quarta-feira, dezembro 31

EL PALACIO DE LA MEDIA NOCHE

Estou a ler esta primeira parte, que se assemelha a um prólogo. Vejamos: “antes de proseguir con mi narración y entrar a detallar los acontecimientos realmente significativos de este relato, que tuvieron lugar dieciséis años más tarde, debo detenerme brevemente para presentar a algunos de sus protagonistas”. Gosto da técnica narrativa, sinto-me atraído pela acção inicial, por Calcutá, vou lê-lo até ao fim.
LAS LUCES DE SEPTIEMBRE

Em nota inicial, o autor dá-se conta de que a novela “tiene más elementos de construcción cinematográficos que literários”, e que está concebida como uma história de mistério e aventura.

Começo a leitura: uma carta a Irene. Depois, o pequeno Dorian “empezó a sospechar que la mitad de la población de París la componían abogados y contables, una clase de ratas que habitaban en la superfície”. Sem a continuação, parece a queda de uma família de Montparnasse. Em estilo cinematográfico. Não vou continuar a ler, talvez um dia.
EL JUEGO DEL ANGEL

Sempre que possível, gosto de ler os escritores estrangeiros na língua original. Desta feita, e porque é possível, leio em espanhol, língua acessível a qualquer português minimamente formado. Não tinha lido nada de Carlos Ruiz Zafrón. Aliás, começo agora a lê-lo, e à minha maneira: leio o primeiro capítulo e invisto no critério do gosto. Se gosto, leio de rajada até ao fim. Se não gosto, adeus até nunca mais.

Começo com El juego del Angel. Ao fim de uns minutos leio que “Don Basílio era un hombre de aspecto feroz y bigotes frondosos que no se andaba con ñoñerías y suscribía la teoría de que un uso liberal de adverbios y la adjetivación excesiva eran cosa de pervertidos y gentes con deficiencias vitamínicas”. Advérbios, adjectivos, perversão, gosto do estilo. Vou continuar. E mais quando relevo a militância do candidato a escritor:

—No se embale, pollo. A ver, ¿qué piensa usted deluso generoso e indiscriminado de adverbios y adjetivos?
—Que es una vergüenza y debería estar tipificado en el código penal —respondí con la convicción del converso militante.

Como diria Pedro Vidal, esto sólo es el principio, en diez años yo seré el aprendiz y tú el maestro.

Para continuar.

terça-feira, dezembro 30

PROFECIAS

Disse um dia François de la Rochefoucauld mais ou menos assim: só é sensato quem é da minha opinião. Porque isto de ver bom-senso em quem nos afronta não é fácil… Ou por outra: exige de nós uma mão-cheia de áurea sabedoria. Há dias em que nos apetece ser sensatos, acordamos assim, dizemos a nós próprios “ hoje eu vou perdoar, vou ser bom menino” e pronto, passamos um dia porreiro, a descascar castanhas e a regá-las com vinho. Mas há outros em que, oh valha-me Deus, mais valia termo-nos colado ao colchão. Acordamos chatos, insuportáveis, e fazemos coisas do arco-da-velha.

Nestes últimos dias, deu-me para ler profecias. Não sei porquê, os novos profetas são todos da área financeira. Estamos no fim do mundo, é a bancarrota, vem aí uma guerra mundial, o Sócrates vai pedinchar no Sodré… É um ver-se-te-avias de avisos: eu avisei-te, eu sou Deus, avisei-te, para que compraste essa porcaria, não vês que a bolsa ainda vai cair mais… Estes são os profetas da desgraça, os corvos do pedestal, enfim, os sensatos.

2008 foi um ano muito mau. Mas não porque o ano seja mau, coitado, o ano não tem culpa nenhuma. A culpa, afinal, é dos outros sensatos, daqueles que, sabendo, fingiam que não sabiam. E o ano foi mau, muito mau.

Os corvos dizem que 2009 vai ser pior, muito pior, espirram. São corvos, são negros, miram de cima, do epicentro da tempestade. Espreitam. E aguardam a morte da presa.

O homem de bom-senso sabe que todas as tempestades têm o seu fim. O homem de bom senso sabe que, depois da noite escura vem o dia radiante. E aguarda, confiante, porque tem esperança e acredita.

Eu pressinto que 2009 vai ser um ano muito difícil, mas acredito que o sol ainda nele vai brilhar. Eu creio. E, ao contrário de la Rochefoucauld, dou de bandeja aos corvos os grãos da minha sensatez.

Um Feliz Ano de 2009 para todos.

domingo, dezembro 28

O canário

O meu pai criava canários. Cruzava-os, amarelo com laranja, laranja com vermelho, o resultado era surpreendente. Mais surpreendente ainda era o resultado vocal. Fascina-me o trinado glorioso desta ave bela, que me reenvia aos leves dias da infância. Um dia tive um canário, dava-lhe painço e ovos cozidos, até que um dia tive de sair. Descobri então que um canário é como um filho, que é preciso alimentá-lo, acarinhá-lo. Mas tinha de sair. Bem pedi à vizinha que tratasse dele durante uns dias, mas ela, com uma ternura nada canora, disse-me que não. Portanto, dei-o. Durante seis meses chorei o raio do canário. Que saudades do seu cantar!... Jurei que animais nunca mais. E é verdade, até rima.
O Baião e a dançarina

São seis da tarde, ouvem-se melodias de Natal. O Baião dança com a mãe: finalmente algo interessante. Ele ri-se. Aqui ao lado, sentado num capuchino, enlevo-me em duas palavras e em três toques de telefone. Aquele cromo da TV tem dois cornos de veado, quer ser diferente e é-o à sua maneira. O que vou comer à noite? Haverá roupa velha pelo frigorífico? Aqui ao lado há quem esfregue os dedos de contente, não sei bem porquê – ou talvez saiba. Ai que linda a moça da TV, com sotaque italiano. Quem me dera falar assim, como ela, mas em português. O raio da nossa língua é dura que se farta, tem um som demasiado metálico, razão tem o gerúndio brasileiro, com ar de samba e de ancas a abanar. Meu Deus, as ancas brasileiras são de mais!.. Que vou comer à noite?

quinta-feira, dezembro 25

ARRANHAR

Ontem o P. arranhou-se na árvore de Natal. Não é suposto, mas acontece, principalmente se debaixo tilintam luzes ou ecoam belos presentes. Arranhou-se, pois, ou aranhou-se. Porque no Natal até as aranhas têm direito à ribalta.

Aqui ao lado, nas frígidas escarpas castelhanas, o verbo não arranha, mas araña. E araña porque faz como a araña. Por cá, porque a garganta arranha que se farta quando duplica por exemplo o rr, lá se fortaleceu o verbo. E de arañar temos arranhar. Quem arranha faz como a aranha, assim como que esgravatando, fazendo uns movimentos, uns rabiscos, uns tracitos que às vezes ferem, mas que, outras vezes, sabem muito bem, principalmente quando piscamos os olhos aos embrulhos de Natal.

sexta-feira, dezembro 5

A “INDISCIPLINA” E O BOM-SENSO.

Há um ditado popular que diz: pai impertinente, filho desobediente. Quem tem filhos, quem educa no dia-a-dia, sabe muito bem que, com os filhos, melhor é a palavra do que a bofetada. Aliás, a ideia da bofetada, tão em voga em tempos ditatoriais, já nem pega. Hoje educa-se com exemplos, com persuasão, com bom-senso, e, essencialmente, com muito amor e carinho. Pelo menos, assim é que deve ser. Tenho três filhos que respeito e me respeitam e nunca lhes toquei com um dedo.
Na escola, tenho para mim que um bom professor nunca precisará de castigar um aluno se for realmente um bom professor. Mesmo em contexto de conflito, um bom professor saberá, com sabedoria e bom-senso, dirimi-lo de forma positiva, aproveitando-o para educar. Penalizar um aluno mostrando-lhe o “cartão” amarelo da rua ou o “vermelho” da suspensão não costuma ser eficiente solução.
Li hoje num jornal bracarense, na página relativa ao desporto e a propósito de castigos associativos, que “os jovens são os mais indisciplinados”. No que respeita ao futebol – acompanho jogos de juvenis com assiduidade -, tal afirmação não é verdadeira. Os jovens são puros na forma como jogam e como reagem e a comparação implícita é injusta.
Já o disse noutro texto: o grande problema da formação, do futebol juvenil, é o défice de qualificação técnica e humana da maioria dos árbitros. Em múltiplas situações, os árbitros agem sem bom-senso, punindo onde deverão usar de boa pedagogia. É muito fácil puxar de um amarelo, ou de um vermelho, e exibi-lo ufanamente. Mais difícil é explicar ao jovem o porquê das decisões de forma calma e ponderada. No último sábado assisti a um jogo de juvenis. Jogo muito bem disputado, com disciplina absoluta. Em determinado momento, o árbitro assinalou uma falta, daquelas banais, que acontecem várias vezes durante todos os jogos. De forma abrupta e sobranceira, tirou o cartão amarelo do bolso e mostrou-o a um jogador, jovem de comportamento exemplar. Candidamente ( eu estava muito perto e ouvi), o jovem perguntou ao árbitro: “O que é que eu fiz?”. Imediatamente o árbitro, num gesto inadmissível e prepotente, mostrou-lhe o cartão vermelho. O capitão de equipa, também de forma educada, dirigiu-se ao árbitro e perguntou-lhe porquê. E o árbitro, de forma absolutamente inaceitável, mostrou novamente o cartão vermelho. Quer dizer, no espaço de um minuto, um jogo brilhante foi transformado numa luta desigual e injusta por exclusiva culpa de um árbitro incompetente.
Se um pai impertinente faz um filho desobediente, que dizer de um árbitro que assim age? Poderemos dizer que a missão de arbitrar é difícil. E é verdade! Em língua, o melhor critério de correcção é o do uso, único válido em todas as circunstâncias, como dizem os melhores gramáticos. No futebol juvenil, com jovens em formação, o melhor critério, além de todas as regras, é o do bom-senso. Que todos sejamos sensatos: em casa, na escola, no campo de futebol. E se somos educadores, que mais sensatos sejamos!

quinta-feira, novembro 20

LINGUAGEM VIOLENTA NO DESPORTO

Enquanto aguardava pelo Brasil-Portugal, assisti ontem a um debate sobre linguagem violenta no noticiário desportivo. Um pai alertou o Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas para uma série de expressões violentas que lera em jornais, do tipo de “ O grupo X era um alvo a abater”, “vingança saborosa” ou “decidiram partir para a humilhação do adversário”. E o Conselho Deontológico lá recomendou exigência ética e deontológica aos jornalistas, o que nem me parece necessário, pois qualquer jornalista, como bem vincou Vítor Serpa, sabe que há linhas que não deve ultrapassar.

A verdade, porém, é que leio todos os dias expressões que me ferem a sensibilidade, e que, se bem (mal) assimiladas pelos jovens desportistas, podem induzir comportamentos errados. Por exemplo, embora perceba a mensagem, choca-me ver os “guerreiros” do Sporting de Braga em cartazes espalhados pela cidade, com armaduras e tudo… Porque o futebol é um desporto nobre, não é terreno de guerra, nem um simples jogo deve ser sentido como uma batalha.

