terça-feira, julho 26

NÓS NÃO SOMOS...

Nós não somos a Grécia – disse o ministro irlandês.
Nós não somos a Irlanda – disse o ministro português.
Nós não somos Portugal – disse o ministro espanhol.
Nós não somos a Espanha – disse o ministro italiano.
Nós não somos Portugal – disse Obama.

Eureka: existe um “verbo” NÃO SER! Será conjugável em todas as línguas?


quinta-feira, julho 7

JURAM AS ÁGUAS

E juram que absorto
Estava ali sentado
Entre nimbos e ramos
E todos os silêncios.

Juram as águas que chorando o viram.

José Silva, 07.07.2011


sábado, julho 2

DEVO À PAISAGEM

Devo à paisagem as poucas alegrias que tive no mundo. Os homens só me deram tristezas. Ou eu nunca os entendi, ou eles nunca me entenderam. Até os mais próximos, os mais amigos, me cravaram na hora própria um espinho envenenado no coração. A terra, com os seus vestidos e as suas pregas, essa foi sempre generosa. É claro que nunca um panorama me interessou como gargarejo. É mesmo um favor que peço ao destino: que me poupe à degradação das habituais paneladas de prosa, a descrever de cor caminhos e florestas. As dobras, e as cores do chão onde firmo os pés, foram sempre no meu espírito coisas sagradas e íntimas como o amor. Falar duma encosta coberta de neve sem ter a alma branca também, retratar uma folha sem tremer como ela, olhar um abismo sem fundura nos olhos, é para mim o mesmo que gostar sem língua, ou cantar sem voz. Vivo a natureza integrado nela. De tal modo, que chego a sentir-me, em certas ocasiões, pedra, orvalho, flor ou nevoeiro. Nenhum outro espectáculo me dá semelhante plenitude e cria no meu espírito um sentido tão acabado do perfeito e do eterno. Bem sei que há gente que encontra o mesmo universo no jogo dum músculo ou na linha dum perfil. Lá está o exemplo de Miguel Angelo a demonstrá-lo. Mas eu, não. Eu declaro aqui a estas fundas e agrestes rugas de Portugal que nunca vi nada mais puro, mais gracioso, mais belo, do que um tufo de relva que fui encontrar um dia no alto das penedias da Calcedónia, no Gerez. Roma, Paris, Florença, Beethoven, Cervantes, Shakespeare... Palavra, que não troco por tudo isso o rasgão mais humilde da tua estamenha, Mãe!

Miguel Torga, in "Diário (1942)"


sexta-feira, julho 1

PORTUGAL, PARA ONDE VAIS?

Não tenho por costume fazer análise política, para isso há os politólogos, mas sou um cidadão português que sente na pele tudo o que acontece no nosso martirizado país. O nosso primeiro-ministro já veio dizer que o equivalente a 50% do subsídio de Natal é necessário para prevenir derrapagens relativamente ao défice previsto. O povo português ouve, já nem reage, tão usuais são estas decisões, e espera, como sempre, que sejam as últimas, e que fique salvaguardado o futuro dos nossos filhos. Olho para a Grécia, um dos berços da nossa civilização, e concluo que algo está errado no meio de tudo isto. E fico triste, andamos todos tristes, meio impotentes para remar contra esta maré absolutamente avassaladora. Mas a verdade é que temos de ser nós reagir. Como? Trabalhando, como sempre, acreditando que é possível vencer, mais uma vez, o grande Adamastor. Se o vencemos no passado, não tenho dúvida de que voltaremos a vencê-lo. O pormenor está no “quando”.

terça-feira, junho 28

MEN IMPROVE WITH THE YEARS


I am worn out with dreams;
A weather-worn, marble triton
Among the streams;
And all day long I look
Upon this lady's beauty
As though I had found in a book
A pictured beauty,
Pleased to have filled the eyes
Or the discerning ears,
Delighted to be but wise,
For men improve with the years;
And yet, and yet,
Is this my dream, or the truth?
O would that we had met
When I had my burning youth!
But I grow old among dreams,
A weather-worn, marble triton
Among the streams.

W. B. Yeats (1865-1939)

quinta-feira, junho 23

FACEBOOK EM QUEDA?

Lê-se que a rede social Facebook, pela primeira vez, perdeu utilizadores nos EUA. No último mês, seis milhões abandonaram-na, factor que sinaliza uma mudança na forma como se concretiza o relacionamento entre as pessoas. Comenta-se o facto de ser na prática impossível apagar as informações uma vez disponibilizadas, e começa a temer-se a mão do Big Brother, ou de ditaduras sub-reptícias que conhecem toda a nossa vida. São os nossos gestos comandados sem disso nos darmos conta? A tipologia comportamental mudou radicalmente e devemos estar preparados para as consequências. Precisamos de uma nova educação. Estaremos preparados para ela?

quarta-feira, junho 22

E VIVA O S. JOÃO!


Foto José Silva

Este ano, o S. João está com um colorido especial...

segunda-feira, junho 20

PARQUE DA PONTE


Foto José Silva

Acabo de chegar do Parque da Ponte. É tempo de S. João, as ruas já estão bem movimentadas e floridas, apetece sentar debaixo de árvores frondosas, junto ao lago a que somente falta o canto do cisne. Gosto do que fizeram lá. Vê-se limpeza onde ainda há pouco proliferava lixo; os caminhos estão tratados geometricamente e o verde sobressai. Nota-se uma faceta pedagógica até hoje esquecida: quase todas as árvores estão identificadas, o que transforma o espaço num jardim a visitar para os estudos de botânica. Há muitos anos que lá passeio. Nunca, no entanto, havia notado a variedade das espécies existente no parque. Hoje olhei com atenção redobrada e fiquei maravilhado. As escolas da cidade têm de levar os alunos àquele parque. E mais, acho que ficaria muito bem o seu prolongamento até à área da capela, sem aquele muro a delimitar não se sabe bem o quê. Porque desperdiçámos durante tantos anos um espaço tão agradável como este?

sábado, junho 18

PETRARCA, LISZT E HOROWITZ

Pace non trovo, et non ò da far guerra;
et temo, et spero; et ardo, et son un ghiaccio;
et volo sopra il cielo, et giaccio in terra;
et nulla stringo, et tutto 'l mondo abbraccio.

Tal m'à in pregion, che non m'apre né serra,
né per suo mi riten né scioglie il laccio;
et non m'ancide Amore, et non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d'impaccio.

Veggio senza occhi, et non ò lingua et grido;
et bramo di perir, et cheggio aita;
et ò in odio me stesso, et amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.




CELEIRINHO

Quando pensamos em literacia, na forma de elevar a cultura geral de um povo, tendemos a relevar o livro como a fonte mais ou menos unívoca de tal elevação. Sabemos que não é bem assim, e que a cultura se bebe em variadíssimas fontes. Na fonte do jornalismo escolar, por exemplo. Leio sempre com redobrada atenção os jornais ou as revistas que aqui ou ali se vão publicando, dando notícia do que se vai fazendo nas escolas ou do que vai acontecendo nas localidades, ou trazendo à luz lindos textos - belíssimos poemas! - de alunos verdadeiramente excepcionais. E concluímos que Portugal não é assim tão escuro, que ainda há luz a irradiar por essas escolas fora, sob a batuta de professores dedicados.

