et le sourire
Dont le pli lentement s'est comblé de tristesses,
Elles gardent encor leur limpide tendresse ;

Faites pour consoler, enivrer et séduire,
Elles ont les douceurs, les ardeurs et les charmes !
Et quelle autre caresse a traversé des larmes ? 

Auguste Angellier (1848-1911)

sexta-feira, maio 20

DECLARAÇÃO DE AMOR

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter subtilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E esse desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo (1984)

terça-feira, maio 17

A DOR É VÃ E O VINHO É BREVE

Leio os jornais, vejo televisão, ouço a rádio, viajo na internet. Portugal, rimando com festival e carnaval, é todo um longo cirro negro. Apetece aniquilar os sentidos, mas eis que ouço Marisa e a guitarra pungente de Paredes. Limpo os olhos no verde de Caeiro e na magia de Carlos de Oliveira, aprendiz de feiticeiro imortal: a vida é o bago de uva macerado nos lagares do mundo e aqui se diz para proveito dos que vivem que a dor é vã e o vinho é breve.

domingo, maio 15

DOS PALABRAS

Esta noche al oído me has dicho dos palabras
Comunes. Dos palabras cansadas
De ser dichas. Palabras
Que de viejas son nuevas.

Dos palabras tan dulces que la luna que andaba
Filtrando entre las ramas
Se detuvo en mi boca. Tan dulces dos palabras
Que una hormiga pasea por mi cuello y no intento
Moverme para echarla.

Tan dulces dos palabras
?Que digo sin quererlo? ¡oh, qué bella, la vida!?
Tan dulces y tan mansas
Que aceites olorosos sobre el cuerpo derraman.

Tan dulces y tan bellas
Que nerviosos, mis dedos,
Se mueven hacia el cielo imitando tijeras.
Oh, mis dedos quisieran
Cortar estrellas.

Alfonsina Storni (Argentina, 1892-1938)

quarta-feira, maio 11

J'AI DIT À MON COEUR

J'ai dit à mon coeur, à mon faible coeur :
N'est-ce point assez d'aimer sa maîtresse ?
Et ne vois-tu pas que changer sans cesse,
C'est perdre en désirs le temps du bonheur ?

Il m'a répondu : Ce n'est point assez,
Ce n'est point assez d'aimer sa maîtresse ;
Et ne vois-tu pas que changer sans cesse
Nous rend doux et chers les plaisirs passés ?

J'ai dit à mon coeur, à mon faible coeur :
N'est-ce point assez de tant de tristesse ?
Et ne vois-tu pas que changer sans cesse,
C'est à chaque pas trouver la douleur ?

Il m'a répondu : Ce n'est point assez
Ce n'est point assez de tant de tristesse ;
Et ne vois-tu pas que changer sans cesse
Nous rend doux et chers les chagrins passés ?


Alfred de Musset
(1810-1857)

quinta-feira, maio 5

A REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE

A – A proposição pode dizer algo (pode ser um “quadro”) porque tem uma estrutura comum com o que representa.

B – O elemento comum chama-se forma de representação. Esta pode ser diversa: forma da cor, forma do espaço, etc.

C – Não obstante serem variadas as formas de representação, uma proposição (“um quadro”) deve possuir a forma lógica que é a forma da realidade em geral (2.18).

D – Logo, a proposição ( o “quadro”) é também um quadro lógico (2.182).

E – Todo o dizer exige esta forma de representação, esta estrutura lógica.

F – O objecto pode ser mostrado pela linguagem, i.e., a linguagem pode evidenciar o objecto.

G – O objecto pode ser representado, dito, i.e., a linguagem, através dos sinais, pode formar uma imagem do objecto.

H – Logo, “ o quadro não pode representar a sua própria forma de representação, ele apenas o mostra” (2.172)

I – Isto porque: a) se a implica como condição do seu valor representativo, b) não pode fazer dela, ao mesmo tempo, o seu objecto.