Mais grave, na minha opinião, é a falta de formação de alguns dirigentes, treinadores e árbitros que acompanham o futebol infanto-juvenil. Eu sei que não é fácil construir um edifício de excelente formação desportiva, mas os clubes devem prestar atenção redobrada às características dos formadores, procurando neles uma boa base científica, pedagógica e essencialmente humana. É inaceitável que num jogo de infantis o treinador insulte um árbitro, como é inaceitável que um árbitro não compreenda a índole de um jovem de 9 ou 10 anos, penalizando-o quando deve ensinar. A formação desportiva é uma área demasiado importante para ser deixada ao deus-dará.

quinta-feira, novembro 13

PARA PENSAR

O E. é um jovem de dez anos, muito inteligente e sensível, que gosta de ler e de escrever. Porque lê muito e com prazer, conhece já parte substancial do léxico e usa-o com propriedade. Um destes dias, desenvolveu em casa um tema simples. A mãe, como sempre, ajudou-o numa ou noutra vírgula, mas sem interferir no registo vocabular. Ontem o professor sublinhou-lhe a redacção e disse-lhe: “Estas palavras não foram escritas por ti”. O E. não reagiu, mas sentiu-se injustiçado. Ontem à noite o E. estava calmamente a fazer outra redacção. Escreveu uma palavra mais “difícil”, a mãe achou-a muito bem utilizada no contexto e disse-lhe: “Olha que bem!...”. E incentivou-o. Mas o E. ficou pensativo, cabisbaixo, e disse à mãe: “Não, mãe, é melhor não usar essa palavra, porque o professor não vai acreditar que fui eu que a escrevi”. A mãe ficou estarrecida com a resposta e decidiu ir falar imediatamente com o professor.

Este episódio é verdadeiro e faz-nos pensar. Que parte cabe aos pais na educação (e na instrução) dos seus filhos? Que acção científica e pedagógica deve o professor desenvolver para que não destrua pela raiz a competência e a criatividade de jovens como E.? Porque quando uma criança de dez anos não escreve a palavra X porque o professor não vai gostar, ou porque o professor vai duvidar, então algo está profundamente errado. E o erro não está certamente na criança, que apenas quer exprimir o seu pensamento nas estruturas que lhe são intrínsecas e com as palavras que vai aprendendo.

domingo, outubro 26

NÃO TENHO ALTERNATIVA

Dizem que fazemos a vida, que decidimos sobre ela, que ela é exactamente o que desenhamos nos nossos sonhos mais belos. Talvez seja assim. Talvez alguém consiga construir o castelo do sonho e nele viver eternamente. Não sendo cartesiano, sou no entanto céptico. Que vida “fez” o felizardo do euromilhões? Fê-la até aqui, até ao momento da sorte. Vai continuar a fazê-la? Ou vai deixar-se guiar por ela? Nós fazemos a nossa vida, mas a vida também teima em nos fazer. Dizer, portanto, “eu faço e pronto!” não significa nada sem a assunção do devir. Porque o devir pode ser trágico, quando não cómico. Há, porém, alternativa ao amor? Se eu amo, posso dizer “ Não posso ficar contigo, não tenho alternativa”? Que alternativa é mais importante do que o amor? Os poetas laceram corações quando nos falam desse sentimento que nos explode. E nós choramo-lo. É a dor.

quarta-feira, outubro 15

A CRISE

Como diria o Agostinho, isto é que vai uma crise...O mundo em crise, Portugal em crise, eu em crise?Interessante... Escrevo a palavra, soletro-a e acho-a bonita: "crise", "crise", "crise"... Tem uma sonoridade engraçada, faz-me lembrar os grilos da minha infância... As palavras são assim, bonitas ou feias, quer dizer, elas não têm nenhuma culpa de ser feias... "cri...cri...cri...", isto num poema resultava bem... Como diz alguém naquela imagem batida, que a luz apareça no fundo do túnel. Porque este som grilático, sendo lindo, já me fere a carteira.

sexta-feira, outubro 3

POLÍTICA E ÉTICA

Há momentos na nossa vida em que temos de pensar mais profundamente, em que temos de decidir de forma “política”. Pessoalmente, sempre valorizei mais os actos do que as palavras. Estas são muito bonitas na boca de quem bem fala, ou na pena de quem escreve. A realidade, porém, encarrega-se de nos abrir os olhos, de nos esclarecer, de nos dizer que as palavras podem ser a mentira das acções.

Em política, tenho disto a minha dose. António Guterres, por exemplo, fala muito bem, falava maviosamente quando foi ministro, mas fugiu à primeira dificuldade. Nele votei, mas nunca mais votaria, na hipótese peregrina de que retornasse. Durão Barroso também fala muito bem. Mavioso que se farta. Fugiu de rabo queimado entre as pernas. Alguns dirão que traiu. Nele também não votaria, se entretanto retornasse.

Na política, a ética é basilar. Na minha opinião, nem Guterres nem Barroso foram éticos.

Por isso, sem ser da sua cor partidária, admiro Marques Mendes. E admiro-o porque, em variados momentos, sacrificou algo da sua vida, da sua carreira política, por causa do seu posicionamento ético. Todos se lembram do código de ética por si imposto, código que afastou vários “políticos” de cargos importantes para o PSD. Talvez alguns digam que exagerou, que o partido não ganhou nada com isso. Mentira! Ganhou pelo menos um admirador que sou eu. No Marques Mendes eu passei a confiar. Quem sabe um dia destes voto nele?

domingo, setembro 28

ARGUMENTAVAS...

Argumentavas leve, mas augusta,
Sobre o amor ou sobre a vida vil,
Imploravas sentir o quanto custa
Esmaecer um poema em flóreo Abril.

A leira abria um sulco meio adusto,
O tentilhão trinava em mim pueril,
A natureza que jamais se assusta,
Derramava lágrimas, mais de mil.

Só de ouvir-te, as lágrimas choravam,
O sol, o monte, o mar, todo o esplendor,
Da vida os elementos gotejavam.

Tu sabes muito bem que além da dor,
Além das vãs palavras que clamavam
Tu e os outros, há o divino Amor.

Copyright José Silva, 28.09.2008

segunda-feira, setembro 22

ANDA TUDO MALUCO...

Leio que Bush anda a salvar impérios privados. Pelas Américas, tudo é possível. Por cá, tudo na mesma, como a lesma: consumo em queda permanente, pobreza galopante, natalidade a tender para zero, medidas para alterar a situação inexistentes. Este país é um oásis de nada. Nem os futebóis nos alegram…O Benfica é sempre a mesma tristeza; o Sporting joga sempre com “tranquilidade”, consoante os solavancos do Paulo Bento; o Porto até já empata com o Rio Ave. Em Espanha sobram as bombas. Será que o Obama ganha? Este mundo não anda lá muito bem da cabeça…

terça-feira, setembro 16

MAIS DO MESMO

Levanto-me e leio. Isto é que vai uma crise… Pelas Américas há bancos a falir. Anda tudo com as calças na mão… Portugal continua, impávido e sereno, a pedir esmola na esquina. Os nossos políticos nem se vêem. O Sporting joga hoje com o Barcelona, ganhará? As aulas já arrancaram, pelo menos os putos partiram alegres. A ver vamos.

domingo, setembro 14

PINTURA

Estávamos os dois ali deitados,
Sob a ramagem lenta dos pinheiros.
Dois esquilos sorriam enlevados,
Eram sorrisos puros, verdadeiros.

O sol queimava longe nos eirados,
O céu tremia azul sobre os lameiros,
E nós ali amando-nos calados,
Do mundo éramos únicos, primeiros.

O amor dá sempre a mão à natureza,
Aperta-a contra o peito e sempre implora
A simbiose da dor com a leveza.

Pintura somos nós a toda a hora:
O céu, o sol, a cor e sem surpresa,
A tua boca que florescente aflora.

José Silva, Copyright, 15.09.2008

sábado, setembro 13

CANSAÇOS…

Um dia li Robert Musil e o seu “ O homem sem qualidades”. Musil é um malandro, mas um malandro muito sério. Em determinada passagem, diz que ser feliz cansa tanto como ser infeliz, é tudo questão de contexto e de atitude perante a vida. A verdade é que o ser humano nunca está verdadeiramente feliz com a sua condição, nem porventura quando lhe saem 50 milhões. Ouvi dizer que o amigo de Vila Verde, mais recente vencedor do Euromilhões, é um homem infeliz. Esconde-se, ninguém sabe dele, a sua vida mudou, pelos vistos para bem pior. Que se lixe o dinheiro, dirão. Pelos vistos, ser feliz cansa mais do que ser infeliz. O Musil terá razão?

sexta-feira, setembro 12

A VIDA E A MORTE

A propósito do poder, dizia Kundera que a luta da memória contra o esquecimento é fulcral na vivência humana. A memória, essa coisa relativa ao passado, porque a memória do futuro é impossível. Há pouco, o meu mais velho, filósofo em plena floração, reforçava: “Com a ciência actual, as pessoas podem viver quase eternamente. Podem substituir peças, podem pôr um coração mecânico, um braço articulado, um chip de memória nas memórias idas.”. Fiquei a pensar… A busca do elixir da juventude ultrapassou a ideia e concretiza-se em factos: o homem, hoje, pode efectivamente viver mais. Mas, para quê? Para viver ou para sofrer? E cogito: Tenho a sensação de que à busca da vida eterna se sucederá o desejo obsessivo da morte. Um dia destes, não vamos querer viver, mas desejar inelutavelmente morrer.
CACULO

Quando eu era pequeno, a minha mãe dizia-me muitas vezes: “Precisas de te alimentar bem, come um prato de massa de caculo!”. Porque a língua se transmite de pais para filhos, em variadas sincronias, continuo a dizer ao meu mais novo, jogador de bola e gastador de necessários hidratos e outras calorias: “Tens de comer uma grande pratada, filhote, de caculo!”. Ele vai brincando comigo, diz que tal palavra não existe, e que eu vivo no século XV da língua portuguesa. Até pode ser. As línguas são extraordinariamente dinâmicas, as palavras cabeceiam significados, mas é óptimo que os mais velhos actualizem estas palavras, relevando a riqueza insuperável do léxico da nossa língua. Consulto vários dicionários e nada. Consulto o formidável Houaiss et voilà: “Caculo: em demasia, em excesso, de sobra”. É isso mesmo! Um prato de massa de caculo é um prato cheio, se possível em pirâmide, para saciar a fome e dar energia. A palavra, afinal, ainda existe! Eu que o diga, pois a repito todos os dias…
CUECA

Não, escusam de pestanejar porque não estou a pensar na cueca, pecinha de vestuário a que por aqui chamamos, em altaneiro tom, cuecas, ou cuequinhas, agora reduzidas a um tão débil fio que quase nem se vêem, para bem dos nossos cansadinhos olhos. Estou antes a pensar na rítmica cueca, dança típica do Chile, que ouço neste momento. Linda, parece o malhão… Mas por que carga de água estou a ouvir música chilena, e ainda por cima música popular? Só esta e a da lambada… Estas nossas meninges pregam-nos cada partida…

quarta-feira, setembro 10

SEM TEMPO

Isto hoje está complicado. Nem tempo tenho para ler os jornais… Podia falar do tempo, mas as nuvens parecem sempre as mesmas… Podia falar de futebol, mas Portugal ontem foi uma tristeza… Podia, enfim, falar de política, mas o Baptista-Bastos acaba de dizer que a Manuela Leite parece uma estátua fria… O melhor é não dizer nada. Há momentos em o calado é realmente o melhor.
Interessante: se o particípio de calar é calado – e se eu não falo, escrevo – qual seria o particípio que eu deveria empregar neste momento? Ou este particípio é já adjectivo, e eu deveria estar quieto? Pronto: fico quieto!

terça-feira, setembro 9

MARAVILHA...