Tenho nas mãos o Celeirinho, da Escola EB2,3 de Celeirós, jornal de referência a nível nacional. Leio-o, sinto palpitar nele o coração de todos os jovens desta escola e bato palmas à equipa que o dirige. Belo jornal, parabéns!



ACORDO ORTOGRÁFICO

O novo Acordo Ortográfico para a língua portuguesa entra em vigor, na Universidade do Minho, em 1 de Setembro de 2011. Todos os trabalhos académicos devem ser redigidos segundo as novas normas, razão por que devem os estudantes começar a estudá-las enquanto é tempo, isto é, talvez nas férias. A ideia nem é má: aproveita-se a onda e reveem-se as regras. Força nisso!



segunda-feira, junho 6

GÉNÉRATION DÉSENCHANTÉE



Nager dans les eaux troubles
Des lendemains
Attendre ici la fin
Flotter dans l'air trop lourd
Du presque rien
A qui tendre la main
Si je dois tomber de haut
Que ma chute soit lente
Je n'ai trouvé de repos
Que dans l'indifférence
Pourtant, je voudrais retrouver l'innocence
Mais rien n'a de sens, et rien ne va
Tout est chaos
A côté
Tous mes idéaux: des mots
Abimés...
Je cherche une âme, qui
Pourra m'aider
Je suis
Génération désenchantée,
Désenchantée
Qui pourrait m'empécher
De tout entendre
Quand la raison s'effondre
A quel sein se vouer
Qui peut prétendre
Nous bercer dans son ventre
Si la mort est un mystére
La vie n'a rien de tendre
Si le ciel a un enfer
Le ciel peut bien m'attendre
Dis moi,
Dans ces vents contraires comment s'y prendre
Plus rien n'a de sens, plus rien ne va
Tout est chaos
A côté
Tous mes idéaux: des mots
Abimés...
Je cherche une âme, qui
Pourra m'aider
Je suis
Génération désenchantée,
Désenchantée
Tout est chaos
A côté
Tous mes idéaux: des mots
Abimés...
Je cherche une âme, qui
Pourra m'aider
Je suis
Génération désenchantée,
Désenchantée


Mylène Farmer

domingo, junho 5

SENTADOS NO JARDIM

Olhamos em volta e os olhos são cobertos
Pelas janelas fechadas.
Queremos às vezes tocar a ponta das nuvens
Acariciar as suas formas, leves e eróticas,
Mas a sombra do sol põe-nos em frente
Uma dura fachada de inexplicáveis sentimentos.

Ficamos aqui, sentados no jardim,
À espera do amor.

Ao longe vemos nuvens de olhos negros
Que nos inundam de lágrimas.

Erguemos então,
Orgulhosos e convictos,
Os rostos encharcados.
E o sol começa a abrir-se…

O amor está inscrito em cada suspiro nosso,
E o sol, contrariando a natureza,
Gira eternamente em torno de nós.

José Silva, 05.06.2011

sábado, junho 4

SOUTO DE MOURA


Mercado do Carandá - Braga

Por acaso até dá um certo gozo. Foi Siza Vieira, agora é Souto de Moura...  Não é por nada, mas o prémio Pritzker ( o “Nobel” da arquitectura), que até já foi vencido por Oscar Niemeyer, Frank Gehry ou Jean Nouvel, veio parar a Portugal e… a Braga. Para quem convive com o Estádio Axa ou com este jardim do Carandá, com o Mercado ao fundo – obra de Souto de Moura – não deixa de ser um privilégio. E eu, felizmente, tenho-o. E sinto orgulho destes portugueses que elevam bem alto o nome de Portugal.


sexta-feira, maio 27

SUBREPTÍCIO ou SUB-REPTÍCIO?

A propósito de uma observação feita na aula por uma aluna, como escrever a palavra sub-reptício? Nos termos do Acordo Ortográfico anterior, não havia dúvida. O prefixo sub, quando relacionado com palavra seguinte começada por r, separava-se dela por hífen. O novo Acordo, porém, é omisso relativamente a este fenómeno. Na alínea a) da Base XVI apresenta o exemplo de sub-hepático, e nada mais. Deduz-se, portanto, que palavras como sub-raça, sub-região, sub-regional, sub-reitor, sub-rogação, sub-rotina ou sub-reptício, perderão o hífen. O resultado será esquisito: subraça? Subrotina?

Aguardemos clarificação.



Observação: no Guia para a nova ortografia editado pelo ILTEC, em edição dos ministérios da Educação e da Cultura, diz-se que os elementos de formação (neste caso, sub-) continuam a separar-se com hífen da palavra a que se associam quando terminam com n, m , b ou d e a sua aglutinação provoque uma leitura que não reflita a pronúncia da palavra ou viole uma restrição ortográfica (exemplo: sub-regulamentar). Este considerando do Guia não resulta de informação directa inscrita no Acordo (que é omisso a este respeito), mas é lógico se  bem analisado o facto linguístico em causa. Desta forma, sub-reptício continuará a escrever-se assim: SUB-REPTÍCIO. 






segunda-feira, maio 23

FIM DE SEMANA

Escrevo fim de semana no processador de texto.  Surgem-me uns tracinhos verdes às ondinhas sob a expressão. Experimento fim-de-semana. Parece que está correto, pelo menos não aparece nenhuma indicação. Consulto o Dicionário Houaiss: nenhum verbete, nenhuma menção. Consulto o Dicionário da Academia de Lisboa: lá está, bem registado em verbete, a palavra fim-de-semana, com hífenes bem marcados. Em que ficamos? Em Portugal, parece consagrada com hífen pelo uso. No Brasil não. 

Diz o Acordo, Base XV, 6 : “ … não se emprega em geral o hífen, salvo algumas exceções já consagradas pelo uso…”. Sirvam pois de exemplo de emprego sem hífen as seguintes locuções:

a) Substantivas: … fim de semana

Confuso? Acho que sim. Vou aguardar por um bom dicionário português, a ver como se propõe. Entretanto, vou respeitar e passarei a escrever fim de semana.

sábado, maio 21

ACHAS?

Ficámos na dúvida. Não se tratava do verbo achar, aí ninguém se engana, é com ch e pronto. Mas alguém se lembrou de deitar achas para a fogueira da discussão e já sabemos como é: a dúvida é mais matreira que a raposa e não dá tréguas às mentes desvairadas. Acha é com ch ou com x? Torceu-se o nariz, mas a estatística ganhou: é acha mesmo. Tal como o chichi. E o chi-coração. Sempre com ch. E para recordar, cá fica o registo.
LES CARESSES DES YEUX

Les caresses des yeux sont les plus adorables ;
Elles apportent l'âme aux limites de l'être,
Et livrent des secrets autrement ineffables,
Dans lesquels seul le fond du coeur peut apparaître.

Les baisers les plus purs sont grossiers auprès d'elles ;
Leur langage est plus fort que toutes les paroles ;
Rien n'exprime que lui les choses immortelles
Qui passent par instants dans nos êtres frivoles.

Lorsque l'âge a vieilli la bouche et le sourire
Dont le pli lentement s'est comblé de tristesses,
Elles gardent encor leur limpide tendresse ;

Faites pour consoler, enivrer et séduire,
Elles ont les douceurs, les ardeurs et les charmes !
Et quelle autre caresse a traversé des larmes ? 

Auguste Angellier (1848-1911)

sexta-feira, maio 20

DECLARAÇÃO DE AMOR

Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter subtilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.

Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Às vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.

Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E esse desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.

Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.

Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.

Clarice Lispector, A Descoberta do Mundo (1984)

terça-feira, maio 17

A DOR É VÃ E O VINHO É BREVE

Leio os jornais, vejo televisão, ouço a rádio, viajo na internet. Portugal, rimando com festival e carnaval, é todo um longo cirro negro. Apetece aniquilar os sentidos, mas eis que ouço Marisa e a guitarra pungente de Paredes. Limpo os olhos no verde de Caeiro e na magia de Carlos de Oliveira, aprendiz de feiticeiro imortal: a vida é o bago de uva macerado nos lagares do mundo e aqui se diz para proveito dos que vivem que a dor é vã e o vinho é breve.

domingo, maio 15

DOS PALABRAS

Esta noche al oído me has dicho dos palabras
Comunes. Dos palabras cansadas
De ser dichas. Palabras
Que de viejas son nuevas.

Dos palabras tan dulces que la luna que andaba
Filtrando entre las ramas
Se detuvo en mi boca. Tan dulces dos palabras
Que una hormiga pasea por mi cuello y no intento
Moverme para echarla.

Tan dulces dos palabras
?Que digo sin quererlo? ¡oh, qué bella, la vida!?
Tan dulces y tan mansas
Que aceites olorosos sobre el cuerpo derraman.

Tan dulces y tan bellas
Que nerviosos, mis dedos,
Se mueven hacia el cielo imitando tijeras.
Oh, mis dedos quisieran
Cortar estrellas.

Alfonsina Storni (Argentina, 1892-1938)

quarta-feira, maio 11

J'AI DIT À MON COEUR

J'ai dit à mon coeur, à mon faible coeur :
N'est-ce point assez d'aimer sa maîtresse ?
Et ne vois-tu pas que changer sans cesse,
C'est perdre en désirs le temps du bonheur ?

Il m'a répondu : Ce n'est point assez,
Ce n'est point assez d'aimer sa maîtresse ;
Et ne vois-tu pas que changer sans cesse
Nous rend doux et chers les plaisirs passés ?

J'ai dit à mon coeur, à mon faible coeur :
N'est-ce point assez de tant de tristesse ?
Et ne vois-tu pas que changer sans cesse,
C'est à chaque pas trouver la douleur ?

Il m'a répondu : Ce n'est point assez
Ce n'est point assez de tant de tristesse ;
Et ne vois-tu pas que changer sans cesse
Nous rend doux et chers les chagrins passés ?


Alfred de Musset
(1810-1857)

quinta-feira, maio 5

A REPRESENTAÇÃO DA REALIDADE

A – A proposição pode dizer algo (pode ser um “quadro”) porque tem uma estrutura comum com o que representa.

B – O elemento comum chama-se forma de representação. Esta pode ser diversa: forma da cor, forma do espaço, etc.

C – Não obstante serem variadas as formas de representação, uma proposição (“um quadro”) deve possuir a forma lógica que é a forma da realidade em geral (2.18).

D – Logo, a proposição ( o “quadro”) é também um quadro lógico (2.182).

E – Todo o dizer exige esta forma de representação, esta estrutura lógica.

F – O objecto pode ser mostrado pela linguagem, i.e., a linguagem pode evidenciar o objecto.

G – O objecto pode ser representado, dito, i.e., a linguagem, através dos sinais, pode formar uma imagem do objecto.

H – Logo, “ o quadro não pode representar a sua própria forma de representação, ele apenas o mostra” (2.172)

I – Isto porque: a) se a implica como condição do seu valor representativo, b) não pode fazer dela, ao mesmo tempo, o seu objecto.

*Sobre o Tractatus, de L. Wittgenstein
ORDEM MARAVILHOSA DE ALGUMAS 
DAS PAIXÕES DA ALMA

A primeira paixão é o amor e desejo da coisa boa; e o seu contrário é o ódio e aborrecimento da coisa má. Depois do amor e do desejo segue-se a esperança, que é acerca da coisa boa futura ou afastada; e o seu contrário é o temor, que é sobre a coisa má por vir ou apartada. E quando com o amor e desejo se junta a esperança, sucede o seguir-se a coisa boa amada, assim como quando com o ódio e o aborrecimento se junta o temor, sucede o fugir da coisa aborrecida. O fim é o gozo e deleite da coisa boa presente e conjunta; e o seu contrário é a dor e a tristeza da coisa má presente e conjunta. Esta paixão, que é a última a alcançar-se, convém saber, o gozo e o deleite da coisa boa, é a primeira intenção. Na verdade, ama-se e deseja-se para alcançar gozo e deleite, espera-se, depois, e segue-se, e, por tudo isto, aquieta-se e repousa o ânimo nesta operação. E, depois de ter uma coisa, ama-se pelo presente, mas deseja-se pelo futuro.

De maneira que, ao filosofar rectamente, de qualquer arte que se use, o amor e o desejo são uma mesma coisa essencialmente, embora na maneira de falar alguma espécie de amor se chame mais propriamente desejo, e outra se denomine mais propriamente amor.

Leão Hebreu, Diálogos de Amor

sábado, abril 30

OS ÓCULOS

Ali em frente está um quadro. Não um quadro entendido como figura de uma realidade, mas um quadro que é realidade: negro, cheio de teias de aranha em tons de branco, e pujante de palavras. À esquerda leio a palavra amor, escrita em maiúscula, porque este sentimento é maiúsculo, dizem, o que é duvidoso em noites de trovoada; no centro, encoberta pelos cabelos dela, a palavra desejo, em caracteres pequeninos, como se o desejo fosse do tamanho de uma avelã; e à direita, empinada no seu pê inicial, a palavra paixão. Ainda não percebi muito bem por que razão estes supinos vocábulos terminam todos em ão, a não ser por reminiscências caninas. Digamos então que o quadro é negro e tem por ali um léxico a significar. Em frente do quadro, outro quadro, uma figura e o seu contexto, ela. Ela e o seu sentido naquela figuração. Analiso-a com uma lupa especial: cabelos castanhos compridos às ondinhas, uma blusa parece que de seda, roxa e desmaiada, calças de ganga à jardineiro e, bem pendurado no pescoço, um colar minúsculo com uma cruz. Ao cimo, bem fixados na testa, os óculos. Nos quadros, reais, escritos ou pintados, há sempre algo que se releva. Neste, por simples acaso ou porque as hastes são de metal brilhante, acenam pressurosos os óculos, como se quisessem dizer ei, estou aqui, também sou gente… Miro bem e vejo: por detrás deles, arrebitam uns olhos castanhos de encantar. E fico indeciso: o que realçar, o fundo ou a forma, a lupa, os olhos ou os óculos? A figura ou a coisa figurada? E, de repente, dou comigo a pensar nestas três palavras, na sua relação significativa, e na pessoa bela que tenho na minha frente. Eu, que tenho olhos, logo óculos, precisarei de óculos para vê-la melhor? Ou, de óculos assim duplicados, precisarei de lupa, logo três óculos, para sentir a beleza indescritível do seu largo sorriso? Concentro-me. Imaginativamente aproximo-me da menina dos seus olhos, pequenina como a estrela polar no profundo firmamento, e confirmo: os seus óculos são um filtro, o quarto filtro da minha longuíssima visão, e o real que procuro é pequenino no largo espectro de toda a figuração. Não sabia, nunca tinha pensado nisto, que às vezes filtramos o real através de lentes multiplicadas. E que o real, aquela menina dos olhos ou aquela menina dos óculos, têm características escondidas ou moldáveis, algumas bem moldáveis pelos olhos do próprio pensamento.