*Sobre o Tractatus, de L. Wittgenstein
ORDEM MARAVILHOSA DE ALGUMAS 
DAS PAIXÕES DA ALMA

A primeira paixão é o amor e desejo da coisa boa; e o seu contrário é o ódio e aborrecimento da coisa má. Depois do amor e do desejo segue-se a esperança, que é acerca da coisa boa futura ou afastada; e o seu contrário é o temor, que é sobre a coisa má por vir ou apartada. E quando com o amor e desejo se junta a esperança, sucede o seguir-se a coisa boa amada, assim como quando com o ódio e o aborrecimento se junta o temor, sucede o fugir da coisa aborrecida. O fim é o gozo e deleite da coisa boa presente e conjunta; e o seu contrário é a dor e a tristeza da coisa má presente e conjunta. Esta paixão, que é a última a alcançar-se, convém saber, o gozo e o deleite da coisa boa, é a primeira intenção. Na verdade, ama-se e deseja-se para alcançar gozo e deleite, espera-se, depois, e segue-se, e, por tudo isto, aquieta-se e repousa o ânimo nesta operação. E, depois de ter uma coisa, ama-se pelo presente, mas deseja-se pelo futuro.

De maneira que, ao filosofar rectamente, de qualquer arte que se use, o amor e o desejo são uma mesma coisa essencialmente, embora na maneira de falar alguma espécie de amor se chame mais propriamente desejo, e outra se denomine mais propriamente amor.

Leão Hebreu, Diálogos de Amor

sábado, abril 30

OS ÓCULOS

Ali em frente está um quadro. Não um quadro entendido como figura de uma realidade, mas um quadro que é realidade: negro, cheio de teias de aranha em tons de branco, e pujante de palavras. À esquerda leio a palavra amor, escrita em maiúscula, porque este sentimento é maiúsculo, dizem, o que é duvidoso em noites de trovoada; no centro, encoberta pelos cabelos dela, a palavra desejo, em caracteres pequeninos, como se o desejo fosse do tamanho de uma avelã; e à direita, empinada no seu pê inicial, a palavra paixão. Ainda não percebi muito bem por que razão estes supinos vocábulos terminam todos em ão, a não ser por reminiscências caninas. Digamos então que o quadro é negro e tem por ali um léxico a significar. Em frente do quadro, outro quadro, uma figura e o seu contexto, ela. Ela e o seu sentido naquela figuração. Analiso-a com uma lupa especial: cabelos castanhos compridos às ondinhas, uma blusa parece que de seda, roxa e desmaiada, calças de ganga à jardineiro e, bem pendurado no pescoço, um colar minúsculo com uma cruz. Ao cimo, bem fixados na testa, os óculos. Nos quadros, reais, escritos ou pintados, há sempre algo que se releva. Neste, por simples acaso ou porque as hastes são de metal brilhante, acenam pressurosos os óculos, como se quisessem dizer ei, estou aqui, também sou gente… Miro bem e vejo: por detrás deles, arrebitam uns olhos castanhos de encantar. E fico indeciso: o que realçar, o fundo ou a forma, a lupa, os olhos ou os óculos? A figura ou a coisa figurada? E, de repente, dou comigo a pensar nestas três palavras, na sua relação significativa, e na pessoa bela que tenho na minha frente. Eu, que tenho olhos, logo óculos, precisarei de óculos para vê-la melhor? Ou, de óculos assim duplicados, precisarei de lupa, logo três óculos, para sentir a beleza indescritível do seu largo sorriso? Concentro-me. Imaginativamente aproximo-me da menina dos seus olhos, pequenina como a estrela polar no profundo firmamento, e confirmo: os seus óculos são um filtro, o quarto filtro da minha longuíssima visão, e o real que procuro é pequenino no largo espectro de toda a figuração. Não sabia, nunca tinha pensado nisto, que às vezes filtramos o real através de lentes multiplicadas. E que o real, aquela menina dos olhos ou aquela menina dos óculos, têm características escondidas ou moldáveis, algumas bem moldáveis pelos olhos do próprio pensamento.