Há palavras belas, que nos tocam, que traduzem sentimentos quase inexplicáveis. A palavra maravilha é uma dessas palavras, que uso frequentemente. Em Latim, significava exactamente “coisas admiráveis”, e ganhou estatuto em formas que se fixaram na língua e que são, portanto, de conhecimento e uso geral. Quem não conhece a oitava maravilha do mundo, ou as sete maravilhas do mundo, quando nos referimos aos sete monumentos da antiguidade, ao farol de Alexandria, às pirâmides do Egipto, aos jardins suspensos de Babilónia, ao templo de Diana em Éfeso, à estátua de Zeus em Olímpia, ao mausoléu de Halicarnasso ou ao colosso de Rodes? Ficamos felizes quando as coisas nos correm às mil maravilhas, contamos maravilhas dos nossos filhos, há quem faça maravilhas só com o olhar e, final dos finais, dizemos – como eu digo frequentemente – “Que maravilha!”, como exclamação de entusiasmo, assombro ou encantamento. A vida é realmente uma maravilha. Assim a saibamos sentir e viver, olhando os olhos dos pássaros, sentido bater o coração das águas, amando plenamente quem nos ama.

domingo, setembro 7


PURA MAGIA
As línguas possuem no seu corpo expressões que, nas diversas sincronias, se foram fixando, constituindo um belo acervo cultural. Quem não resolve um problema enquanto o diabo esfrega um olho, ou quem não vai, por vezes e a pé, ao longínquo cu de judas? Estudar a origem destas expressões é da competência da lexicologia, disciplina sem dúvida relevante dos estudos linguísticos.
Ontem alguém me referia a expressão pura magia, também ela em fase de fixação na língua. De pura magia são as realizações de Houdini, os poemas de Pessoa, os livres secos e certeiros de Ronaldo. De pura magia são as ancas da Jennifer Lopez, os olhos rasgados da Zeta-Jones ou os lábios da Angelina Jolie. Mas a magia voga também nas flores, na giesta dos montes, na água límpida dos rios, no chilrear vibrante dos pássaros. Não admira, pois, que o povo cristalize a forma, a use espontaneamente, pretendendo com ela designar estados reais ou de alma muito particulares.
Do que ninguém duvida é da pura magia de um beijo apaixonado, de um olhar fixo e quase infinito, de um acto de amor profundo e verdadeiro. No amor, que é indefinível, tudo se transforma em puríssima e saborosa magia. Amemos, pois, magicamente!

sábado, setembro 6

De Palin a Jardim

Sarah Palin é candidata a vice-presidente dos Estados-Unidos. Ao mesmo tempo, Sarah envia mensagens para a convenção do Partido para a Independência do Alasca. Algo não bate certo nesta posição. John Mccain deve cuidar-se. Em Portugal, houve (e há?) movimentos independentistas, com jardins resplandecentes de alusões e de ironias. Há tempos, alguém sugeriu: Jardim à presidência de Portugal! Eu acho bem. Nesta pasmaceira escura, bem precisados andamos de canteiros floridos e de silvas ao vento. Mas que não haja confusões: no Alasca, que haja lasca! Na Madeira, que o gorgulho não viceje.

sexta-feira, setembro 5

ANGOLA

Procuro informação sobre Angola. Sei que decorrem eleições legislativas, sei que a comunidade internacional se preocupa com elas, e também sei que o governo angolano rastreia cuidadosamente a cobertura jornalística. Leio Angola News e, para além de não vislumbrar uma única palavra em português, zero sobre as legislativas. Leio Angola Press: informação cuidada (demasiado cuidada?). Consulto a Angola Digital. Grande título: Eduardo dos Santos: um Maquiavel moderno no comando de Angola há 29 anos. A guerra acabou, Angola renasce das cinzas. O crescimento actual parece forte e tudo aponta para mais uma vitória de Eduardo dos Santos. Que Angola saiba encontrar o seu caminho, em paz e com grande progresso, é o desejo de todos os irmãos portugueses.

quinta-feira, setembro 4

REQUINTE

Nunca me tinha apercebido disso. Estudar a língua é uma coisa, estudar as mulheres é outra, bem diferente. Mas ela disse-me: “As mulheres do sul são mais requintadas que as do norte”. Porque as mulheres do sul são mais aprimoradas no porte e na linguagem. Fiquei a pensar. Será verdade? Não conheço muitas mulheres do sul, mas a verdade é que cá as minhas conterrâneas abusam um pouquinho do palavrão. Claro que não são todas, há-as bem polidas e com algum verniz nos neurónios. Mas aquela do requinte, do primor, da quinta-essência comportamental deixou-me de lado. Porque a ideia que tenho é de que as mulheres são todas bonitas, e a de que a beleza é uma resultante também da linguagem. É feia uma loiraça que diz um palavrão? Depende do contexto… Depende do contexto…

quarta-feira, setembro 3

E AS FÉRIAS JÁ LÁ VÃO...

Voltei. As férias terminaram; o sol este ano esteve envergonhado; os pingos de chuva já amaciam a pele. E cá vamos para mais um ano de trabalho. Só espero que valha a pena, e que não nos torçam o nariz em horas de lua nova.

domingo, maio 25

Foto: ebrunet

O GROVE, A TOXA E O PORTUGUÊS DA GALIZA

Sou nortenho de Portugal. Adoro a Galiza.

Sempre que posso, visito a Galiza. Conheço-a muito bem, tal como conheço muito bem o norte de Portugal. Aliás, o norte de Portugal e a Galiza conformam a mesma nação: o mesmo sentir, o mesmo coração, a mesma língua. Quando me inebrio com os poemas de Rosalía de Castro, ou com as cantigas de Martim Codax, inebrio-me como um telurismo que faz de mim um galego e de um galego um português.

Um dia, estava eu em A Toxa, ali por O Grove, quando ouvi, em português retinto, uma velhota apregoando “Quem quer castanhas…”. Olhei e sorri. Não fiquei nada admirado, pois sabia que os galegos mais idosos falam português, pois em português nasceram e em português hão-de morrer.

Há dias ocorreu em Santiago uma grande manifestação a favor do galego como variante do português. Eu sei, porque tenho participado na coisa, que há galegos a serem punidos por defenderem esta posição, seja nas escolas, seja na própria sociedade. E não me parece bem que os diversos governos de Espanha tentem, a todo o custo, impor o castelhano, impedindo o livre florescimento das outras línguas oficiais.

Por muito que o centralismo queira impor unicidades linguísticas, a consciência de que a língua faz a nação nunca deixará que tal facto aconteça.

Historicamente, o galego é o português e o português é o galego. A língua portuguesa fala-se em Portugal, no Brasil, em países africanos e até asiáticos. Fala-se também na Galiza. É uma língua de enorme prestígio e só temos de dar as mãos para torná-la cada vez mais prestigiada em todas as instâncias internacionais.

Em Portugal, vemos televisão espanhola. Os portugueses são universalistas e não têm barreiras psicológicas nem políticas. Porque não poderiam ver televisão espanhola? Mas os galegos não vêem televisão portuguesa. O que é um insulto, não só aos galegos, mas também aos portugueses. E não vêem porque os políticos não deixam.

Afinal, quem tem medo de quem? Os políticos espanhóis têm medo que os galegos mais jovens descubram que a sua língua materna é, imagine-se, falada por mais de duzentos milhões de habitantes?

Apaixonemo-nos pela Galiza, que é do nosso corpo e sangue.

sexta-feira, maio 16

E A RESPOSTA É...


Existe, na língua portuguesa, um verbo muito curioso e raramente usado. Digamos que ele é geralmente reconhecido pela forma participial que, como bem sabemos, assume bastas vezes função adjectival. O significado de ENSIMESMADO é facilmente reconhecível em frases como:

a)Ultimamente, a nossa ministra da Educação anda um pouco ensimesmada. Porque será?

O verbo ensimesmar-se é verbo pronominal, com a particularidade de sê-lo duplamente em forma reflexa. Reparem:

Eu em mim mesmo-me
Tu em ti mesmas -te
Ele em si mesma-se
Nós em nós mesmamo(s) –nos
Vós em vós mesmais –vos
Eles em si mesmam-se

Juntando tudo:

Eu emmimmesmo-me
Tu entimesmas -te
Ele ensimesma-se
Nós ennosmesmamo–nos
Vós envosmesmais –vos
Eles ensimesmam-se

E pronto, cá está o Presente do Indicativo do verbo ensimesmar-se.

A resposta ao exercício seria então, tal como disse o Sotero no Fórum de Numismática, emmimmesmo-me.

quinta-feira, maio 15

UMA AJUDINHA...

O verbo, no Infinitivo Impessoal, e segundo o Dicionário da Academia, significa "Ficar pensativo, em atitude de meditação e interioridade, abastraindo-se do que o cerca". É uma boa ajuda...

terça-feira, maio 13

UM PRÉMIO A QUEM ACERTAR

Há, na língua portuguesa, um verbo pronominal que, numa das pessoas do Presente do Indicativo, tem SEIS M. Qual é?

Uma moeda de prémio a quem der aqui a resposta certa (moeda à minha escolha).

Presumo que não será muito fácil encontrar a resposta, mas como exercício serve.

quinta-feira, maio 8

BARBUDA, GRAVE E PILARTE

Quando ElRey D. Fernando fez a guerra a Castella, serviraõ a ElRey D. Henrique o Nobre muitos Soldados Francezes, que vinhaõ armados de celadas, a que eles chamavaõ Barbudas; e traziaõ lanças com pendoens, que chamavaõ Graves; e traziaõ comsigo pagens para as celadas, a que chamavaõ Pilartes; e querendo Elrey D. Fernando deixar memoria d’esta sua empreza, poz estes nomes, e insígnias nas Moedas, que mandou lavrar de novo.

D. António Caetano de Sousa, História Genealógica da Casa Real Portuguesa


Barbuda

Grave

Pilarte

Fotos: Fitzwilliam Museum/ Luís Norte

quarta-feira, abril 2

ACREDITO NOS PORTUGUESES!
O Firmino, meu amigo e meu aluno, escreveu este texto. Está muito bem escrito, tem ideias claras e apresenta uma visão muito positiva de Portugal e dos portugueses. Dou-lhe os parabéns e incentivo-o a escrever cada vez mais.