sexta-feira, abril 29

CRÓNICA DA MESA QUADRADA

Eu disse-lhes: qualquer coisa é motivo para escrever um texto interessante, e apontei a mesa. A mesa estava ali, quase quadrada, cinzenta e triste, em contraste com os trejeitos alegres da sala. Tínhamos falado em sinestesias complexas, em aromas subtis, em densidades invisíveis, e tudo relacionado com as palavras, com o fascínio das palavras. E prometi-lhes a crónica. Esta, que estou escrevendo. Porque uma crónica só precisa de um clique, e o clique é a mesa. Podia ser a Josefa, os seus olhos de sereia do mar, ou o seu dedo apontado ao infinito do meu nariz. Mas não é. Também podia ser a Marta, a ufana, sempre à tona das ironias com que matraca os colegas do lado. Ou a tensão inexplicável do Luís, carica central de malmequer aos tombos, de olhos azedos em direcção ao além das janelas. Mas não. O clique é a mesa. Quadrada, cinzenta, mas cheia do que eu lhe quiser pôr. E apetece-me imaginá-la (sim, porque eu posso imaginá-la para além do real que é) cheia de odores cruzados com cores indecifráveis, ou sob tilintar de campainhas que lá ponho em dias frescos de Páscoa. E pressinto o repasto: alunos sôfregos de filosofias correndo para a mesa em busca da amêndoa bem cheirosa, do pastel de bacalhau quentinho às dez horas da noite e do verde fresco em taças de maduro. Também posso imaginá-la, sobranceira, ao lado da estante guarnecida: ao meio um portátil a abarrotar de megas, um labirinto de fios parecidos com os de baba e um livro aberto na página vinte, exactamente a página que fala da traição da Sandra. Tinha de ser: a mesa, a traição e o amor. Porque o amor é cor, é doce, é aroma omnipresente, mesmo quando se odeia ou despreza. A propósito: quem disse que o ódio é o contrário do amor? Eu, sentado no bordo da mesa quadrada, digo que não, e a Rita confirma: o autor xis disse que é o desprezo, e eu vou na onda calma com ela. Realmente, o desprezo é coisa de se lhe tirar o chapéu. E tu, já foste desprezada? Eu? E alongou aquele eu até à saída da sala. Eu não! O primeiro que me desprezasse levava um biqueiro nas santas cruzes que até via as estrelinhas na sopa… Sorri, sorrimos todos daquela imagem tão sugestiva, e até o Valentim deu uma sonora gargalhada. Portanto, a mesa. Olho-a com olhos piscos, volto-me para a sala, vejo aqueles semblantes doces, inquisitivos como os espinhos dos cactos, e prometo: a crónica está escrita. Não sei se já está, acho que sim, mas se não a terminar agora penduro-a na maçaneta do meu quarto. E acabo-a logo. Pelo sim, pelo não, levo a mesa comigo, não vá esquecer-me de algum adjectivo que se lhe aplique. Porque o real e as suas qualidades andam sempre de mãos dadas, e a mesa é linda como o cinzento do céu, só lhe falta a flor ao centro, aquela Margarida loira que me sorri lá do fundo em tons de gata malhada.

terça-feira, abril 26

CRÓNICA ACTUALÍSSIMA


Há muitos anos a política em Portugal apresenta este singular estado:

Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente, possuem o poder, perdem o poder, reconquistam o poder, trocam o poder… O poder não sai duns certos grupos, como uma péla que quatro crianças, aos quatro cantos de uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, numa explosão de risadas.

Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no poder, esses homens são, segundo a opinião e os dizeres de todos os outros que lá não estão, - os corruptos, os esbanjadores da fazenda, a ruína do país, e outras injúrias pequenas, mais particularmente dirigidas aos seus carácteres e às suas famílias.

Os outros, os que não estão no poder são, segundo a sua própria opinião e os seus jornais – os verdadeiros liberais, os salvadores da causa pública, os amigos do povo, os interesses do país e a pátria.

Mas, cousa notável!

Os cinco que estão no poder, fazem tudo o que podem – intrigam, trabalham, para continuar a ser os esbanjadores da fazenda e a ruína do país, durante o maior tempo possível! E os que não estão no poder movem-se, conspiram, cansam-se para deixar de ser – o mais depressa que puderem – os verdadeiros liberais e os interesses do país!

Até que enfim caem os cinco do poder, e os outros – os verdadeiros liberais – entram triunfalmente na designação herdada de esbanjadores da fazenda e ruína do país, e os que caíram do poder, resignam-se cheios de fel e de amargura – a vir ser os verdadeiros liberais e os interesses do país!"

Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão, As Farpas

quarta-feira, abril 13

A CIÊNCIA...

Pego na gramática. Refere-se a uma arte, a de bem falar e bem escrever. Penso em normas e em desvios, e, sem querer, mergulho num lago de correcções e incorrecções. E penso também no povo, no que domina a gramática sem sequer pensar nela. Lembro então o tempo do que era simples, da realidade e da representação psicológica dela. Agora não, é tudo mais profundo. Com esta mania de sistematizar o mundo, o homem usa a ciência para se provar a si próprio: o que era prescritivo pretende ser agora explicativo, e a gramática que era arte passou a ser órgão. Órgão biológico. A ciência, meu Deus, a ciência…

sexta-feira, abril 8

EQUÍVOCO

Lemos as palavras, ouvimo-las, percebemos significante e significado e, de repente, nasce a ambiguidade. E surge o equívoco. Sem contexto, o equívoco paira em cada canto discursivo. Por isso a busca do categórico, da clareza, do inequívoco. Leio o Tractatus de Wittgenstein e compreendo o objectivo. Não creio que o tenha conseguido. Se as línguas fossem inequívocas, códigos absolutos, por onde voariam os poetas?

quarta-feira, abril 6

PEGAMOS NO SOL

Pegamos no sol e na lua e vestimo-los de metáforas.
Da terra, apanhamos com as mãos
Uma gota de vento e um grânulo de chuva.
Vertemos tudo no cadinho que se chama coração.
Dizemos então, convictos da verdade: amo-te.
Mas as metáforas são imagens, não são realidade,
E o cadinho apenas funde o que tem substrato,
Não funde o vento nem raios de sol,
Nem tão-pouco a ideia do amor,
Por muito que ele tenha
(pensamos nós)
Quilates de ouro e prata,
Como a mentira, absolutamente indestrutíveis.