sexta-feira, abril 29

CRÓNICA DA MESA QUADRADA

Eu disse-lhes: qualquer coisa é motivo para escrever um texto interessante, e apontei a mesa. A mesa estava ali, quase quadrada, cinzenta e triste, em contraste com os trejeitos alegres da sala. Tínhamos falado em sinestesias complexas, em aromas subtis, em densidades invisíveis, e tudo relacionado com as palavras, com o fascínio das palavras. E prometi-lhes a crónica. Esta, que estou escrevendo. Porque uma crónica só precisa de um clique, e o clique é a mesa. Podia ser a Josefa, os seus olhos de sereia do mar, ou o seu dedo apontado ao infinito do meu nariz. Mas não é. Também podia ser a Marta, a ufana, sempre à tona das ironias com que matraca os colegas do lado. Ou a tensão inexplicável do Luís, carica central de malmequer aos tombos, de olhos azedos em direcção ao além das janelas. Mas não. O clique é a mesa. Quadrada, cinzenta, mas cheia do que eu lhe quiser pôr. E apetece-me imaginá-la (sim, porque eu posso imaginá-la para além do real que é) cheia de odores cruzados com cores indecifráveis, ou sob tilintar de campainhas que lá ponho em dias frescos de Páscoa. E pressinto o repasto: alunos sôfregos de filosofias correndo para a mesa em busca da amêndoa bem cheirosa, do pastel de bacalhau quentinho às dez horas da noite e do verde fresco em taças de maduro. Também posso imaginá-la, sobranceira, ao lado da estante guarnecida: ao meio um portátil a abarrotar de megas, um labirinto de fios parecidos com os de baba e um livro aberto na página vinte, exactamente a página que fala da traição da Sandra. Tinha de ser: a mesa, a traição e o amor. Porque o amor é cor, é doce, é aroma omnipresente, mesmo quando se odeia ou despreza. A propósito: quem disse que o ódio é o contrário do amor? Eu, sentado no bordo da mesa quadrada, digo que não, e a Rita confirma: o autor xis disse que é o desprezo, e eu vou na onda calma com ela. Realmente, o desprezo é coisa de se lhe tirar o chapéu. E tu, já foste desprezada? Eu? E alongou aquele eu até à saída da sala. Eu não! O primeiro que me desprezasse levava um biqueiro nas santas cruzes que até via as estrelinhas na sopa… Sorri, sorrimos todos daquela imagem tão sugestiva, e até o Valentim deu uma sonora gargalhada. Portanto, a mesa. Olho-a com olhos piscos, volto-me para a sala, vejo aqueles semblantes doces, inquisitivos como os espinhos dos cactos, e prometo: a crónica está escrita. Não sei se já está, acho que sim, mas se não a terminar agora penduro-a na maçaneta do meu quarto. E acabo-a logo. Pelo sim, pelo não, levo a mesa comigo, não vá esquecer-me de algum adjectivo que se lhe aplique. Porque o real e as suas qualidades andam sempre de mãos dadas, e a mesa é linda como o cinzento do céu, só lhe falta a flor ao centro, aquela Margarida loira que me sorri lá do fundo em tons de gata malhada.

terça-feira, abril 26

CRÓNICA ACTUALÍSSIMA


Há muitos anos a política em Portugal apresenta este singular estado:

Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente, possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder… O poder não sai duns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, numa explosão de risadas.

Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião e os dizeres de todos os outros que lá não estão, - os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do país, e outras injúrias pequenas, mais particularmente dirigidas aos seus carácteres e às suas famílias.

Os outros, os que não estão no poder são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais – os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, os interesses do país e a pátria.

Mas, cousa notável!

Os cinco que estão no poder, fazem tudo o que podem – intrigam, trabalham, para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do país, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se, conspiram, cansam-se para deixar de ser – o mais depressa que puderem – os verdadeiros liberais e os interesses do país!

Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros – os verdadeiros liberais – entram triunfalmente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do país, e os que caíram do poder, resignam-se cheios de fel e de amargura – a vir ser os verdadeiros liberais e os interesses do país!"

Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, As Farpas

quarta-feira, abril 13

A CIÊNCIA...

Pego na gramática. Refere-se a uma arte, a de bem falar e bem escrever. Penso em normas e em desvios, e, sem querer, mergulho num lago de correcções e incorrecções. E penso também no povo, no que domina a gramática sem sequer pensar nela. Lembro então o tempo do que era simples, da realidade e da representação psicológica dela. Agora não, é tudo mais profundo. Com esta mania de sistematizar o mundo, o homem usa a ciência para se provar a si próprio: o que era prescritivo pretende ser agora explicativo, e a gramática que era arte passou a ser órgão. Órgão biológico. A ciência, meu Deus, a ciência…