A Globalização é um fenómeno que afecta, praticamente, todos os países ocidentais, embora com diferentes graus de influência, consoante a sua localização geográfica, o acolhimento que as populações dão ao que lhes chega de fora a quase toda a hora e, em termos mais específicos, ao maior ou menor proteccionismo que os estados utilizam como meio para salvaguardar a actividade económica doméstica.

O contínuo alastramento desta realidade vem provocando mudanças no quotidiano das nações, que não seriam previsíveis há alguns anos atrás. A livre circulação de pessoas e bens originou uma transformação, quase radical, nas economias dos países levando a ajustamentos com que muitos não contariam. A mobilidade em termos de emprego será uma das faces mais visíveis dessa realidade. A procura de um emprego estável e duradoiro, não raras vezes para toda a vida, que era apanágio do nosso país, vai sendo substituído por uma mobilidade estranha a essa anterior realidade, hoje encarada como normal e, até, em alguns casos, incentivada. Simultaneamente, é possível observar a chegada de imigrantes das mais variadas nacionalidades, o que parece ameaçar a força laboral indígena, já de si debilitada pelas altas taxas de desempregados. A par com esta realidade, as repercussões em termos de indústria e comércio internos, derivadas da proliferação da entrada de produtos oriundos de países com mão-de-obra mais barata, onde as exigências em termos de protecção social são quase inexistentes, e onde, em boa verdade, não se observam limitações ao volume de carga horária laboral, provocando uma sensação desagradável de concorrência desleal, vai também minando a confiança dos agentes económicos e da população.

Mas, um país com uma história de mais de 900 anos, terá que se resignar a essa visão negativa e redutora deste fenómeno? Não seremos nós capazes de dar a volta por cima, como já tantas vezes fizemos? Claro que sim. Aliás, já é hoje possível encontrar jovens licenciados portugueses a dar cartas fora do país. À falta de oportunidades de desenvolverem as suas capacidades dentro de portas, é vê-los a desbravarem caminho em países que apostam neles, crentes das suas capacidades e competência, sabendo que a aposta não será em vão. Eles representam uma nova casta de emigrantes, não de mala de cartão na mão, mas sim de “canudo” em riste, prontos a encararem novos desafios, conscientes do seu valor e sem medo de enfrentarem a concorrência dos nativos desses países. Em termos económicos temos também o exemplo da indústria do calçado, que tem vindo, ano após ano, lenta mas seguramente, a consolidar-se como uma das que mais qualidade apresenta e, fruto dessa competência, a aumentar a sua penetração nos mercados internacionais e a exportar mais a cada ano.

Mesmo em termos históricos e culturais não creio que tenhamos muito a recear. Temos uma história das mais ricas, de que todos nos orgulhamos e de que muito poucos outros se podem vangloriar. No campo cultural também não devemos temer que as influências externas nos “colonizem”. Desde monumentos, a diversos locais classificados como património da humanidade pelo seu significado histórico-cultural, passando pelos enormes vultos da nossa literatura, de que muito poucos poderão ufanar-se, temos uma riqueza incomparável, da qual só podemos ter “vaidade”.

Concluindo: apesar do que muitos profetas da desgraça vaticinam em termos de futuro para o nosso país, creio que temos todas as razões para não alinharmos ao lado dos pessimistas que nada esperam de positivo. Um povo com uma história tão grandiosa, que já enfrentou desafios maiores e foi capaz de os dobrar, não será agora que irá capitular. Acredito, verdadeiramente, nos portugueses.

Firmino Joaquim Silva Cardoso

quarta-feira, fevereiro 13

DERIVAÇÃO IMPRÓPRIA

Azul adjectivo a coisa
Traço que vejo ou nego
O azul.

Ao longe o nome avermelha.

Plena substância
A unidade designa
Algarismo indefinido
No contexto.

Se o comer se deita fora
Não se come
Não age se designa.

Movimento no sintagma
Cuide-se a gramática
E descanse.

No sonho o azul esvoaça
Azul.

Constrói ninhos invisíveis
Na categoria imperfeita.

José Silva, 13.02.2008

quarta-feira, janeiro 30

AS VELHAS ÁRVORES

Olha estas velhas árvores, — mais belas,
Do que as árvores mais moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas . . .

O homem, a fera e o insecto à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E alegria das aves tagarelas . . .

Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória da alegria e da bondade
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

Olavo Bilac

quinta-feira, janeiro 17

REPUGNANTE

É adjectivo, e rasga que se farta. O Baptista-Bastos usa-o, e quando o usa afia o monóculo do Eça: “As afrontosas injustiças sociais conduzem as pessoas a um cada vez maior afastamento do acto cívico e ao desprezo repugnante pelos políticos”. Parece que Henrique Granadeiro, administrador da Telecom, aufere mensalmente 185 590 euros. Leram bem, mensalmente. Ao que consta, temos uma classe de gestores e de políticos absolutamente iluminados que, enquanto chutam as empresas e o país para os cueiros da Europa, se entretêm a enxamear os bolsos de aveludados euros. Enquanto tal, o pobre esperneia, saciando a fome em miseráveis cêntimos. É afrontoso, revoltante, repugnante. O Baptista tem razão: este país precisa de um valente coice. Dos burros. Ou dos camelos.

segunda-feira, janeiro 14

LIBERAIS DE PACOTILHA

E Pedro Magalhães disse que os colunistas andam irritados. Motivo: a crescente regulação dos comportamentos individuais pelo Estado. E Vasco Pulido Valente respondeu-lhe. O Pedro merecia, o Vasco, pelos vistos, também. Os argumentos são os costumeiros: ameaças à cultura e à tradição; atentados à liberdade individual; falta de educação e inevitabilidade dos comportamentos. O Pedro, nas meias tintas, coercivo. O Vasco, não sei se nas meias se nas umas, abrasivo. Isto só vai mesmo é a chicote, diz o Pedro. Eu acho que tem razão, se pendurado nas nuvens.

segunda-feira, dezembro 17

O conhecimento pronto estanca o saber;
A dúvida provoca a inteligência.



No que respeita ao conhecimento pronto, este é decerto o pior inimigo das nossas mentes, pois inculcar tal tipo de ideias preconcebidas não permite fundamentar e expandir as nossas verdadeiras opiniões. Não concebo que haja indivíduos incapazes de pensarem por si mesmos neste mundo e, como tal, não vejo razão para não se exprimirem de livre e espontânea vontade, porque saber expor o que nos vai na alma é saber expor a realidade e os seus factos, mesmo que isso implique confrontarmo-nos com opiniões opostas ou com outras com que não concordamos. Sempre que nos deparamos com os media ou até com uma força política, não devemos deixar-nos iludir pelas belas palavras, mas sim fazer tábua rasa dessas ideias que, à força pretendem paralisar o nosso sistema cognitivo.

O saber e a dúvida são os nossos únicos aliados neste combate, na medida em que só com eles conseguimos transmitir interesse pelo que nos rodeia, abrindo-nos caminho para uma visão mais clara e ampla sobre o mundo.

Como uma flor que necessita de água e sol para ser bela, também a inteligência merece informações actualizadas para ser cultivada, mas, por sua vez, essas informações devem passar por etapas de selecção informativa, isto é, privilegiar o essencial e construir a sua própria opinião à volta desse tema e pesar os prós e os contras.

Para tal, basta, desde muito cedo, privilegiar uma educação aberta e sensível aos assuntos do quotidiano que vão surgindo, porque viver cada dia que passa é também instruir-se, mesmo com as coisas mais banais existentes à nossa volta, basta só olhar com atenção para as coisas demasiado escondidas…

Elsa Santos, aluna de Línguas Aplicadas, Universidade do Minho

sábado, dezembro 8

PERSISTÊNCIA

Cérebro das crianças, 1 – Cérebro do adulto, 0

- Papá, podemos comer um gelado?
- Não, responde o pai, distraído.
- Papá, queremos um gelado.
- Já disse que não.
- Ohhhhhhhhh, vá lá, papá, queremos um gelado!
- Já disse que não. Parem de pedir.
- Papáááááá, por favooooor, queremos um GELADO!
- Parem de me aborrecer e deixem-me tranquilo. Já disse que não.
Após um momento e pausa e reflexão, as miúdas insistem:
- Vá lá, papááááá, por favoooooooor, queremos um GELADO!
- Já disse que não e é não.
Novamente, depois de uma pausa, de se abraçarem às pernas do pai e de olharem para ele com ar suplicante, começa a canção ao estílio de Olívia:
- Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado! Queremos um gelado!
- PRONTO, ESTÁ BEM! Mas só desta vez!

Acabo de ler o livro de Tony Buzan, A Criança Inteligente. Li-o até ao fim. Bom sinal. Fui persistente, como as miúdas do gelado. Sem PERSISTÊNCIA não vamos a lado nenhum!

sexta-feira, novembro 30

QUEM É IDIOTA?

Einstein era um idiota. Afinal não era.
Perguntam a uma criança: escolhe o elemento que está a mais no grupo: Sol, Terra, Lua, limão. Os inteligentes responderiam limão. A criança responde Terra. Logo, é burra. Perguntam-lhe o porquê e ela explica: porque a Terra é azul. Mas a Terra é azul vista do espaço, e o Sol, a Lua, o limão, podem ser amarelos. Conclusão: a criança é mais inteligente do que os restantes inteligentes. Mais inteligente, ou mais criativa? Li isto num livro e fiquei a pensar.

quarta-feira, novembro 28

AUGUSTO CURY

Ando a ler os livros deste brilhante psiquiatra e escritor. E, se ando a lê-los, é porque gosto. Gosto sobremaneira da forma como nos estimula a sermos únicos e verdadeiramente extraordinários. Tenho lido pequenas passagens dos seus livros nas minhas aulas mais duras. E sinto que os jovens também gostam. Oxalá o leiam e derramem algumas lágrimas com ele.
Diz ele:

A maior aventura de um ser humano é viajar,
E a maior viagem que alguém pode empreender
É para dentro de si mesmo.
E o modo mais emocionante de realizá-la é ler um livro,
Pois um livro revela que a vida é o maior de todos os livros,
Mas é pouco útil para quem não souber ler nas entrelinhas
E descobrir o que as palavras não disseram...


No Natal, ofereça um destes livros aos seus filhos, ou aos seus pais. Acreditem que vale a pena!