José Silva, 06.04.2010
SORRISO

Gosto de quem sorri. Gosto também de quem ri e muito mais de quem gargalha. Uma boa gargalhada é uma brisa forte em dia de canícula. É sempre agradável ver a distensão dos lábios, os cantos da boca elevados, a alegria que daqui se depreende, desde que não se vislumbre neles ironias ou desdéns, ou desde que a cor do sorriso não desmaie e tenda para o amarelo. Às vezes, não é fácil sorrir. A vida vai-se encarregando de pressionar os lábios, de os enviar para baixo, e o peso da tristeza influi até no tamanho das orelhas. Sorrir de orelha a orelha é, não quantas vezes, um acto impossível. Porque as orelhas estão muito distantes, pousadas nas nuvens cinzentas da tristeza. Por isso comprei uma balança de precisão e um paquímetro. Ultimamente, deu-me para pesar as nuvens e medir a distância entre as orelhas. E vou descobrindo que, por efeitos físicos ou com certeza psicológicos, elas se distanciam cada vez mais, e o sorriso se torna paulatinamente muito mais difícil. O sorriso, aquele de orelha a orelha, o rasgado, o franco, o verdadeiro.

segunda-feira, abril 4

A PRAXE

Olho para a esquerda. Encostada à parede fria, a E. dormita. Na carteira da frente, dois colegas bocejam, de olheiras espetadas e cara ligeiramente enlameada. À direita, três meninas alongam-se nas carteiras, cabeça entre as mãos e sibilos projetados na janela. Abano a cabeça, admiro os olhos e faço menção de acordar: que se passa? Nada, professor, é da praxe. Da praxe? Sim, professor, da praxe, sujaram-nos as caras com lama e não nos deixam dormir. Não dormimos há 36 horas. Como? Não dormem há 36 horas? E vocês aceitam esse jogo, não protestam, não se negam a essa violência? Abanam a cabeça. É a praxe, professor. Muito bem, digo eu. E encolho os ombros. Estamos em Abril e a praxe continua. Que viva e continue agora e para sempre. Amen.

quinta-feira, março 31

JASMIM

O jasmim é uma planta oleácea com flor do mesmo nome, de origem árabe e crivo do francês, flor de cinco pétalas de cores variegadas. Linda planta e linda flor. Gosto dela pela sua beleza e pela sonoridade da palavra, gosto das palavras que terminam em im, como jasmim e alecrim. Servem bem a poesia, o seu ritmo, a sua rima. Às vezes entretenho-me a ver designações e delicio-me com o resultado. Não sabia - mas fiquei a saber! - que há o jasmim-amarelo, o jasmim-azul, o jasmim-laranja, o jasmim-verde e o jasmim-vermelho, tudo nomes ditos aqui e ali por quem gosta de aromas doces. Também não conhecia a referência a lugares relacionados com a flor, de que são exemplo o jasmim-da-baía, o jasmim-da espanha, o jasmim-da-itália, o jasmim-de-veneza, o jasmim-do-paraguai e, pasme-se, até o jasmim-das arábias. Pelo meio, há um jasmim-pipoca ( tragável nas salas de cinema?) e um jasmim-porcelana. Mas o foco da atenção recai, sem dúvida, sobre o jasmim-dos-poetas. Imagino-me debruçado no jardim, começando em bem-me-quer e desfolhando as cinco pétalas. Contem-nas e concluam: ela bem-me-quer... Abençoado jasmim que nos dá uma alegria nas palavras, mesmo quando a vida, sem querermos, nos tropeça.

quarta-feira, março 30

ANAPTIXES

Gosto do falar dela, é toda entoações, sorrisos e arrebiques. Ontem espetou-nos, de som em riste, um longo keeeelaro…. Queria ela dizer: “Claro!”. As palavras são assim, têm significados mas também significantes. Na boca de algumas beldades, até as anaptixes transportam significados. O que significaria aquele som “e” repetido no seio das consoantes? E fiquei a pensar.

terça-feira, março 29

PRÒ LIXO? NÃO! PROLIXO!

E ele escreveu, no seu estilo altaneiro: “ O primeiro-ministro foi muito pró lixo nas suas explicações”. Quer dizer, lido assim, com aquele acento agudo, com a preposição reduzida e subserviente relativamente ao lixo, até se compreendia. Eventualmente, as suas explicações aproximavam-se do “lixo”, exatamente como as notações do país nas asas das agências de rating. Mas não. Nem aquele acento seria assim, pois seria grave, nem ele existe na palavra, simplesmente porque a palavra é prolixo. E aí sim, o tal ministro foi prolixo, excessivo nas palavras, cansativo, enfadonho. Nada de admirar… O que admira, neste país inexistente, é que tenhamos audição. E que ouçamos. Mesmo quando do outro lado não sai nadinha que se preze.

segunda-feira, março 28

DESLUMBRANTE

Há coisas assim, deslumbrantes, encantadoras, fascinantes, ou simplesmente maravilhosas. Adjetivos que usamos sem pudor, como se as coisas ou as pessoas assim o fossem quando pomos os olhos nelas. O problema é que, quase sempre, o excesso de luz ou de brilho ofusca o nosso olhar, embacia-o, deturpa a forma como vemos a realidade. De onde resulta que o que deslumbra obrigatoriamente engana. Quando conduzo, em noites de forte chuva, fico deslumbrado com os máximos na outra margem. Às vezes, sinto náuseas. Outras vezes, uns copos a mais causam algum deslumbramento, imagens a dobrar, círculos quase quadrados, palavras em trovoada. Portanto, caros leitores, cuidado com as loiras. Se elas deslumbram, a culpa é da cor do cabelo, que provoca umas visões ondulatórias difíceis de explicar.

sexta-feira, março 25

SAUDADE

Os olhos
Longe
cegos

A palavra
Geme
Aqui

Amor

José Silva, 25.03.2010

quarta-feira, março 23

RASCA, RASCA E RASCA

Houve um tempo em que alguns portugueses pescavam numa rasca, barquito de pesca que, sob perigos diversos, se atrevia nas enseadas. Eventualmente, pela mesma altura, alguns pescadores colhiam a mariscada, incluindo as suculentas ostras, com uma aparelho (também uma rede) denominado, imagine-se, rasca. Quer dizer, eles iam numa rasca, usavam uma rasca, só falta dizer que, numa faina daquelas, dificilmente iriam rascas, isto é, bêbados. Já se imagina: bêbados não pescariam grande coisa, e nem se pensa em ostras, quanto mais em sereias... É verdade. Como se vê, são já três os significados desta tão simples e atual palavra, a que falta adir uns biscoititos feitos de fatias de pão, as rascas que os pescadores, na sua somítica jornada, lá engoliam para entreter a fome. E vão portanto quatro. Se a faina não sorrisse mal, isto é, se as delicadas ostras e quejandos saltassem para as rascas, a rasca de cada pescador (o quinhão) não seria despicienda, e daria para muitas rascas (biscoitos e bebedeiras) às escondidas da mulher. E somam cinco. E falta a grande enrascada. Porque por artes semânticas nada fáceis de explicar, surgiu de repente uma geração chamada rasca (presume-se que reles, ou muito ordinária), denominação que abomino, porque de rasca a minha jovem gente não tem nada e nela vejo qualidades que nunca dantes vi, apenas completamente desaproveitadas. E se olho e vejo a minha jovem gente bem formada e prontinha a substituir-me, que bem preciso que os anos pesam, caem-me em pranto os desejos quando os vejo, como dizem, muito à rasca. E é o sexto, o significado final, a síntese (semântica?) de uma palavra que anda por aí às cambalhotas. Traduzindo: um pescador rasca (bêbado) comia na rasca (barco) uma rasca (biscoito) enquanto usava uma rasca (rede) para apanhar ostras. Não sei se é uma pessoa rasca (reles), mas sei que, quentinho da silva, não estava nada à rasca (aflito). À rasca, aflitinha de sousa, anda a minha jovem gente. 

Um dia desenrasca-se, não se preocupem. Nem que seja à cabeçada.

terça-feira, março 22

Lembrar é fácil para quem tem memória.

Esquecer é difícil para quem tem coração...

W. Shakespeare

quarta-feira, março 16

VÓS, VOCÊS E O CHEIRO A BAFIO

Trabalhar com estrangeiros, conhecer as suas línguas, permite ao professor de Português como Língua Estrangeira aperceber-se de fenómenos que, sem este contexto, dificilmente fariam parte das suas cogitações. O estudo comparativo das línguas permite descobrir o que as línguas têm de lógico ou ilógico, e, no limite, conduz-nos a viagens na longa diacronia.

No que respeita aos pronomes pessoais com função sintática de sujeito, o português europeu atualiza o seguinte paradigma ( que compara com o paradigma espanhol, francês e inglês):

eu, yo, je, I
tu, tú, tu, you
ele/ela/você, ello/ella/usted, il/elle, he/she/it
nós, nosotros/as, nous, we
vós, vosotros/as, vous, you
eles/elas/vocês, ellos/ellas/ustedes, ils/elles, they

Como se pode ver, o inglês possui o neutro it que não existe nas outras três línguas e reduz a 3ª pessoa do plural à forma they. De resto, é equivalente às outras línguas, com exceção de você/usted. Os paradigmas são logicamente “iguais”: todas têm a 2ª pessoa do singular; todas têm a 2ª pessoa do plural. O plural de tu é vós; o plural de é vosotros/as; o plural de tu é vous; o plural de you é you. Ganham os ingleses, que não complicam as coisas. E os franceses também.

Em determinadas regiões de Espanha ( cujas línguas regionais se diferenciam por vezes do castelhano), há não poucas vezes confusões do tipo de ¿Ustedes vais al cine? Tais confusões acontecem e não perturbam a compreensão das mensagens.

Em português europeu, discute-se acaloradamente o uso de vós e de vocês. Como, de permeio, temos fórmulas como o senhor, o senhor doutor, o senhor doutor professor e outras quejandas enormidades relativas ao tratamento interpessoal, já vemos a confusão que por aí grassa, e a inquietude dos estudantes estrangeiros no momento da aprendizagem. Se o azarado estudante escolhe Lisboa, juram-lhe a pés juntos que o pronome vós ou não existe ou cheira a bafio. Dão-lhe, até, gramáticas pretensamente pedagógicas sem o dito cujo, como se o vós do paradigma pessoal tivesse peçonha ou cheirasse a chulé. Se escolhe o norte, ouve nos cantos da invicta ou no frondoso Bom-Jesus um Estai quietos, meninos!, ou Quereis um geladinho?

Não sei porquê, mas admiro o utente do vós, o conhecedor do fizerdes, o dominador da gramática. Você cheira-me a ligeira deferência, a solução simples para a dificuldade da gramática. Por isso digo quase sempre vós: eu trato-vos por tu, não é verdade, meninos? Quanto ao vocês, talvez vos diga isso quando tiverdes mais idade. Pensando no bafio, prefiro-o ao ar "puro" do bué.

Da Metakritica

quarta-feira, março 9

A PONTUAÇÃO
Há dias, um aluno mais esperto afirmou-o sem receios: o mito da importância da pontuação é quebrado quando lemos autores como Almeida Faria ou José Saramago, nos seus textos sinuosamente ambíguos. Pontuar, dizia-me ele, é um exercício insípido e desnecessário. Eu sorri, claro. Na altura apenas lhe perguntei se achava desnecessários os sinais de trânsito das cidades. Expliquei-lhe que podíamos conduzir perfeitamente sem qualquer sinalização, mas também lhe sugeri o caos. A verdade é que a vírgula ou o pontinho, as reticências ou o sinal de interrogação são signos convencionais, como convencional é o triângulo vermelho na berma da estrada. Quando o vemos, geralmente paramos. Se não paramos, o problema é nosso.
Todos sabemos que entre a fala e a escrita há um mundo significante de permeio. Quando falamos ( e até quando não falamos!) transmitimos mensagens, sentidos, e fazêmo-lo com todos os recursos de que dispomos, desde os gestos aos olhares malandros, passando pelas múltiplas entoações, pelos ritmos, tudo acompanhado por risos ou por lágrimas, com pausas ou sem pausas. Quando falamos dizemos tanto sem falar, usamos o anacoluto, o salto ou a retoma do pensamento, e fazêmo-lo sem nada problematizar. Até os analfabetos falam, e alguns são mesmo doutores a falar, porque nasceram com a língua e não precisam de conhecer convenções para falar bem. Em geral, todos os portugueses falam bem a sua língua, isto é, todos se fazem compreender de acordo com as suas necessidades. É evidente que alguns portugueses precisam de falar muito bem a nossa língua, mas esses têm de reflectir sobre ela, mesmo sobre os aspectos fundamentais da oralidade, sobre o valor da retórica.
O problema surge quando queremos escrever. Como representar na escrita toda a complexidade da fala, as emoções, os contextos, as entoações, as pausas, essas coisas todas que potenciam a intercomunicação? É evidente que nenhuma convenção relativa a sinais de pontuação dará nunca totalmente conta desta complexidade. Mas pode, evidentemente, ajudar à condução das palavras nas frases ou nos textos. O grande dilema consiste em distinguir o que é característico do estilo de um autor daquilo que é a logicidade da própria língua. Quer dizer, a pontuação pode desempenhar ora uma função lógica, ora uma função estilística, e, por vezes, estas duas funções entram em conflito. Se um poeta quer transmitir toda a emoção que lhe assalta o simbólico coração e repete, com acrescentamento de reticências, o célebre sinal de exclamação, na frase Oh meu amor, és a rosa mais cheirosa do meu jardim!!!..., fá-lo porque quer, e ninguém tem nada com isso. Mas o factor lógico é realmente muito importante, e não faria sentido separar por uma vírgula o verbo e o complemento directo na frase A Maria vendeu os seus brincos à Ritinha. Com efeito, se pensarmos um pouco, há verbos cujo quadro de subcategorização, ou de selecção, se preenche obrigatoriamente, isto é, ninguém imagina a Maria a vender, se não vender alguma coisa, a alguém, por X dinheiro. Se quem vende, vende alguma coisa, por que razão hei-de separar o verbo do objecto directo por uma vírgula? Quer dizer, o nosso conhecimento da estrutura léxica, da estrutura sintáctica e, até, dos vários enquadramentos semânticos é visivelmente fundamental para pontuar logicamente bem.
Por isso sorri ao meu aluno e lhe disse que, mais do que conhecer de cor o valor da vírgula ou do pontinho, devia aprofundar o estudo do léxico, da morfologia e da sintaxe do português. E ler os bons autores, os que põem vírgula e os que se riem dela. Ler, acreditem, é a grande solução.
 
Da minha Metakritica, Junho 2006

segunda-feira, março 7

ERRAR É HUMANO

Os meus heróis são aqueles que sobreviveram ao fazer algo errado, que cometeram erros, mas que conseguiram ultrapassá-los e corrigi-los.

Bono

Sou um homem e errei. Não há nada de surpreendente.

Menandro

Errar é humano; perdoar, divino.

Alexander Pope

quinta-feira, fevereiro 17

A FORÇA DO AMOR

quarta-feira, fevereiro 16

ODI ET AMO

Odi et amo: quare id faciam, fortasse requiris.
nescio, sed fieri sentio et excrucior.
Caius Valerius Catullus (84 B.C. ? 54 B.C.)