Filhos brilhantes, alunos fascinantes
Pais brilhantes, professores fascinantes
Nunca desista de seus sonhos

segunda-feira, novembro 12


1º Encontro Nacional do Fórum de Numismática

Uma definição muito geral diz-nos que a numismática é uma ciência auxiliar da História, que estuda fundamentalmente as moedas e as medalhas e que, por amplificação, abarca tudo o que se relacione com o coleccionismo e correlativa classificação de valores de câmbio, entre os quais se relevam as notas e as cédulas. Coleccionar, descrever e classificar moedas, medalhas ou notas, de Portugal ou de todo o mundo, sob o ponto de vista histórico, artístico ou mesmo iconográfico, é algo absolutamente impagável, e que mobiliza milhões de aficionados em todo o mundo. Em Portugal, o Fórum de Numismática é o ponto de encontro de todos os amantes da numária portuguesa, e, parcialmente, da mundial. O sítio da Internet em www.forum-numismatica.com tem, neste momento, 1500 inscritos, e encaminha-se a passos de gigante para os 2000, cifra absolutamente extraordinária para um Fórum jovem em pleno crescimento. Nele se ensina e aprende TUDO sobre moedas, medalhas e notas portuguesas, da monarquia e da república, das ex-colónias e das ibéricas anteriores à nacionalidade, das romanas às gregas e a outras da antiguidade. Especialistas de diversas épocas estão sempre presentes e disponíveis para ajudar o principiante que, descoberto o Fórum, nele se vicia e nele aprofunda os seus conhecimentos. O Fórum de Numismática é, neste momento, uma verdadeira Universidade. Por decisão democrática e unânime, realizou-se neste fim-de-semana, no Centro Cultural D. Dinis, em Coimbra, o 1º Encontro Nacional do Fórum. Estiveram presentes nomes importantes do universo numismático português cujos exemplares, entretanto mostrados, deliciaram todos os participantes. Foram apresentados alguns programas em desenvolvimento, nomeadamente para ceitis e para outras áreas da nossa numária, que, a breve trecho, revolucionarão as técnicas de análise e de catalogação em uso. A organização foi exemplar e prepara-se já o próximo Encontro.

segunda-feira, outubro 29

O VELHO

O sol crestava a terra. Eram duas da tarde e, na poalha nevrálgica dos campos, a quentura do Outono quase enlouquecia. Este ano a temperatura ergueu-se em poses altaneiras e convida à sombra, ao sono poltrão debaixo da ramada. Pensara dirigir-me ao rio, à frescura verdejante das águas, e para lá me guiava, entre visões coloridas de folhas em queda permanente. Numa tarde assim, inebriando o cheiro das longínquas águas, aquele quadro perturbou-me, qual Rembrandt pintando encurvadas ceifeiras. No campo empedernido coberto de palhas, um velho esquálido colava-se ao arado. De barba longa e branca, o seu esforço ingente aliava-se ao esgares do boi que, babando forças, rasgava sulcos negros na terra ressequida. Ao fundo, na sombra ligeira do valado, um jovem, aparentemente mongolóide, espreguiçava um chapéu largo de feltro. Meio campo semeado de sulcos; outro meio por semear. Olhando bem, parecia-me ver em cada leira marcas de suor, do homem e da besta irmanados no mesmo objectivo. O quadro era um clássico, com todos os traços da rural realidade: nem traço de modernidade, nem tractores, nem máquinas, apenas o homem, o animal e a terra, tal como em tempos ancestrais. E dei comigo a pensar no mito fundamental do eterno retorno, deste regresso à nossa origem, inevitavelmente telúrica, inexoravelmente humana: que motivos ponderosos cravavam aquele velho assim à terra e ao arado, quantas lágrimas de suor não contaria a chamejante poalha? A vida é bela vista assim, de passagem, retocada em quadro. Qual seria, no entanto, o preço da figuração real?

quarta-feira, outubro 10

CENTRO DE ESTÁGIO DAS CAMÉLIAS – QUE BELEZA… ;)

Quem acompanha o fenómeno desportivo com maior ou menor regularidade, especificamente o futebol infantil e juvenil bracarense, há muito ouviu falar de infra-estruturas inexistentes, e também há muito ouviu responsáveis locais jurarem a pés juntos que “este ano é que é!”, “finalmente os nossos jovens vão deixar a lama e o pasto para as vaquinhas”. Pela minha parte, já várias vezes expus a vergonha de ver uma cidade como Braga sem nenhum tipo de estrutura para a prática do futebol, dado que as verdadeiramente existentes eram “pertença” do Sporting de Braga. E creiam que, por muito que da edilidade me jurassem que “este ano é que é!”, eu nunca acreditei muito, pois tinha a ideia de que os nossos diligentes edis tinham outras preocupações, e não estavam para se chatear com essas coisas do desporto para as criancinhas. Não acreditava, mas peço desculpa. Eu já não ia às Camélias há bastante tempo, fui lá ontem e fiquei completamente deslumbrado. Para quem não se lembra do lugar, digo-lhes que por lá passeavam cobras e lagartos, no meio do imundo silvedo, para além das tradicionais vaquinhas que, em tempo de florescentes exposições, defecavam ali, no exactíssimo lugar onde o Luís se estirava para a magistral defesa. Aliás, o cheiro a bosta era, se bem se lembram alguns, uma espécie de elixir, de estimulante para as grandes jogadas e para as defesas magistrais. Lembro-lhes também que, naquela zona baixa dos campos, florescia a malta da droga, que aproveitava e bem, na sua perspectiva, claro, os espaços assim vilmente abandonados.
Pois, eu já não ia às Camélias há algum tempo. Por isso fiquei de boca aberta, embasbacado, de olhos assim para o estupefacto, quando vi a verdura cintilante dos seus campos. Finalmente, gritei. Até que enfim estes gajos fizeram alguma coisa de jeito! Em cima, um balneário de um branco imaculado, rodeado de jardins cheiinhos de roseiras. Uma piscininha ao fundo dá-lhe um ar asseado. Ao lado, dois campos de futebol de um verde sintético de chorar por mais. Mais em baixo, naquilo que dantes era antro, que beleza… Um novo campo com um centro de estágio ao fundo. E nos três campos, como grilos de asas chamejantes, dezenas, centenas de miúdos corriam e gritavam atrás da bola. Quase chorei de alegria. Finalmente, meu Deus, finalmente os edis fizeram obra. Obrigado, meu presidente, obrigado, meu vice-presidente. Obrigado, minhas vereadoras. Que Deus os abençoe por tão supimpa obra, que enobrece, que engrandece, que, que, que faz da nossa cidade a melhor cidade do mundo. Agora sim, é bom viver em Braga!
In Diário do Minho, 07.10.2007

segunda-feira, setembro 24

CRÓNICA DE UM QUADRO NA VALETA

A crónica, o quadro e a valeta. Não é suposto escrevinhar-se mais ou menos literariamente sobre esta dupla assim tão antagónica. Quer dizer, poderia ser. Conhecemos pinturas famosas de sanitas, porque não de valetas a abarrotar de lixo? Mas não, não é de lixo que se trata, é mesmo de um quadro na valeta.
Um quadro é um quadro, como diria Wittgenstein, uma figuração da realidade. Aquele quadro tinha uma moldura e, dentro da moldura, um menino derretido em lágrimas. Não sei bem se chorava por estar mesmo na valeta, ou se a valeta tinha cascas de cebola, daquelas que fazem chorar até um cavalo. O que me chamou a atenção não foi o quadro, nem a valeta. Foi antes o facto de, a menos de 20 metros, três contentores se espreguiçarem, sobranceiros, à espera das nossas santas sobras.
Não sei se o menino choraria melhor dentro do contentor, nem sei se por lá sobrariam umas tiras de cebola da Índia. Mas raios, isto de estilhaçar tão triste figurinha pelas ruas da amargura não se faz. Um quadro deve estar na parede, bem visível, bem pendurado em prego forte e altaneiro. Na valeta não. Porque na valeta estamos todos, todos os reais, não precisamos de figurações. Essas são para contemplar nos momentos em que estamos na valeta.

segunda-feira, setembro 17


Um dia vi este mural de Siqueiros, já lá vão uns bons anos. Olhei para ele e nunca mais o esqueci. Numa época em que a palavra democracia ganhava asas, ver A Nova Democracia assim agrilhoada deu-me que pensar. As grilhetas, hoje, são bem maiores, e o grito bem mais lancinante. Ou não? Serei eu incapaz de sopesar a insustentável leveza do ser de que nos fala Kundera?
LIVROS

Hoje fui às compras. De livros, porque o ano escolar está no começo.Cheguei exactamente às nove a uma livraria. Meu Deus, uma fila enorme, aí umas cinquenta pessoas. Desisti e fui a outra.Pouca gente e apenas um livro. Por isso estava pouca gente. Um livro para o 9º, 23 euros. A coisa começava bem! Dirigi-me a outra livraria, ali pelas bandas da Sé de Braga. Mais dois livros, 43 euros. Boa! E fui a uma terceira. Mais quatro livros. 56 euros. Excelente! Falta um livro de TIC, ninguém o tem, o meu filho até me diz que não vale a pena comprá-lo. Pergunto porquê. Porque os professores nunca os usam. Hem? Bem, então aguarda-se. Uma amiga arranjou-me os restantes três, poupou-me 80 euros. Quem disse que o ensino é gratuito? O problema é que não sei o que fazer com os livros do ano passado. Pensei oferecê-los à escola, talvez algum necessitado... Que não, não valia a pena. Os livros mudaram todos... Que coisa, será que vou deitar livros ao lixo? Fico cogitando, como o meu amigo Descartes..

domingo, setembro 16

MADDIE

Leio, ouço, vejo, e cada vez mais concluo que o virtual ultrapassou definitivamente o real. Jornalistas, portugueses e ingleses, definitivamente idiotas, inventam factos e, insensíveis, gozam da dor alheia. No meio disto tudo, a criança. Onde estará Maddie? Porque Maddie é e deverá ser sempre a única pessoa importante em todo este insuportável floclore. Eu acredito que está viva e que os pais sofrem. E também acredito que a nossa polícia está a fazer um trabalho digno.

sábado, setembro 8

FEIRA DE NUMISMÁTICA EM SANTO TIRSO

Acabo de chegar. Dei um salto a Santo Tirso. Dia bonito, seis vendedores de moedas, nada que me servisse. Mas o António de Rio Tinto disse-me que tinha por lá uns ceitis, depois mostra-mos. Cetis e dinheiros, dinheiros e ceitis, isto é uma maluqueira do caraças... Mas há maluqueiras bem piores... :)

domingo, setembro 2

FEIRA DE NUMISMÁTICA EM BRAGA

Hoje foi a vez da feira de Braga, ali nos claustros do Castelo. Estavam quatro vendedores, já não é mau: o Paulo Oliveira, o Luís Rodrigues, de Caminha, um amigo de Barcelos e outro creio que de Braga. O Paulo e o Rodrigues vão tendo umas coisitas interessantes. Os outros nem por isso. Tenho a percepção de que bom material da monarquia já não existe, dificilmente encontro algo que encaixe nas minhas colecções. Mas o coleccionismo da moeda é mesmo assim: devemos aguardar a oportunidade, às vezes aparece um exemplar de nos encher o olho, e aí sim! Sábado vou até Santo Tirso. Domingo sou capaz de ir a V.N. de Cerveira.

sábado, setembro 1

FEIRA DE NUMISMÁTICA EM GUIMARÃES

Conheço todo o calendário das feiras de numismática. Sei que, no primeiro sábado de cada mês, se realiza uma feira em Guimarães. Já lá fui muitas vezes e confirmo que valia a pena ir. Valia. Porque já não vale. Nos duas últimas feiras, isolado e só, com moeditas da república e alguns euros, o mesmo vendedor da esquina. Tão cedo não volto lá. E é pena, porque Guimarães é cidada lindíssima e que merece visitas sistemáticas. Adoro Guimarães, eu, que sou de Braga!

quarta-feira, agosto 29

QUANDO AS FÉRIAS TÊM ASAS...

E já são 29... Que chatice...

segunda-feira, agosto 20

TSUNAMI?

Este ceitil não é meu, vi-o no fórum OMNI, espanhol, e achei graça ao comentário do autor do tópico: " He encontrado pruebas científicas de un tsunami en la Edad Media en Portugal, de como las ollas engullian las torres de los castillos". Este ceitil de Afonso V é, na verdade,muito bonito. Devido a dupla batida, um torreão parece afundar-se nas águas revoltosas do mar. Por estes pormenores e por outros, tenho uma admiração especial por dinheiros e ceitis. Quando os olho, descubro sempre coisas novas, que me prenchem o espírito nas horas de lua chata.

sábado, julho 28

LER É PRECISO!

“Também lês disso?”, perguntaram-me um dia quando me viram com “A Bola” na mão. Pergunta estúpida. “A Bola”, o “Record”, o “Jogo” e outros jornais desportivos são veículos importantíssimos de cultura e, num país que assume o seu profundo gosto pelo futebol, veículos quase insubstituíveis. De manhã, quando tomo o meu cafezito na esplanada em frente, não há cliente que não folheie um jornal desportivo, entre outros. Se não aprofundam outro tipo de leitura, que as pessoas leiam pelo menos jornais. Por isso fiquei contente quando peguei hoje no “Record” e vi lá uma pequena entrevista a Aguiar e Silva, professor catedrático jubilado das Universidades de Coimbra e Minho. Não sabia que o professor tinha jogado futebol, que aprecia natação ou atletismo. Mas era fácil presumir o seu amor pela cultura desportiva: profundíssimo conhecedor da cultura greco-latina, ele sabe que nos jogos olímpicos da antiguidade se projectava a humanidade em todo o seu esplendor. Se até as guerras paravam para ver os desportistas…
Viva o desporto! Vivam os jornais desportivos! Vivam todos os que acreditam que a CULTURA também se faz de dardos, de discos, de varas e de relvas, de campos enlameados, de palavras, de frases e de ideias além dos nossos grandes saramagos.

terça-feira, julho 24

A MINA

Não consigo perceber porque se preocupam tanto com o petróleo. Se o descobrirem ao largo de Peniche (lagarto, lagarto, toc, toc, toc…), era uma vez uma costa linda e donzela. Porque do Carvoeiro, nem vê-lo, quando muito ver-se-á ao longe e ao perto a negridão do carvão… Também não entendo esta azáfama em torno de ouros ou volfrámios, como se de metais vivêssemos neste rectângulo cada vez mais quadrado. Vocês já viram os bancos? Não mexem uma palha, a malta vai de joelhos e sai a esguichar sangue, e ele são lucros fabulosos em hora de soluço colectivo. Portanto, a prospecção só faz gastar dinheiro, é completamente desnecessária, além de dar cabo dos costados cá do pessoal que, na escuridão das minas, tem de vergar a cerviz a tudo quanto é capataz. E tudo isto porque, já viram bem, há uma mina nas estradas, nas ruas e ruelas, nos becos sem saída de cada cidade ou quarteirão. Alguns já descobriram a mina. Ou as minas. Por exemplo, a dos parques de estacionamento. Grande mina, hem? E esta dos limites de velocidade? Caramba… Mais vale tarde do que nunca. Ele era o Porto, ele é Lisboa, é só minério a entrar nos cofres das edilidades… Tenho de me pôr a pau: o meu mesquitinha ou anda a dormir ou anda a programá-las. E era bem feito! Porque é preciso pagar a Pedreira nem que seja à pedreirada… Oh Mesquita, acorda, rapaz!!!

domingo, julho 15

Para quem é, bacalhau basta

Quando eu era rapazote, de canastra na cabeça e pose lampeira, as sardinheiras apregoavam em bem sincopados pregões: “Vinte à croa!”. Era o tempo da sardinha farta e só aparentemente barata. Pelas bandas da aldeia, comer uma sardinha era descobrir o cheiro do mar, e como ela sabia bem em cima de um naco de pão…Tal como as iscas de bacalhau, iscas fritas, que o bacalhau cozido ficava sempre debaixo das couves e das batatas até ao arroto final. Naquele tempo, pois, eram a sardinha e o bacalhau. Peixe do povo, que nem de léguas mirava outras suculentas barbatanas. Para o povo, chegava a sardinha e o bacalhau. Aliás, era o que podia comer, quando de longe se apregoava o pitéu. Mas para os outros havia com certeza boa lagosta e bom camarão. “Para quem é, bacalhau basta”. Naquele tempo, que não agora. Porque agora, o bacalhau não basta ao povo. Já viram o preço dele? Ontem fui comprar duas postas demolhadas, congeladas, assim para o pequeno. Fiquei de olhos em bico: 15 euros (que saudadinhas da croa = coroa=50 centavos)! Meu Deus, como os tempos mudam. No S. João paguei sardinha assada a 3 euros… Não! Temos de mudar a expressão. Melhor será dizer que, “Para quem é, bacalhau talvez baste”. Isto se quisermos dar de oferenda um bacalhau ao grande amigo. Ou talvez um peru. Mas cuidado com os sentidos, que esta língua é mesmo muito traiçoeira…

sexta-feira, julho 13

ESTE ZEQUINHA...

Gosto de trabalhar de noite. Como de costume, ontem ia lendo e escrevendo umas coisitas enquanto via o Chile-Portugal, em sub-20. Não esperava grande coisa da equipa portuguesa que, nos jogos anteriores, demonstrou demasiada fragilidade. Treinador de sofá como sou, lá me vou apercebendo de que estas equipas formadas e orientadas pelo José Couceiro não valem mesmo nada, não criam um lance em condições, andam à deriva. O que vi ontem, no entanto, ultrapassa a linha do minimamente admissível. Os jogadores do Chile corriam dez vezes mais do que os nossos, tacticamente deram-nos um bailinho de todo o tamanho. Não sei muito bem como são escolhidos estes jogadores “de selecção”, como pomposamente gostam de ser chamados. Tenho para mim, no entanto, que dar uns toques e fazer umas piruetas não tem nada a ver, um futebolista profissional que se preze tem de ter tudo no sítio, incluindo logicamente a inteligência e a emoção. Não é de agora que os jogadores portugueses mostram uma fragilidade emocional confrangedora, e algo vai mal no reino dos nossos futebóis. Então aquele final de jogo, com a agressão do Mano e com o Zequinha a tirar o cartão da mão do árbitro, foi de gritos. E não é que o Zequinha ainda se achava com razão? Viram como ele saiu do campo agarrado pelos colegas? Jogar na equipa de Portugal tem de ser outra coisa, muito diferente, a agressividade deve ser demonstrada no próprio jogo e sempre dentro das suas leis. Jogadores com esta instabilidade emocional não podem jogar na selecção portuguesa, tal como não podem comandá-la treinadores que perdem sempre por causa dos árbitros… Que tristeza!

quinta-feira, julho 12

O DESPORTO E A LEITURA...

Sempre gostei de desporto, joguei futebol, participo o mais possível nas actividades desportivas dos meus filhos, aceito inclusive dirigir de uma ou outra forma alguns clubes, ou pelouros de clubes, tudo em nome da saúde física da minha gente. Como se diz em português corrente, “vou a todas”. Acho, aliás, que o desporto é “a” escola de todas as virtudes. Por isso participo, e leio. Há tempos, um amigo que me conhece a veia mais intelectual, vendo-me a ler “A Bola”, perguntou-me meio admirado: “Também lês disso?”. Que resposta havia de dar a tão perplexo amigo? Respondi-lhe: “Claro que leio. E tu, não lês?”. Olhou para mim e acho que percebeu. Porque a cultura também passa pelo desporto. Aliás, como diria o Eça, também passa pela forrrrrça física, a par da forrrrrrça intelectual. E quando ontem disse ao meu mais novo: “Filhote, não te esqueças de ler”, e ele me respondeu: “Compra-me o “Record” que eu leio”, nem pensei duas vezes. A partir de hoje, volto a comprar o “Record”. Eu, que tenho tudo à mão de semear na Internet… Mas se o meu filho quer lê-lo, eu compro-o, pronto!

sábado, junho 30

PIRANHAS

«Parecemos piranhas atrás dos talentos de Portugal», diz treinador do Newcastle.

É verdade. Portugal tem hoje uma política de formação, na modalidade de futebol, que não tem paralelo em toda a Europa. Clubes como o Sporting, o Porto ou o Benfica, mas também como o Boavista ou o Vitória de Guimarães, marcam a diferença e produzem jovens talentos que, se bem trabalhados, rendem fortunas. Pelos lados de Alcochete, há muito se descobriu o filão. O Sporting tem olheiros em tudo quanto é canto, e os resultados aparecem. O Porto vai tentando. O Benfica, o "maior do mundo", tenta dar alguns passos. Para quem conhece o sistema, o Vitória de Guimarães potencia-se como grande formador, e aqui pelo norte bate-se com todos. Bato palmas ao Vitória que, desde os tempos da Unidade, soube construir um património e um centro de formação de grande valor. Claro que é preciso melhorar, mas os resultados estão aí... Infelizmente, o meu Sporting de Braga, neste aspecto, é uma desolação. A equipas dirigentes só querem saber do futebol profissional e dão zero aos jovens, que, coitados, treinam em 5 metros de terra enlameada. E quantos jovens talentos não têm passado por este nosso clube... São uns anjinhos. Para quando uma equipa dirigente com olhinhos? Eu começaria pela base, pelas infra-estruturas. Partiria do zero, porque o Sporting de Braga, neste aspecto, está no zero! E eles, os jovens, saem do clube, partem, vão para os Sportings. E, claro, servem de refeição às piranhas. Quanto recebeu até hoje o Sporting de Braga por ter feito formação desde os Infantis? Imagino que zero absoluto. Uma tristeza!

sábado, junho 23

sexta-feira, junho 22

DEIA AUS PROBES!