Odeio e amo. Perguntas-me porquê. Eu não sei, mas sinto e sofro.

Lembro-me de ter lido Catulo nos meus tempos de Latim e de ter reflectido sobre o ódio e o amor em versos de uma beleza extraordinária. O amor, na pena dos poetas e no coração dos homens, é um sentimento exigente, implica uma entrega pessoal completa, absoluta. Quando se ama verdadeiramente, todos os gestos, todas as palavras, todos os discursos são lidos e sentidos sem ambiguidades, com a clareza cristalina do poder do amor. Como dizia Balzac, tudo cai bem a este sentimento, sejam coisas pequeninas, como uma flor, mesmo que dada  emurchecida, seja uma palavra sem grande significado, ridícula ou fora de contexto. Pessoa dizia que as cartas de amor são ridículas, e percebe-se porquê. Mas são cartas de amor.

Um dia, em consequência de um grão de areia, este amor sublimado estremece e galga a linha, aquela linha fina que se junta ao amor e que separa dele o seu reflexo, lá do outro lado: o ódio. Ao ódio, tal como ao amor, também tudo vai caindo bem. No ódio as ambiguidades ganham praça, as vírgulas potenciam sentidos, tudo serve para as exegeses que se movimentam em velocidades vertiginosas nas mentes em turbilhão. Na Ética de Espinoza, o ódio é apresentado como sinónimo de tristeza, de perda, que acompanha a ideia de que a culpa é sempre exterior.

Tenho para mim que quem um dia odeia, é porque ama. Estou com Catulo e ligo os sentimentos de forma irreversível. O ódio é a sublimação do amor?

segunda-feira, fevereiro 7

PRAZERES...

Não sei bem porquê, mas sinto atracção pelos rios. Talvez pelo contraste com a terra, pela frescura e tranquilidade, pelo grasnar dos patos em devaneios ao longe. Por isso, sempre que posso, visito as águas límpidas do Cávado. Ontem, por exemplo, fiz uma grande descoberta: ali pelos lados de Merelim, mais propriamente em S. Paio, há uma via pedestre paralela ao rio, tranquila e verde, com o casario baixo lá ao longe. Andei por lá, peripatético sob o arvoredo, aprofundando ideias sobre a vida e sobre as coisas, ora pressentindo na nevralgia das ondas aquilo que é eterno, imutável e incorruptível, ora isolando-me, à maneira estóica, da tragédia quotidiana da vida, tentando, sábio, fundir-me com a racionalidade simples da singela natureza. Dei por mim, de livro na mão, a achar-me epicurista, ou, talvez melhor, hedonista. Porque se o prazer é o supremo bem da vida humana, a leitura de um livro realizada em paz ao longo de um rio calmo confirmou-o plenamente. Há muito que não me sentia tão simples, tão calmo, tão em paz comigo próprio. Experimentem e passem por lá. Talvez oiçam, como eu, o coaxar sinfónico das rãs...

quinta-feira, dezembro 30

NO RAMO DO LUAR


O caule do sorriso a pétala da dor
Dador que doa o caule sem raiz
E o sol que bate ali e que faz noite
Longe da seiva oca aqui do amor
Que não está pois que não está
Ou se perdeu no nimbo branco do além
Que entardeceu e desmaiou na noite
E mora aqui ali no ramo do luar

José Silva, 30.12.2010

terça-feira, dezembro 28

O TACHO E A TAXA

Fiquei a pensar: a que tacha se referia ela? Falava de sinistralidade, e cá para mim, qualquer coisa ali não batia certo. Porque, de tachas, apenas me recordo aquelas de cabeça redonda, larga e chata, com que fixamos alguns objectos, ou as da sujidade com que se mancha a honra das pessoas. Ah, e já agora, também me lembro da tacha bem arreganhada, o que, foneticamente, levanta um problema bastante delicado: e se dissessem ao nosso primeiro-ministro que anda a arreganhar a taxa em demasia? O que iria ele pensar, hem? Mas o melhor é pormos a coisa no masculino e resolvemos o assunto. No masculino? Mas tacha tem masculino? O Zé disse-me que sim, que é tacho, mas nós sabemos que isso não é possível, que tacha não é feminino de tacho, mas acreditem que ele deu-me tais explicações que ainda hoje tenho as meninges a latejar de tanto aprofundar a questão. Mas pronto, ela queria dizer taxa, aquele tributo arrecadado pelo Estado a título de prestação de determinados serviços, aqueles serviços que dizem que existem, mas não existem, a não ser que, por artes mais que metafísicas, deixemos de esperar mais do que doze horas, a ganir como cães esfomeados, nas filas horríveis de algo parecido com um hospital. Mas, afinal, por que carga de água os nossos políticos passam a vida a esticar a taxa?

quinta-feira, outubro 14

A CULTURA DAS PALAVRAS

O signo linguístico, a palavra, tem significante e significado, qualquer estudante de língua portuguesa sabe estabelecer esta diferença. O significado é aquilo que a palavra, dita ou escrita, quer dizer. O problema das palavras é que, numa parte substancial de casos, têm um significado digamos “básico”, a sua denotação, e outro ou outros significados, as conotações. Quem pedir uma banana e receber uma banana, accionou a denotação. Pode comer o fruto à vontade, ele é rico e nutritivo. Se a banana é o “único fruto do amor”, isso mesmo, aquilo em que está a pensar, então moveu uma conotação. A banana não é já o fruto, mas o órgão sexual masculino. As palavras são assim, agem em contexto, significam em contexto. Sem ele, o contexto, é complicado dar significados às palavras, quando muito vale a denotação. Mas as palavras são maravilhosas, sejam nomes, sejam adjectivos, sejam até advérbios… Sabia que a palavra embora resulta de em boa hora, ou que doravante resulta de de ora avante ( = de agora em diante)? Alguns adjectivos possuem informações culturais que são verdadeira mina de conhecimentos. Quem não sabe o significado de eólico, boreal ou hercúleo? Claro que todos sabem. Eólico é relativo a Eolo que, segundo Homero, era deus dos ventos. Boreal é relativo a Bóreas, titã do vento norte. Hercúleo tem relação com Hércules, aquele latagão. Titânico é relativo ao gigante Titã, irmão mais velho de Saturno. Lésbica deriva de Lesbos, ilha grega, onde Safo (menina) dedicava poemas às meninas. E os afrodisíacos? Esses são filhos de Afrodite, deusa grega do amor. Quanto à Vénus, era romana, linda e muito, muito amorosa. Tão amorosa que transmitia, parece, umas doenças venéreas que são, evidentemente, de evitar. Como se vê, as palavras estruturam frases, e as frases transmitem sentidos. Mas as palavras transportam também em si cultura, e esta só é hermética para quem não a quiser conhecer. A propósito deste adjectivo hermética, aprendamos mais umas coisas. Hermes, latino, é o deus Mercúrio grego. Em arquitectura há pilares herméticos, isto é, encimados por um ícone representativo do deus Hermes. Mas, se a cultura é hermética, a culpa não é do latino, é do egípcio! Pois, que Hermes Trismegisto era africano e criou, no século I, uma doutrina ligada ao gnosticismo e à alquimia. Esta doutrina era hermética, mesmo muito hermética...

De Metakritica,2006

domingo, agosto 8

DIZ-ME

Diz-me: porque devo olhar a lua
Nas noites tão sofridas e tão frias,
Se de manhã, quando o sol se agiganta
Para além das montanhas,
Eu posso sentir as nuvens largas,
Cavalgar as asas rápidas dos pássaros
E ser feliz no azul casto do céu?

José Silva, 08.08.2010

sexta-feira, abril 23

O CÃO, A AVE E NÓS

Estava um dia de cinza e a chuva espreitava das nuvens. Cheirava a terra molhada, aquele cheiro que nos transporta para os campos ressequidos do passado. Quando estacionei o carro, bem junto ao muro da escola, levava na ideia o café quente que sempre tomo às sete da tarde. Era um café, e não um cão. Mas foi ele que se me atravessou nos olhos quando abri a porta, e me assustou ligeiramente. Bolas! O raio do cão ia-me atirando um chilique. Mirando bem, no entanto, e cogitando: porque estará o não culpado animal fixo no lajedo? Aproximei-me ligeiramente a medo e confirmei: cheirava um melro, um melrito pequeno e depenado, que piava de bico bem aberto pensando ser a mãe. Caíra certamente do ninho e o cão preparava-se para não perdoar. Quadro assim merecia adequada fotografia, mas faltava-me a máquina. Fiz menção de enxotar o canídeo, mas ele resmungou. Ameacei-o com um pontapé e ele afastou-se ligeiramente. Aproveitei então para acariciar o pássaro, que abria o bico em piadelas de fome. O cão aproximava-se, mas eu afastava-o. De repente, vejo cair sobre mim uma sombra negra, ameaçadora e gritante, em jeito de ataque suicida. Mas que raio…? Desviei-me a tempo da furiosa bicada. Porque de bicada se trataria, não tivesse eu movido a cabeça para a minha esquerda bem surpresa. Porque o melro, ou a melra, tinha-me visto com o seu filhote ao colo e em plena carícia. Nunca tal me tinha acontecido: sujeito a rosnos e a bicadas, tudo por causa de um ser angélico completamente depenado. Atirei-o para dentro do jardim, para um tufo de relva bem amanhada e verde. E fiquei à espera, um pouco mais longe, para não interferir no trabalho parental. E vi dois melros, o pai e a mãe com certeza, chilreando forte em torno do seu filho. E comovi-me. Porque nunca pensei que as aves cuidassem assim dos seus filhos, se preocupassem com eles, os defendessem com ataques aos agentes invasores. E comparei esta acção com a acção humana, com alguns pais que abandonam os filhos, que não cuidam do seu crescimento nem da sua educação. Serão as aves mais humanas do que nós?

quarta-feira, abril 21

TRADUTTORE TRADITORE

Sempre que posso, leio originais. Desde que fiz a experiência com uns franceses do século XIX (Flaubert, Zola…), fiquei vacinado. Os italianos têm razão, o traduttore tende a ser um traditore, e, no que respeita aos recursos estilísticos característicos de cada autor, é um traidor completo. Não acreditam? Comparem o original de Poe com as traduções de Assis e de Pessoa e digam qualquer coisinha:


EDGAR ALLAN POE - (1809-1849) - THE RAVEN ( O Corvo)

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As some one gently rapping at my chamber door.
‘ ’Tis some visitor,’ I muttered, ‘tapping at my chamber door—
Only this, and nothing more.’

Machado de Assis

Em certo dia, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais".

Fernando Pessoa

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»

quinta-feira, abril 1

MUSEU D. DIOGO DE SOUSA:
OFICINA MONETÁRIA?


Leio no “Diário do Minho” que o Museu D. Diogo de Sousa vai produzir e comercializar réplicas de moedas romanas achadas em Bracara Augusta. Não sei se o objectivo principal é a divulgação ou a comercialização, mas tenho uma opinião sobre a decisão do museu. Na minha qualidade de numismata, coleccionador e estudioso da moeda, verdadeiro interesse têm as moedas originais, com as suas pátinas características, com as marcas de terra ou de ferrugem. Tenho horror às falsificações, às viciações e, como não podia deixar de ser, às cópias ou às réplicas. Nos sítios de leilões, nas feiras de numismática, até em grandes feiras internacionais, a existência de tais artefactos introduziu no coleccionismo algo que não existia até aqui: o medo de comprar moeda não verdadeira. Hoje, para se ser um verdadeiro numismata de moeda antiga, exige-se um grande conhecimento histórico, para além de conhecimentos na área monetária e, principalmente, da metrológica, sob pena de se coleccionar um objecto falso, que de moeda nada terá, evidentemente. Fico, portanto, surpreendido com a decisão do Museu D. Diogo de Sousa. Em primeiro lugar por se transformar numa “oficina monetária”; depois, por alguém pensar que a comercialização de réplicas vai dar ao museu muito dinheiro. Engane-se quem assim pensou. Nenhum numismata minimamente esclarecido gastará um cêntimo num produto que vale zero. É uma má decisão, mas quem corta é porque riscou.

segunda-feira, março 29

MARISA!...

Há da vida coisas belas, momentos únicos que guardo para sempre no meu coração. Curiosamente, tais momentos cinzelaram-se ao som de vozes inolvidáveis, vozes principalmente femininas que me fizeram tremer de emoção. Registei-as e refiro-as. Não dou com certeza novidade nenhuma, pois tais vozes são geniais e universais. A primeira foi Amália. Inesquecível no seu timbre português. Depois, Emma Shapplin e Marisa, vozes do outro mundo que me fizeram e fazem sonhar. Finalmente, Tarja Turunen, lá de longe, com ritmos de pingos de água. Continuo a ouvi-las e embalo-me. Cai chuva lá fora. Ouço “chuva” e rendo-me a Marisa.

domingo, março 28

O HOMEM REVOLTADO

Houve o tempo, o “meu” tempo, de realismos à Eça ou à Cesário, ou de existencialismos à Sartre, à Beauvoir ou à Camus. De Sartre, li com sofreguidão La Nausée, L’être et le Néant e Qu’est-ce que la littérature. Da Simonel li Les Mandarins, livro escrito exactamente no ano do meu nascimento. Por arrasto, fui até Camus. Porque sempre gostei de ler os autores na língua original ( quando domino as línguas, evidentemente), atraquei em L’Étranger, Le Mythe de Sisyphe, La Peste e L’Homme Révolté. Nesta minha fase “existencial”, aprendi que a literatura pode ( deve?) ser um retrato fiel da realidade, e que a sua função pode ( e deve?) ser social, isto é, o livro deve estar ao serviço da multidão. Porém, quanto mais mergulhava nestes livros, de temáticas muito escuras ( náuseas, pestes, revoltas…), mais me apercebia de que a vida é também sol e alegria, brisa azul à margem do mar. E deixei Camus. E os outros. E virei-me durante muito tempo para os poetas. Até hoje. Por acaso, ao mexer numa das estantes da casa, dei de caras com O Homem Revoltado. Abri-o, folheei-o, e, não sei porquê, pensei no ser humano português. Haverá algum português que, de uma ou de outra forma, não se sinta, neste momento, revoltado com a sua circunstância? É fácil hoje ser “poeta” em tempos de perturbação e de agonia? Quem, passando fome, olha com olhos de sol o verde-azul do largo mar? Fechei o livro e não quis relê-lo. Preferi sentar-me com Caeiro e sorrir com a bela Lídia à beira do rio.