Tenho nas mãos a prova de Português do nono ano de escolaridade. Penso dá-la ao meu mais novo, para treinar, acho que conseguirá resolvê-la sem grande dificuldade. Leio a prova e leio os critérios de correcção. Ou muito me engano ou, com base em tais critérios, os nossos alunos serão todos sumidades. Por exemplo, o ponto nove pede para o aluno imaginar, em uma ou mais frases, um slogan para uma campanha de recolha de alimentos. A solução vale 5% do total da prova. Uma ou mais frases. O que é uma frase? Presumo que alguns alunos escreverão uma frase com uma, duas, três ou mais palavras. Porque é possível construir frases com uma, duas, ou três palavras.Vejo os critérios e noto algo de errado. Porque, desde que o aluno respeite a intenção comunicativa e utilize estratégias discursivas próprias do registo apelativo, e desde que não dê mais de três erros, poderá obter a cotação máxima. Temos então que, sendo DEIA AUS PROBES! uma frase de tipo apelativo que me parece fortíssima, até pelos erros que contém, deverá ser cotada com 5 pontos. Há qualquer coisa realmente errada nestes critérios, não há? Porque, se a intenção da mensagem apelativa é persuadir o outro, o que me impede de escrever uma mensagem com erros desde que cumpra tal objectivo? Lembram-se do célebre Tou Xim? Quantos milhões rendeu esta frase com dois erros de bradar aos céus? Há realmente aqui algo que não bate certo.

sábado, junho 16

AS COISAS QUE ELES INVENTAM…

Um partido português recebeu donativos de um senhor chamado Jacinto Leite Capelo Rego. Eu acho bem, até deviam receber do João de Mil Novecentos e Setenta e Quatro, ou da Naída Navinda Navolta. Nem sei porque os outros partidos se abespinham… Cá para mim, seja Jacinto ou João, seja Natércia ou Navinda, o que é preciso é mover a mó do moinho. E depois admiram-se quando, no café ou no restaurante do lado, o Zé manda umas piadas aos excelsos que nos iluminam…

segunda-feira, junho 11

Afinal fui à Póvoa. A experiência tem-me dito que, quando em Braga chove, na praia está sol. E não me enganei, estava mesmo um céu aberto, pelo menos de manhã. Estavam lá alguns amigos e o Alberto Santos conseguiu vender-me os 500 reis de 1900, do nosso rei D. Carlos. A moedita não foi nada barata, mas dá prazer tê-la na colecção. Os malucos são assim, mas há maluqueiras bem piores... Como fumar, por exemplo. Se fumasse, gastaria, em média, 50 euros por mês, ou talvez mais. Com este dinheiro compro umas moedinhas: tenho prazer em coleccionar e invisto. Porque isto de ter o dinheiro no banco só enche o bandulho daquela gente. É ver os lucros fabulosos que têm diariamente... Ainda dei um salto ao Torneio das Marinhas. É um Torneio de futebol infantil de alto gabarito, movido por excelentes carolas e amigos que, sem esperarem qualquer troco, levam bem longe o nome do seu clube e da sua terra. Vi um pouco do meu Braga contra o Porto, estes putos jogam à bola que se fartam. São uns craques! Parabéns ao clube das Marinhas!

domingo, junho 10

Olá, bom dia! Hoje é domingo, tinha pensado dar um salto à feira de numismática da Póvoa de Varzim, mas o dia acordou cinzento. Será que vai abrir o sol? São sete da manhã. Se não abrir, fico por aqui a ler e corrigir trabalhos. Já não é nada mau, ter trabalho para fazer... Um dia bonito para os meus leitores.

sexta-feira, junho 1

BELO PARDAU...

Estava no Ebay, bem tentei apanhá-lo, mas fugiu-me. Pode ser que apareça por aí novamente. É de D. João III (Índia) com S. Tomé sentado à direita, aproximadamente de 1451. Não gostavam de o ter? É lindo!...

quinta-feira, maio 24

O prefixo ANTI

O prefixo é o elemento da palavra, um afixo, que vem antes da raiz (semantema), e tem origem, em geral, em advérbios ou preposições que têm ou tiveram vida autónoma. Há-os de origem grega e latina, e não poucas vezes causam uma grande confusão, provocada, essencialmente, por factores psicológicos de analogia. O prefixo anti é um desses elementos, e não é fácil sistematizar o seu uso. De um modo simples, porém, podemos dizer que tal prefixo:

a) se junta a todas as consoantes: anticorpo, antigripal
b) excepto às consoantes h, r e s : anti-histamínico, anti-romanismo, anti-semita,
c) e à vogal i : anti-inflamatório.

O significado geral é o de oposição, ou acção contrária.
Não é fácil interiorizar as excepções e jogá-las com a regra. É fácil pensar: se escrevo anti-inflamatório com hífen, antialérgico também deve levar hífen. Errado. Se escrevo anti-semita, porquê anticorpo? Pois é, não há nada como estudar, fixar, sistematizar. Saber Português obriga a saber estas pequeninas coisas...

quarta-feira, maio 23

CARAGO NON... CARAGO!...

No nosso dia-a-dia, de acordo com as múltiplas circunstâncias em que nos movemos, dificilmente usamos um registo de língua uniforme, nem ele existe, como é fácil de ver. Podemos, claro, falar cuidadosamente, com estruturas e palavras “elevadas”, numa conferência de linguística, numa aula de Português, ou, até, numa mesa de café. No entanto, parece evidente que, se participamos num jogo amigável de futebol, o registo desce ligeiramente, e não raras vezes se ouve uma carvalhada acrescida de uma sonora gargalhada. Quer dizer, usamos diversos registos em diversos momentos consoante as circunstâncias, e, se o intuito não for clara e inequivocamente ofensivo, ninguém levará a mal tais carvalhadas. Aliás, expressões consideradas ofensivas, como caralho, ou filho da puta, podem perfeitamente ser usadas com valoração bem positiva. Por exemplo, e neguem-no, se forem capazes, quando vejo Cristiano Ronaldo a torcer os olhos aos defesas e digo Que filho da puta de jogador! Extraordinário…, faço-o com profunda admiração, e nunca com sentido pejorativo.
Vem isto a propósito de uma senhora directora da DREN que decidiu suspender um professor destacado pelo simples facto de ele ter usado a expressão filho da puta num contexto qualquer que não foi especificado ( expressão que, aliás, o professor nega ter usado). E tudo porque, na sua opinião, ofendeu o primeiro-ministro que, ao que parece, é um ser celestial, profundamente angélico e que, durante a sua eremítica vida, nunca deve ter proferido nem uma singelinha carvalhada. Ora, ao que se vislumbra, descobrimos de repente estar o nosso país em fase purgatória, sob os auspícios de angélicos e linguisticamente imaculados dirigentes que, no seu afã de protecção de tachos e panelas, genuflectem perante sábios, eremitas e, pasme-se, até filósofos. Percebe-se a emergência de uma censura que pensávamos a milhas, lá longe, no alto mar. Pelos vistos, as censuras e os censores andem por aí, como diz o zé povinho. Ora bolas: por este caminho, noventa e nove por cento dos portugueses vão ser sujeitos a processo disciplinar por excesso de linguagem. Entom a malta do Puerto, carago… (será que posso dizer carago se o nosso Sócrates me der mais um encontrão? Hmmm… tenho de pensar bem nisso, não vá o diabo tecê-las…).

segunda-feira, maio 21

EUA tentam impedir G8 de impulsionar novo acordo sobre aquecimento global
21.05.2007 – 20h 08m Reuters

É a lei da proporção progressiva: no princípio eram só balas, e lá se foi o índio; nos intermédios eram só bombas, e lá se foram uns, e lá se foram outros; no final de contas, isto é G8 ou é G3? Baixem mas é a bolinha se não ainda disparo umas rajadas que vos lixo...

sábado, maio 19

OS TRÊS

O três é um numeral cardinal, com marca masculina e singular. Quando, no entanto, se ouve a expressão popular os três, plural, remete-se imediatamente para o âmbito sexual. Perder os três significa perder a virgindade. Se procurarmos, porém, o significado de três num qualquer dicionário, dificilmente encontraremos referências que ultrapassem o âmbito numeral. Deixemos a vista alongar-se pelos verbetes relativos a este algarismo e, lá mais para a frente, encontramos o verbete três-vinténs. É isso: quando se fala dos três, fala-se dos três-vinténs. Ora, o vintém é uma moeda, com primeiro curso em D. Manuel I, e os três-vinténs devem corresponder ao meio tostão (50 reais) acrescido de mais dez que, por artes inflacionistas, foram acrescidos ao valor inicial. O tostão media aproximadamente 20 milímetros ( notem bem, 20 milímetros!) de diâmetro. Ora, parece que lá para o norte de África havia o hábito de confirmar a virgindade das donzelas exactamente com uma moeda, que teria mais ou menos o tamanho do hímen. A donzela ganhava ou perdia os três vinténs, consoante fosse virgem ou não. Por metonímia, a expressão deve ter voado de lá para cá, e por isso há quem perca os três. A explicação é interessante e lógica. Mas… exactamente 20 milímetros....?

quarta-feira, maio 16

POIS...

Não, não se trata da princesse aux petits pois, nem do pois chice de que gosto tanto com bacalhau cozido em molho de tomate. Trata-se deste pois, tão eclético em português, que usamos com valorações causais ou conclusivas, e que, em contextos muito específicos, nos deixam torcendo uzolhos ou arrepiando ujdedos. Disse-lhe que não podia ser, que as circunstâncias não o permitiam. Não me disse nada, apenas gorgolejou: Pois… E fechou muito os lábios. Eu percebi-a. Este pois é profundo, e vale novecentas e noventa e nove palavras.

domingo, maio 13

De http://foto-diario.blogspot.com

PUDOR ET VERECUNDIA
Leio « Pudor et Verecundia": deux formes de la conscience morale? de Jean-François Thomas. Penso na origem das palavras, na evolução semântica, na polissemia evidente, na pretensa sinonímia. Pudor: escrúpulo, timidez, modéstia, sentimento de honra ou honorabilidade. Também verecundia>vergonha: sentimento de honra, escrúpulo, timidez, modéstia. Comparo as palavras e parecem-me sinónimos perfeitos. Serão, no entanto, duas formas da nossa consciência moral? Os nossos jovens de calças pelos pés e de cuecas à mostra são despudorados ou desavergonhados? E os nossos políticos, os nossos jardins sem bananeiras visíveis, são sem-vergonha ou sem-pudor? Ora cá está um tema interessante! Ofereço-o a quem queira aprofundá-lo.

quinta-feira, maio 10

ATITUDES

Anteontem fui a um banco depositar uns valores. Quando verifiquei a caderneta voilà um erro: menos 600 euros. Chamei a atenção do empregado que me pediu desculpa e acertou a coisa. Ontem fui ao mesmo banco depositar uns cheques. Quando verifiquei a caderneta, faltavam 1200 euros. Chamei a atenção do empregado ( não era o mesmo) que me pediu desculpa e acertou também a coisa. De manhã, em Guimarães, paguei um café com 5 euros. Recebi de troco 2,5 euros. Chamei a atenção do empregado que me pediu desculpa e acertou a coisa. Ontem à tardinha, na esplanada do Bom-Jesus, paguei dois cafés e umas águas com 20 euros. Recebi de troco 2,80 euros. Chamei a atenção do empregado que me pediu desculpa e acertou a coisa. Acreditem que não estou a inventar, é mesmo verdade! Das duas uma: ou esta gente é muito distraída, ou só sabe somar para baixo e tem de voltar à escola, ou os portugueses são visceralmente corruptos, e não há nada a fazer. Pela minha parte, prometo-me verificar todos os trocos, todos os pagamentos ao milímetro. Porque já sei: a mais nunca receberei um cêntimo; mas é provável que de cinco em cinco minutos me dêem a menos uma caterva deles. Enfim, quem me avisa, meu amigo é... E eu estou a avisar-me.

sábado, maio 5

ROR

Lê-se a palavra. Não, não é rol, é mesmo ror. Mas esta palavra usa-se? Perguntei a uns trinta alunos: ninguém a conhecia. Acrescentei-lhe a preposição de: ror de. Na mesma, como a lesma. Incluí-a numa frase: No S. João estava um ror de gente. Aaaahhh… Agora sim, abriram a boca de espanto. Nunca ouviram ou leram a palavra ou a locução. Mas descobriram o sentido. Interessantes, os mecanismos linguísticos: No S. João estava muita gente. O que poucos sabem é que ror é uma redução de horror: No S. João estava um horror de gente. Costuma estar, desde que não chova.

segunda-feira, abril 30

ROSALÍA DE CASTRO

Un manso río, una vereda estrecha,
un campo solitario y un pinar,
y el viejo puente rústico y sencillo
completando tan grata soledad.

¿Qué es soledad? Para llenar el mundo
basta a veces un solo pensamiento.
Por eso hoy, hartos de belleza, encuentras
el puente, el río y el pinar desiertos.

No son nube ni flor los que enamoran;
eres tú, corazón, triste o dichoso,
ya del dolor y del placer el árbitro,
quien seca el mar y hace habitar el polo.
DIGA-ME, SR. PROFESSOR: QUE É QUE O MEU FILHO FEZ?

O pai de um aluno foi chamado à escola do filho. Quando chegou, disse-lhe: "Diga-me lá, senhor professor, o que é que ele fez? Pelo sim, pelo não, já lhe dei uma tareia". Parece anedota, mas, garante Morgado, aconteceu assim. O caso ilustra como entre algumas famílias está instalada a ideia de que ir à escola dos filhos "é sinónimo de problemas, de ir ouvir alguma coisa má sobre eles". E só isso.

In Público de 30.04.2007

Risível, não é verdade? E dá que pensar. O nosso problema é que pensamos pouco, deixamos que os outros pensem por nós… Eu, que até acompanho razoavelmente a vida escolar dos meus filhos, já senti este problema: os procedimentos burocráticos incidem exclusivamente nos aspectos “negativos” da acção juvenil. O aluno deixa cair um lápis? Comunica-se ao director de turma. O aluno espirra? Comunica-se ao director de turma. O aluno ri-se? Comunica-se ao director de turma. E este, claro, ampliando os acontecimentos, comunica aos pais. Que, embrenhados na sua vida, detestam receber tais comunicados. Em trinta anos de vigilância escolar dos meus filhos, nunca recebi informações positivas suas. Penso que há excesso de zelo da parte de alguns professores, demasiado preocupados com o comportamento dos seus alunos. Tenho para mim que um bom professor saberá encontrar a cada momento as estratégias adequadas, com aulas bem planeadas e atractivas, de forma a não "permitir" maus comportamentos. Em mais de trinta anos de profissão, NUNCA fiz uma participação disciplinar! Nunca achei necessário, nem sei porque deveria passar para os outros responsabilidades exclusivamente minhas. Porque o professor tem de amar os seus alunos, e compreendê-los, e perdoar-lhes, tal como amamos e perdoamos os nossos filhos. Eu sei que a coisa às vezes é complicada, que há comportamentos difíceis de entender, e que há professores sem paciência. Mas...

sexta-feira, abril 27

A CIDADELA BRANCA II

Acabei A cidadela branca. Li o livro em seis horas, nada mau. E se o li em seis horas isso significa que gostei. O tema é simples e poderia resumir-se em “Quem sou eu?”. Não me perguntem porque gostei, eu limito-me a gostar, e o critério estético é exactamente esse, o do gosto. Nesse aspecto, vou na onda do Vergílio Ferreira. Não sei porquê, mas lembrei-me de Borges, esse argentino extraordinário. E é tudo. Ah… para a Margarida, a minha comentadora: quando disse “risquei” queria dizer “sublinhei”. Tenho montanhas de livros sublinhados, são meus e são da minha gente. Tomara eu que o meu mais novo sublinhasse…

quinta-feira, abril 26

A CIDADELA BRANCA

Comecei o Pamuk. Vou na página 70 de A cidadela branca. Risquei a seguinte passagem:

(…) por serem todos “idiotas”, não olhavam para os astros que se moviam por cima das suas cabeças e não reflectiam sobre esses movimentos; por serem idiotas, perguntavam antes de mais nada para o que podia servir o que iam aprender; por serem idiotas, não se preocupavam com pormenores e contentavam-se com resumos (…).

Hmmm… o contexto é diferente, mas isto faz-me lembrar qualquer coisa…

segunda-feira, abril 23

ORHAN PAMUK

Ter alunos estrangeiros tem destas vantagens: nós ensinamos pouco e aprendemos muito. Hoje conversávamos sobre Saramago, sobre as peculiaridades do seu estilo, denso e difícil. Falamos, claro, sobre o prémio Nobel. O Hakan, de barbicha ao queixo, sorriu e perguntou: o professor já leu o Orhan Pamuk? Oh vergonha das vergonhas, disse-lhe que não. Mas é o Nobel 2006, sorriu. Engoli em seco e prometi-lhe que sim, que iria ler tudo do Orhan. E o prometido é devido: vou ler o grande escritor turco. Depois direi qualquer coisa.

quinta-feira, abril 19

FUTEBOLISTAS: OS APOCALÍPTICOS

Pois é, abro os jornais e espanto-me com o esgar guerreiro e os dentes eriçado-amarelos dos nossos jogadores de bola. Um diz que vão lutar até à morte. Coitado. Lá terá de ser… Outro diz que vão lutar até à última gota de sangue. Já viram? Eles a correr e o sangue a pingar, a pingar… Por isso é que eles caem tanto, coitados… O do Benfica é mais epidérmico, vai deixar a pele em campo, acho que já comprou dois quilos de pele artificial… Os do Porto, esses, porque o Norte é mais verde e mais saboroso, até comem a relva. Mas não, estes não são guerreiros, estes parecem ruminar no fim de cada jogo. De momento, a vantagem é dos ruminantes, porque se alimentam bem. Os outros, sem pinga de sangue, já não podem com a bola. Este futebolês…

quarta-feira, abril 18

ALGARVE, FUTEBOL, HINOS E CRIANÇAS

No Algarve, houve um Torneio de miúdos, vieram de todo o lado, também da nossa vizinha Espanha. Quando tocou o hino espanhol, a equipa do Barcelona não compareceu. Deve haver alguma explicação para o facto, mas em Espanha caiu o Carmo e a Trindade. Segundo a “Marca” de hoje, Laporta respeita o veto do hino espanhol: “Yo no voy a alimentar estas cuestiones. Se retroalimentan solas. Respeto todo lo que han hecho los representantes del club en esta cuestión y en todas porque toman las decisiones que creen que tienen que tomar. Y pido respeto también”. Claro, o respeito é muito bonito. Mas los niños... Devíamos proibir os hinos? Se calhar, como neste caso, as crianças agradeciam. Porque isto de "Às armas, às armas..." cheira ligeiramente a vivaz arcaísmo. Ou estou a exagerar?

segunda-feira, abril 16


O NOME DAS FLORES
Hoje a Bela deu-me uma lição toda floral. Eu já sabia que nomear a natureza requer imensa sabedoria, há tantas árvores, tantas flores, que até me sinto envergonhado por desconhecê-las. Quer dizer, eu sei o que é uma tília, tenho-a mesmo em frente do nariz, dá muita sombra nos dias de canícula; também sei o que é um castanheiro, como dele as castanhas, a minha mobília é de castanho, podia ser de vinhático, mas não é. E até sei mais alguns nomes, mas perante elas, quando as vejo e quero identificá-las, saltam-me as meninges, sou analfabeto, alguém falhou na formação e fui com certeza eu. A Bela, pois, falou-me da arruda. Eu conhecia o nome, mas nunca a vira. Que cheira mal, diz ela. Eu não achei. Tem um cheiro forte, mas não desagradável. Que espanta o mau-olhado. E parece ser verdade, pelo menos os antigos já lhe atribuíam esse condão. Outros querem-na afrodisíaca. Eles lá sabem. Mas quando me falou nos olhos-de-freira, nos pica-narizes ou nas cristas-de-galo, juro que descambei. Eu de flores sei as rosas e os cravos, os contáveis mal-me-queres e, em excepcional extremo, os brincos-de-princesa ou as alegria-no-lar, todas elas flores bem jardináticas e nada dadas a grandes interiores. O que eu não esperava da Belita era um não-te-metas-na-minha-vida. Olhei bem de soslaio para os seus ondulantes cabelos, franzi-lhe uma bochecha, e só ao fim de sorumbáticos segundos percebi que designava uma ervita qualquer. E eu na minha ignorância: isso são designações bem regionais, na minha terra nunca ouvi falar disso. A minha terra, ali ao lado, uma centena de metros, duas centenas talvez…

domingo, abril 8

QUE NOSSA SENHORA NOS PERDOE !

Fiquei curioso. Não-te-metas-na-minha-vida é longa e curiosa designação para planta ou flor, e prova esta relação quase indissolúvel entre as nossas emoções e a natureza que as pressente. Na minha busca de outros nomes curiosos, de plantas ou flores, encontrei o choramingas não-me-deixes. Lembrei-me imediatamente daqueles versos do Gonçalves Dias, que dizem assim:

Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava...
"Ai, não me deixes, não!"

Onde terá o miosótis ganho cidadania como não-me-deixes? Na pena do poeta? Ou terá o poeta jogado este jogo entre a coisa e a sua denominação popular? Porque o povo tem-nas boas, ora é o não-me-deixes, ora o não-me-esqueças, ora ainda o não-me-toques, ora, no limite, o não-te-esqueças-de-mim. Claro que foi o povo, não o erudito, que nomeou as flores. A flor é de Abril ou é de Maio, é de esperança, é de amor ou de paixão. A de lis é também a da verdade. A flor-da-noite traz consigo uma alvorada. A viuvinha, essa, é a flor-de-viúva sorrindo à nova vida. Mas a melhor, a que me deixa mesmo derretido pela abrangência da significação é, sem a mínima dúvida, a flor-de-babado-de-nossa-senhora. Que a Senhora compreenda, e nos perdoe todos os pecados, inclusive o da nomeação.

quarta-feira, abril 4

A INVERDADE

Soa tão mal, não soa? A verdade, porém, é que a verdade anda de tal forma aos trambolhões que já nem tolera a mentira. Porque mentir é, segundo o dicionarista, uma acção bruta. E não convém ser-se bruto quando assim se mente. Nós ouvimos os políticos e eles nunca mentem. Quando muito, dizem algumas inverdades. E pronto, ficam de alma lavada. Se a língua é bela, este neologismo é feio. Atiremo-lo, Lídia, à força do rio.